Poeta e jornalista, Fabrício Marques reconhece na reescrita uma das etapas mais prazerosas do trabalho literário. Autor de Fora do alcance da memória, que reúne inéditos e poemas de seus quatro livros, ele aproxima a escrita da caminhada, da escuta e da música — de Keith Jarrett e Miles Davis a Milton Nascimento e Lô Borges. Leitor recorrente de Millôr Fernandes e Carlos Drummond de Andrade, Marques defende uma literatura capaz de ampliar a visão de mundo e recusa a ideia de um saber definitivo: para ele, tudo permanece como “uma página em branco, pronta para ser escrita”.
• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Nos estertores do que hoje é conhecido como ensino fundamental, fui apresentado pela professora dona Isabel ao soneto XCVIII, de Cláudio Manoel da Costa. O poema, que começa com “Destes penhascos fez a natureza/ O berço em que nasci: (…)”, bateu demais, me fez querer ler mais coisas parecidas com essa. E algo decisivo foi quando, num dia das Mães, pré-adolescente, ofereci para a minha progenitora um poema do Drummond como se fosse meu. Ela mostrou para as amigas, elogiando o filho, e tive que me desmascarar. Ali nascia (ou morria) um saqueador desabusado de versos alheios.
• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Minha principal obsessão é escrever ouvindo música: traço um paralelo imaginário entre o que escuto e o que produzo. Há poemas que foram feitos ouvindo Keith Jarrett, Miles Davis, Milton Nascimento, Lô Borges.
• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Millôr Fernandes e Carlos Drummond de Andrade. Da mesma maneira que ouço várias vezes uma música de que gosto e revejo várias vezes filmes de minha predileção, também releio sempre esses autores, uma novidade permanente.
• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Se puder dois, aí estão: O espaço do cidadão (Edusp), do Milton Santos, e Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira (L&PM), do Paulo Prado.
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Depois de caminhadas, que estimulam o surgimento de ideias e pensamentos, então sou adepto da escola peripatética. O ato de escrever pode ser tanto ouvindo música quanto ouvindo o silêncio.
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
No momento que antecede a leitura, o ideal é desacelerar em relação aos acontecimentos do dia, cultivar um relaxamento que favoreça o foco no livro que se tem às mãos.
• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Coleciono palavras, anoto-as, deixo-as esquecidas em alguma gaveta, e depois começo a trabalhar em um poema a partir delas, procurando uma relação delas com algum acontecimento, sensação ou pensamento. Produtivo é quando desenvolvo algo a partir daí. Um dia descobri a palavra “suaviloquência”. Então não sosseguei até escrever algo em torno dela: “Aquele bric-à-brac de lembranças/ que chama à fala/ certo sorriso/ com suaviloquência./ Certo sussurro roçagante”.
• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
A reescrita.
• Qual o maior inimigo de um escritor?
É fechar-se em si mesmo, em sua bolha particular. Não ter, ou perder, a capacidade de escutar o outro, colocar-se no lugar do outro.
• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Os autores contemporâneos, de modo geral, interessam-se muito pouco pelos autores contemporâneos. Aproveito para recomendar alguns que li recentemente, e que estão há tempos na estrada: o contista Francisco de Morais Mendes e os poetas André Dick e Alícia Duarte Penna.
• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Jaime Prado Gouvêa, contista e romancista. Representa autores não propriamente subestimados, mas quase esquecidos e que novos leitores precisam descobrir.
• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Grande sertão: veredas. Descartáveis: os que nos deixam indiferentes.
• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Subestimar o leitor.
• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Um assunto que morresse.
• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Tenho um poema chamado Como eles morrem que é uma sucessão de necrológios de poetas. Tive que pesquisar para montá-lo, numa espécie de bricolagem.
• Quando a inspiração não vem…
Como em quase tudo, recorro à música. Ouvir uma boa canção desperta todo o nosso corpo e a nossa mente.
• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Wander Piroli. Era um humanista radical, e dizia coisas assim: “Pescar é mais importante que escrever. Escrever faz mal para a saúde. Não conheço uma só pessoa que se tenha tornado melhor com a literatura: geralmente, piora. Há poetas, porém, que dizem que fazer poesia ‘é minha vida, é o ar que respiro’. Respiram mal e têm uma péssima vida”.
• O que é um bom leitor?
O Sebastião Nunes me disse uma vez que não se faz nada bom sem entusiasmo. Essa máxima se aplica ao leitor também: o leitor deve ter um interesse permanente pela leitura, um leitor entusiasmado pelos bons textos que lê.
• O que te dá medo?
Fico apreensivo com o rumo para onde o mundo está caminhando, com o recrudescimento do fascismo e da ultradireita, o desrespeito com o meio ambiente, a ascensão de líderes perversos.
• O que te faz feliz?
Estar com minhas filhas. Viajar, sentir o vento, encontrar com o mar. Ver os amigos.
• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Quando era mais novo, achava que, na idade madura, saberia muito e tudo seria mais fácil. Mas, chegando aos 60, percebo que entendi errado. A gente não sabe é nada. Tudo é uma página em branco, pronta para ser escrita.
• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Fazer-me claro, conseguir me comunicar, criar um pacto com o leitor, ainda que o texto tenha passagens difíceis, herméticas.
• A literatura tem alguma obrigação?
Não diria obrigação, mas ter contato com a literatura deveria significar ampliar a visão de mundo. Nesse sentido, lembro de uma entrevista de Homi Bhabha, na qual ele diz que a literatura é uma forma de expressão que nos permite criar, em nós mesmos, uma força espiritual, ética e estética de sobrevivência. Ela nos ajuda a sobreviver porque coloca questões como alteridade, alternância e contrafactualidade no centro de um projeto de imaginação literária.
• Qual o limite da ficção?
Na ficção cabe tudo, muito embora, como afirmou ironicamente o poeta tcheco Miroslav Holub, “há poesia em tudo. Esse é o maior argumento contra a poesia”. Dito isso, de tudo se faz canção, poema, romance.
• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Ao Acaso. O filósofo grego Demócrito disse que “tudo que existe no cosmos é fruto do acaso e da necessidade”. Em sua prática jornalística, Gay Talese exercitou muito a busca pela serendipidade, esses encontros fortuitos que geram diamantes narrativos.
• O que você espera da eternidade?
Algo a se pensar a longo prazo.