Nascido em Salvador (BA), em 1962, Mayrant Gallo é autor de livros como O inédito de Kafka, Três infâncias, Os encantos do sol e, mais recentemente, Marilyn Boulevard. Avesso a modismos e à exposição, o escritor baiano defende uma literatura guiada pela liberdade, pelo rigor formal e pelo estilo. Neste Inquérito, fala de seus hábitos de leitura e escrita, das referências que o acompanham e de sua relação com o silêncio, a releitura e o anonimato.
• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Provavelmente, quando tinha entre 11 e 12 anos, no Rio de Janeiro, durante a visita de meu tio à residência dos meus pais. Ele era escritor. Levou alguns livros para meu pai, que era um ótimo leitor, e os autografou. Achei aquela situação particularmente bonita. O escritor, as pessoas à sua volta, parentes, amigos, vizinhos… Não era bajulação: o que marcava a cena eram o respeito e o fascínio.
• Quais são suas manias e obsessões literárias?
A única mania é não mencionar nem mostrar a ninguém o que eu estiver escrevendo. Se faço isso, não consigo mais escrever. Fico estagnado. Obsessão… creio que é deixar o texto perfeitamente ajustado ao meu padrão estilístico. Tenho uma forma de escrita que, com o passar dos anos, ficou meio retrô, e cultuo isso ao extremo, com satisfação.
• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Releituras mais do que leituras. E geralmente não abro mão do meu gosto pessoal. Evito livros da moda, aqueles títulos que todo mundo está lendo só porque todo mundo está lendo…
• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Os ratos, de Dyonélio Machado. Um dos livros mais pungentes da literatura mundial. Talvez ele se inspirasse a baixar o preço do leite…
• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
No meu caso, as manhãs de domingo. É quando particularmente gosto de escrever e escrevo com facilidade, sem qualquer esforço e num bom nível de acerto estético. Sou um “escritor de domingos”, como, na Rússia do século 19, o compositor Aleksandr Borodin, que só compunha aos domingos, porque no resto da semana era químico e, se não me engano, professor.
• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Entre as duas e as cinco da madrugada, sob o silêncio do mundo. É também um período em que, às vezes, escrevo, com resultados satisfatórios.
• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando o texto recém-escrito parece que sempre esteve ali, quase como se fosse uma criação alheia.
• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
O momento — raro, aliás — em que a ideia ganha forma, de tal modo ajustada, e com a sua peculiaridade poética, especialmente na prosa, que é como se não pudesse ser dita de outra forma.
• Qual o maior inimigo de um escritor?
A vontade irrefreável de estar em evidência por meio da publicação. A publicação não é para evidenciar o escritor, mas para legitimar a qualidade do texto.
• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Atualmente, o fato de que a literatura tenha se tornado um “modo de usar”. Adota-se uma causa e usa-se a literatura para disseminá-la. A literatura só tem um propósito: ser literatura; tudo o mais é adereço, apêndice extraliterário, frenesi.
• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
O contista gaúcho Sergio Faraco. Um mestre absoluto do seu ofício há décadas.
• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível, Dom Casmurro, claro! Quanto ao descartável… qualquer um que me digam que eu “tenho” de ler — e não são poucos… O processo de leitura de literatura envolve três fases bem distintas: começamos a ler por necessidade, depois lemos por hábito e por fim por gosto pessoal. Neste último estágio, seguir indicações alheias será sempre temerário.
• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
No romance, na novela e no conto, a padronização da linguagem. Na poesia, a falta de poesia, ou seja, de tecido sonoro e metáforas, pois a poesia genuína deve fazer com que as palavras soem para além do que dizem e pelo que dizem.
• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Tráfico, comércio e consumo de drogas. Um assunto, para mim, completamente démodé e saturado de lugares-comuns. Escrevi um único conto em que o consumo de drogas aparece, mas de forma irônica; a consequência foi que as poucas pessoas que o leram e falaram comigo não entenderam a ironia.
• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
O cruzamento da Rua do Cabeça com a Rua Carlos Gomes, em Salvador, que me inspirou a escrever a novela Moinhos, que está no meu livro Três infâncias. Estava passando pela calçada abarrotada de gente, vi uma determinada cena, seguida de uma fala, e a novela começou… Mais de dez anos depois, a terminei.
• Quando a inspiração não vem…
Procrastino. Deixo para amanhã ou depois de amanhã o que eu poderia escrever hoje. Sem nenhum sentimento de culpa.
• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Morto, Kafka; ficaríamos só tomando café, pois não falo alemão, nem ele falava português. Um culto ao silêncio. Vivo, Sergio Faraco, pois acho que nos assemelhamos estilisticamente. Teríamos muito o que falar, mas, igualmente, pouco a dizer, pois sou tímido e tenho a impressão de que ele também é; nos comunicaríamos, portanto, pelo silêncio que a boa literatura impõe e pelos eflúvios do café.
• O que é um bom leitor?
Aquele capaz de perceber, em Dom Casmurro, que Bentinho não tem certeza de nada, mas que Machado de Assis tem e deixa claro, nas metáforas e torneios de ideias, que Capitu “os” traiu. Ou que, uma vez que Meursault é o narrador de O estrangeiro, ele não foi decapitado. Em suma, o leitor que observe a forma em detrimento do assunto e tire proveito dela para iluminar suas leituras.
• O que te dá medo?
Dormir “saudável” e acordar autor de best-sellers, sem identidade, sem estilo, sem atrativo nenhum, escrevendo sob a imposição de uma cartilha, engajado com o próximo livro e assombrado por mil compromissos na agenda. Não poder nunca mais andar anônimo pelas livrarias e estandes de livros, como faço nas bienais do livro de Salvador. “O anonimato é uma dádiva”, disse Bukowski.
• O que te faz feliz?
Em literatura, ler um livro empolgante, que sei que vou reler anos depois. Não importa o gênero. Isso acontece bem poucas vezes. Na vida, muitas coisas me deixam feliz, como ouvir as vozes das cantoras Helen Merrill e Marina de la Riva numa silenciosa manhã de domingo, ir ao cinema ou simplesmente jogar jogos de tabuleiro com os amigos. Sou uma pessoa comum, com muitos interesses, não apenas literatura.
• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Provavelmente nenhuma dúvida, tampouco certeza. Jamais tenho algo em vista quando escrevo, apenas escrevo, ajustando, da melhor maneira possível, a forma ao assunto e vice-versa, fiel a mim mesmo, ao meu estilo. Isso na prosa. Na poesia, deixo-me consagrar pelo instante, como sugere Octavio Paz. A dança das palavras em volta de uma ideia. Aquele momento em que a inquietação encontra uma forma, e o poema nasce, tão bem expresso por Lawrence Durrell.
• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Fazer arte, efetivamente. Ou seja, retirar o idioma de sua condição banal, que é apenas comunicar, fazer B e C entenderem A. Literatura não é comunicação; é fruição. Na literatura, as palavras devem se divertir, enquanto no dia a dia devem trabalhar.
• A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma. A partir do momento que a obrigam a alguma coisa, ela deixa de ser literatura. Torna-se panfleto, protocolo, cartilha. Literatura é arte, e o único compromisso da arte é ser livre. O que teria sido do impressionismo se não fosse a liberdade de criação que guiou a mão de seus artistas? Por outro lado, a literatura possui algumas funções, cumpridas tão veladamente, que nem mesmo os melhores leitores percebem, mas elas estão lá: uma das mais evidentes é o aprimoramento do idioma, que a cada autor se diversifica e revigora. Machado de Assis é um idioma; Guimarães Rosa, outro completamente diferente. Graciliano Ramos é a razão a serviço da escrita: “As palavras existem para dizer e não para enfeitar”. Com Machado, Rosa e Graciliano, o português se aprimorou.
• Qual o limite da ficção?
Nenhum. Mas, obviamente, alguns assuntos podem vir a se tornar indigestos e, no meu caso, prefiro evitá-los. Tanto lendo quanto escrevendo. Nem sempre fui assim; hoje sou.
• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu o levaria para visitar o túmulo de Santos Dumont… que sofreu profundamente ao ver a aviação transformada em arma de guerra e se suicidou em 1932. A Terra, em geral, é um palco sórdido. Por onde quer que o ser humano transite, uma mancha de sangue fica para trás.
• O que você espera da eternidade?
Que seja breve! Opa, soou Cioran!