O malabarista concentrado

Caetano W. Galindo: “Escrever, qualquer coisa, é manter um monte de malabares no ar e tentar fazer eles montarem uma forma bonita ali em suspensão”
Caetano W. Galindo , autor de “Lia: Cem vistas do monte Fuji “. Foto: Sandra M Stroparo
01/05/2026

Tradutor incansável, professor e escritor, Caetano W. Galindo nasceu em Curitiba (PR), em 1973. Construiu uma trajetória pessoal e profissional marcada pela música, pela paixão por James Joyce e por uma curiosidade linguística que o levou a publicar livros sobre o português e a literatura, como Latim em pó e Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce. Autor de mais de sessenta traduções — de Eliot a Pynchon, de Foster Wallace a Alice Munro — e vencedor de prêmios como Jabuti, APCA e Paulo Rónai, Galindo também se aventurou na ficção, com o romance Lia (2024, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e a peça Ana Lívia. Entre instrumentos musicais, milhares de livros e um humor que não poupa nem a si mesmo, ele fala neste Inquérito sobre manias, obsessões, previsibilidade, inspiração e o prazer de manter “um monte de malabares no ar” até que se transformem em literatura.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Eu ainda nem sei se quero… Eu quis ser músico, fui traído pela minha mão esquerda lesionada e precisei me afastar. O resto, as escolhas profissionais do resto da minha vida foram sempre meio matizadas por isso; pelo fato de que a minha escolha “real” virou uma impossibilidade. E isso me dá certa leveza pra lidar com esse resto, “sucessos” e fracassos, igualmente. Dito isso, quando eu prestei vestibular, depois de sair do conservatório, escolhi Letras porque achei que ia sair dali formado escritor! Vã vaidade em vão…

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Ixe. Mania eu tenho pra tudo. E eu sou poliobsessivo. Mas no que se refere à literatura, James Joyce e David Foster Wallace dominam o campo. São autores que eu quase já nem “leio” mais, que me habitam, que me formam, me conformam e me deformam.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Eu gosto de estar lendo. Sempre lendo alguma coisa. E talvez a única constante, a única coisa “imprescindível” seja o romance. A prosa de ficção. Tem fases em que eu leio mais outras coisas. Mas a minha casa é sempre o romance.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Ah, eu seria cabotino insuportável e indicaria o Latim em pó, só pelo prazer de imaginar que ele pudesse me ler.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Tempo concentrado. Ininterrupto, silencioso e concentrado. Nem que seja um bloco de quarenta minutos. Prefiro de longe ter quarenta minutos de total concentração sem outras demandas do que ter duas horas picadas. Escrever, qualquer coisa, é manter um monte de malabares no ar e tentar fazer eles montarem uma forma bonita ali em suspensão… e precisa concentração, atenção, concentração, atenção, concentração… precisa concentração no sentido químico mesmo, sabe? Densidade. O meu tipo de concentração é o mais burro, de foco bem estreito, que eu até me assusto se alguém fala comigo. Me perco e desencaminho…

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Tem isso, não. Eu leio andando na rua. Leio entre tarefas. Leio picado. Leio corrido. Leio quando dá. E, não fosse por isso, não dava. Quase tudo que eu li nas últimas décadas, eu li graças a audiobooks ou a essa capacidade de ler andando, fazendo outra coisa. Senão cadê tempo?

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Um dia em que eu “fiz” alguma coisa. Um dia que termina com alguma coisa que antes não existia.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Eu gosto desses momentos de “flow”, sabe? E eu sou meio inclinado a eles. Eles me vêm fácil. E eu entro numas viagens bem gostosas. Tentando digitar o mais rápido possível pra não perder a velocidade das ideias. E isso, quando encaixa, é muito gostoso. É mais ou menos como uma aula que dá muito certo.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Querer ser o que não é. Querer fazer o que os outros fazem.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Fórmulas. Repetitividade. Acolhida automática do mesmo, do previsível, morninho e felpudo. Previsibilidade. Mas isso se refere mais à literatura produzida do que ao “meio”. Acho que meu perfil curitibano mal conhece o meio literário!

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Machado de Assis. Não: a gente não presta a devida atenção nele. Ir além da efígie. Fuçar mesmo. Ler o menos conhecido. Ler na sequência. Ficar pasmado com o tamanho do camarada.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Ulysses. E taaaaantos. E veja que descartável não é nem necessariamente ruim. P. G. Wodehouse, que eu adoro, fez toda uma carreira escrevendo livros “descartáveis”. Às vezes é tudo que você quer, e tudo de que você precisa. O que me dói mesmo é uma coisa que o Guilherme Gontijo Flores definiu perfeitamente, os livros “auto-limpantes”. Esses não precisavam existir. Desaparecem como se nunca tivessem ocupado teu tempo. E fazem esse tempo perdido ganhar espinhos.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Pra mim, sempre, previsibilidade formal, até mais do que de trama ou psicologia. Alguém que entende bem as regras do jogo e acha que isso basta. Alguém que acredita nas “regras do jogo”.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Alguma coisa que me desse trabalho pra pesquisar. A preguiça é meu bem mais precioso.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
De uma colega de escola que eu nunca mais vi e que, aos oito anos de idade, um dia, virou pra trás na carteira com o cabelo penteado pra frente da cara e fez cara de monstro pra mim.

• Quando a inspiração não vem…
Não sei se o nome é inspiração. Mas quanto mais velho eu fico, mais eu aprendo que não adianta querer arrancar fruta verde. Eu tenho que esperar. O que pra outras pessoas pode parecer procrastinação, em mim, muitas vezes, é essa sabedoria (ai, que metido) de entender que ainda não está na hora de lidar com isso. Quando estiver maduro, cai. Quase literalmente. Rápido, redondo e “prontinho”.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Ah, o Wallace. Sem a menor sombra de dúvida. O Joyce era meio chato empolado pra conversa, a não ser que estivesse bêbado.

• O que é um bom leitor?
Alguém com um apetite variado, sem preconceitos definitivos e definidores. Alguém atento ao jogo de forma e conteúdo. Alguém curioso e que esteja disposto a se maravilhar.

• O que te dá medo?
A morte das pessoas que eu amo.

• O que te faz feliz?
A existência das pessoas que eu amo. Johann Sebastian Bach. Ter passado milhares de horas da minha vida aprendendo a fazer um objeto inanimado cantar. Passar uma hora tocando piano, tocando violão, à toa, com o lado verbal do cérebro finalmente aquietado. Meditação.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Se alguém vai achar aquilo bonito. Importante…? Se aquilo vai “falar” com alguém, dizer alguma coisa. E a certeza de que a minha vida é muito melhor, mais plena e mais feliz graças a outras pessoas que em diversos cantos do mundo, em momentos históricos diferentes, deixaram coisas escritas e, por cima dessas distâncias de tempo e de espaço, puderam conversar comigo. A esperança de poder entregar alguma coisa assim pra meia dúzia de pessoas.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Conseguir dar forma ao que eu acho que tem forma.

• A literatura tem alguma obrigação?
Se tiver, não é literatura.

• Qual o limite da ficção?
O cuidado. É como um outro discurso qualquer. Você é responsável por aquilo. Eu não escreveria algo que me parecesse perigoso em termos do efeito que pudesse ter sobre alguém.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
À Sandra.

• O que você espera da eternidade?
Absolutamente nada.

Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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