Exórdio
através dessa língua a menina disse ao pai tenho fome
suas avós oraram a nomes e numes perdidos
a mulher consolou o mendigo o ancião encontrou enfim
a palavra certa para a morte
que tomou o pulso ao moribundo
muitos pediram água muitos mediram com o polegar
o peso de cada palavra
(com as unhas quem sabe também com os dentes
o peso de cada palavra)
muitos ficaram sem voz ou verbo diante dessa língua
enquanto o próprio orago era varrido pelo vendaval
monumentos foram erguidos sobre o futuro
de antigos monumentos
casas e praças e vielas cresceram à sombra dessa língua
que também conheceu o outono e o inverno o quente e o frio
e a noite
para sempre condenada a não cumprir seu rito
a noite que foi a última
e que deixou no arco da página esta lacuna
que só pode ser dita
com frases que feneceram
…
1. Compromisso
se meu sucesso sufocar o inimigo
eu vos darei
fatias de pão branco e uma ânfora
de vinho
na presença de Hator senhora do horizonte
milhões e milhões de anos darão fôlego
ao vosso nariz
e os deuses todos
todos os deuses do nosso Thinite
estarão convosco
sob vosso abrigo
se meu sucesso sufocar o inimigo
…
2. Nada sabemos agora
Renenutet dará a esta criança
vontade de viver
Meskhenet a levará depois para o reino dos mortos
quem pagará os amuletos de faiança
ou o incenso que embalará
seu coração tão frio
não sabemos
nada sabemos ainda
o saiote a faixa vermelha
esse trapo de tanga que será o avental
tudo virá depois
com as cheias e os ritos
nada sabemos agora
em que o olho ferido do velho Hórus
o olho ferido por Seth
vasculha no templo a sua hora
…
3. A súplica de Nebetiotef
lutai em meu favor, Merirtyfy
: o oeste está contra mim
eu que fui vossa esposa na terra
de novo faleço em favor de vosso nome
não vos esqueçais
: vazia de todas as prendas
Merirtyfy
estará também
vossa laje de oferendas
…
4. Antes, depois
4.1 Em Set Ma’at
à passagem de meus exércitos
dobravam-se os obeliscos
de terras estrangeiras
traziam-me ouro e peles
pão e cerveja
naves enormes então cobriam o Nilo
minha mão atava a duração da hora
e era Montu com mil parelhas
o próprio Baal em pessoa
e Sutekh e sua sina
hoje sozinho aguardo a aurora
em Deir el-Medina
4.2 Em Deir el-Medina
já não se ouvem pedidos de lenha e leite
cabras e peixes para a glória
da vossa necrópole
o saldo dos salários
sonda o silêncio dos silos
para o confisco dos deuses
e em vosso nome erige este vazio
…
5. Com o que resta da janta
velho e cego há muitos anos
Ptahotep
ora à sombra do celeiro
seus deuses o abandonaram
urge ancorar
o arco de areia no ouvido
o deflúvio nos dedos
que em fogo tocaram
o fruto
da infâmia
Ptahotep garante nova cheia às crianças
e o Nilo comparece e canta
de vinho vestido
imenso de ouro e púrpura
com o que lhe resta da janta