Um espaço que sobrava

Conto inédito de Maurício Mendes
Ilustração: Simon Taylor
01/07/2026

Durante muito tempo, guardei apenas a imagem da entrada do clube e a demora do meu pai em estacionar o Chevette hatch verde-pálido. O calor também. Ele parece ter ficado ali, suspenso sobre as vagas, no meio dos carros.

Só depois acrescentei os Farias à lembrança.

Quando penso naquela tarde, é no estacionamento que eles aparecem. O carro branco encostado à sombra curta de um coqueiro, dona Célia descendo primeiro, os filhos esperando um comando para sair, seu Artur com a camisa abotoada até perto do pescoço, embora fosse Carnaval e o calor fizesse o ar tremer sobre os capôs.

No estacionamento do Grêmio Recreativo Cearense, as vagas eram amplas. Ainda assim, meu pai corrigia o volante, espremido diante de um espaço que sobrava.

Eu tinha onze anos.

Naquela manhã, minha mãe me mandara até a esquina com dinheiro vivo na mão. Eu devia chamar o vizinho que rodava de táxi à noite. Ela queria ir para a rodoviária. Eu iria com ela. Faça as suas malas, ela disse.

Voltei pouco depois contando que ele não estava em casa.

Talvez fosse verdade. Talvez eu apenas não quisesse encontrá-lo.

Horas mais tarde, estávamos minha mãe, meu pai e eu na entrada do clube. Meu pai levava tempo demais para alinhar o carro. Minha mãe tinha o rosto lavado, a bolsa no colo, os óculos escuros escondendo aquilo que de manhã estivera exposto. Meu pai segurava o volante com as duas mãos, concentrado numa manobra simples.

Desci antes do fim. Fechei a porta com cuidado e fiquei olhando o prédio do salão. Era sábado de Carnaval, e de lá vinha uma música alta, modulada pela distância. Marchinhas antigas, embora na época eu não soubesse chamá-las assim. Havia também a voz de um locutor saindo de algum rádio. Naquele começo de tarde, já não se separava bem uma coisa da outra: a música, a voz do locutor, os garçons passando depressa por entre as mesas, o calor subindo do pátio.

Vi os Farias perto da guarita.

Eram nossos vizinhos havia poucos meses. Moravam na casa da esquina, uma casa estreita, sempre fechada, com uma imagem de Nossa Senhora protegida por vidro fumê numa reentrância do muro. Minha mãe dizia que eram religiosos. Muito religiosos, repetia. Meu pai preferia não falar deles. Apenas sorria com desprezo quieto.

Na nossa casa não se rezava.

A família Farias atravessou o pátio em fila. À frente, seu Artur. Depois, dona Célia. Em seguida, as duas meninas. Por último, o filho mais velho.

Eu não lembraria o nome dele naquela tarde. Se alguém me perguntasse, eu diria apenas: o menino dos Farias. Ou o menino que carregava uma bola de futebol sem nunca jogar com os garotos da rua. Ou aquele que olhava para tudo com uma seriedade de gente mais velha.

O clube tinha uma guarita com vidro riscado, jardineiras de cimento, coqueiros ainda novos, a piscina cercada por grades baixas, o restaurante, o grande salão e, mais adiante, um playground de ferro pintado com cores já gastas. Perto do bar, um quadro de madeira guardava as fichas de consumo dos sócios. Na parede, havia um brasão desbotado. Os ventiladores giravam devagar, deslocando o bafo quente de um lado para o outro.

Meus pais eram sócios havia anos, e eu conhecia o lugar desde pequeno. Naquele dia o clube parecia maior. Aberto demais.

Fui primeiro ao salão.

Lembro da porta escura, do piso encerado, dos globos coloridos girando perto do teto. Havia dezenas de pessoas dançando e cantando. Os rostos estavam pintados. Vi purpurina nas pálpebras, bigodes desenhados a lápis, um nariz postiço, máscaras de papelão. O som saía áspero das caixas e voltava ainda mais alto das paredes.

O que lembro melhor é que quis sair dali.

Os Farias não entraram. Ficaram perto da parede lateral, num limite entre a festa e o corredor. Dona Célia segurava uma sacola de pano. As meninas olhavam o salão sem mexer o corpo. Seu Artur falava baixo, inclinado para o filho. Em certo momento, encostou dois dedos nas costas do menino, entre os ombros. O menino se endireitou. Usava calça escura e sapatos fechados. O couro fazia uma dobra dura sobre o peito do pé.

Procurei meus pais.

Estavam perto do restaurante. Havia um prato com caranguejo, guardanapos amassados, uma tigela de farofa, uma garrafa de cerveja coberta de gotículas. Meu pai segurava o copo com atenção. A bebida ainda não tomara o corpo inteiro, mas já lhe alterara os olhos. Minha mãe estava ereta na cadeira, a bolsa fechada sobre o colo. Fazia palavras cruzadas.

Meu pai perguntou se eu queria caranguejo.

Balancei a cabeça.

Olhei para minha mãe. Ela não disse nada. Naquela manhã falara o suficiente. O problema é a bebida, disse. Depois me mandou chamar o táxi. Quando voltei, o corredor estava vazio. Não havia mala junto à parede. Meu pai estava sentado na sala. Minha mãe lavava um copo na pia. Mais tarde, saímos os três para o clube, e ninguém voltou a mencionar a rodoviária.

Meu pai encheu o copo de novo.

Minha mãe abriu a bolsa. Vi uma máscara entre o pente e a carteira. Pedi que me desse. Ela entregou sem perguntar por quê. Era uma máscara de plástico fino, com sobrancelhas douradas pintadas acima dos olhos. O elástico já parecia frouxo.

Prendi o elástico atrás da cabeça.

O plástico rangeu.

Pedi para ir ao playground.

Minha mãe assentiu sem levantar os olhos das palavras cruzadas.

Atravessei a área das mesas. Da cozinha vinha cheiro de peixe frito, óleo estalando, limão espremido. Um garçom passou carregando casquinhas de caranguejo numa bandeja de alumínio. Mais adiante, o vento trazia o cloro da piscina. A música seguia alta no salão, embora agora chegasse amortecida.

Passei pela família Farias.

As meninas estavam sentadas num banco, uma ao lado da outra, com vestidos claros, sem adereços. A mais nova apertava alguma coisa dentro da mão. Talvez confete. Talvez nada. O filho mais velho permanecia em pé. Segurava a bola contra a barriga, sem quicá-la. Tinha o rosto comprido, ainda infantil, e uma marca branca de suor na gola da camisa.

Quando passei, ele olhou para a minha máscara.

Não sei se foi a primeira vez que me viu.

No playground, crianças corriam entre os escorregadores e os balanços. Algumas estavam com o rosto coberto de um pó branco. Outras carregavam confete em sacos plásticos. Um menino pequeno passava o pó no próprio cabelo com cuidado. Dois maiores disputavam uma caixa amarela quase vazia. Perto do escorregador, uma menina observava os outros de braços cruzados. Devia ter a minha idade ou um pouco mais. O rosto dela também estava manchado de branco.

Eu tinha uma caixa de Maizena na mão.

Não sei dizer de onde a caixa saiu. Primeiro pensei que a tivesse apanhado na mesa dos meus pais. Depois imaginei que já a trazia comigo desde o carro. Hoje me ocorre que talvez estivesse no banco onde as meninas Farias tinham sentado, ou que alguém a tivesse esquecido no chão.

O que ficou nítido foi o gesto de abrir a tampa.

Na primeira vez, joguei o pó para o alto e vi a nuvem branca subir diante da máscara. Houve gritos e risos. Na segunda, mirei mais perto. Na terceira, acertei o rosto de um menino menor. Ele levou as mãos aos olhos e começou a chorar.

As crianças menores choravam. As maiores reclamavam. Um garoto me xingou. Uma menina pediu que eu parasse.

Joguei mais uma vez.

Vieram atrás de mim.

Corri em volta do gira-gira, depois por trás do escorregador. Tentei segurar a caixa com uma mão e a máscara com a outra. Alguém me puxou pelo braço. Outro me agarrou pelas costas. Tropecei numa raiz levantada no cimento e caí de joelhos. A dor foi rápida. A caixa escapou. Senti dedos no elástico da máscara, um puxão seco na nuca, o plástico saindo do meu rosto.

Gritei para me devolverem.

Fiquei cercado por um instante. Um dos meninos maiores segurava a caixa de Maizena. Outro balançava minha máscara pelo elástico. O joelho ardia. Havia pó grudado no suor do meu rosto. Sem a máscara, a minha raiva diminuiu de tamanho. O que sobrou foi vergonha.

A menina que eu tinha visto junto ao escorregador veio então para o centro da roda. Pegou a caixa da mão do garoto sem dificuldade e olhou para mim.

Lembro desse olhar com mais nitidez do que lembro dos outros.

Ela parecia esperar alguma coisa que não veio.

Foi então que percebi o menino Farias se aproximando. Não o vi chegar. Não corria. Não parecia interessado na brincadeira. Entrou na roda com o mesmo corpo retesado com que atravessara o estacionamento. As crianças se afastaram um pouco, talvez porque ele fosse mais velho, talvez porque houvesse nele uma ordem que ninguém ali sabia contrariar.

Ele pegou a máscara da mão do garoto.

Não houve briga.

O outro apenas entregou.

O menino Farias olhou para mim por alguns segundos. Depois baixou a mão e deixou a máscara cair perto dos meus pés. O elástico tinha se soltado de um lado.

— É sua — disse.

A voz não era gentil. Também não era agressiva. Parecia cumprir uma determinação anterior àquela cena.

Ninguém me ajudou a levantar.

As crianças voltaram aos brinquedos, aos gritos, à desordem da tarde. O menino dos Farias permaneceu ali por mais um instante. Esperava que eu dissesse alguma coisa. Um obrigado, talvez. Ou meu nome. Ou uma frase qualquer que nos prendesse um ao outro.

Não disse nada.

Peguei a máscara do chão.

Quando levantei, ele ainda estava ali.

Durante anos, preferi lembrar que ele se afastara antes. Mas ele ficou. Ficou o bastante para que eu pudesse falar.

Olhei para o elástico arrebentado, depois para o chão, depois para a área das mesas.

O menino Farias esperou mais um pouco.

Então se afastou.

Voltei para a mesa dos meus pais.

Meu pai continuava bebendo. Minha mãe continuava calada. O prato de caranguejo estava mais vazio. Havia mais uma garrafa sobre a mesa. Meu pai demorou a perceber que eu voltara com a máscara quebrada na mão. Minha mãe viu o joelho sujo, mas nada perguntou. Olhou para mim, depois para o rosto do meu pai e, por fim, para o salão, onde a mesma marchinha era cantada.

Sentei entre eles em silêncio.

Meu pai perguntou o que tinha acontecido.

— Nada — respondi.

Ele riu, satisfeito com a palavra.

Minha mãe retomou as palavras cruzadas. Uma gota escura de molho escorreu pelo casco partido de um caranguejo. Meu pai limpou os dedos no guardanapo, bebeu mais um gole e passou a comentar alguma coisa sobre o time do clube, os preços, a cerveja quente, a incompetência dos garçons. Eu segurei a máscara quebrada sobre o colo. O plástico tinha perdido a forma no ponto em que alguém puxara o elástico. Uma das sobrancelhas douradas ficara torta.

Do outro lado do restaurante, os Farias ocupavam uma mesa sem bebida alcoólica. Seu Artur cortava alguma coisa no prato das meninas. Dona Célia mantinha a sacola junto aos pés. O filho mais velho estava sentado de costas para o salão, olhando na direção da piscina. A bola ficara sob a cadeira, presa entre os sapatos.

Minha mãe acompanhou meu olhar.

— Não fica encarando — disse.

Baixei os olhos.

Havia sangue seco misturado ao pó branco no meu joelho. Passei o dedo por cima, devagar, até formar uma crosta úmida. Pensei em ir ao banheiro lavar. Pensei em atravessar o restaurante e devolver ao menino Farias uma palavra pequena, a menor de todas. Mas meu pai pediu que eu alcançasse a farofa. Minha mãe bateu a ponta do lápis contra o papel, sem achar a resposta de uma pista.

Entreguei a farofa ao meu pai.

A máscara ficou sobre a mesa, ao lado dos guardanapos amassados.

Os Farias foram embora antes de nós. Seu Artur se levantou primeiro. Dona Célia recolheu a sacola. As meninas obedeceram depressa. O filho mais velho ficou por último. Ao passar pelo restaurante, olhou na nossa direção. Não para mim exatamente. Para a mesa inteira: meu pai com o copo, minha mãe com os óculos escuros, eu com o joelho sujo, a máscara quebrada entre os restos de comida.

Dessa vez, sustentei o olhar por um segundo.

Depois desviei.

Meu pai chamou o garçom.

Maurício Mendes

É médico e escritor. Autor de O homem não foi feito para ser feliz (Mondru). O conto Um espaço que sobrava integra uma coletânea inédita, ainda sem data prevista de publicação.

Rascunho