Poemas egípcios

Leia os poemas "Exórdio", "Compromisso", "Nada sabemos agora", "A súplica de Nebetiotef", "Em Set Ma’at", "Em Deir el-Medina" e "Com o que resta da janta"
Iacyr Anderson Freitas, autor de “Viavária”
01/07/2026

Exórdio

através dessa língua a menina disse ao pai tenho fome
suas avós oraram a nomes e numes perdidos
a mulher consolou o mendigo o ancião encontrou enfim
a palavra certa para a morte
que tomou o pulso ao moribundo

muitos pediram água muitos mediram com o polegar
o peso de cada palavra
(com as unhas quem sabe também com os dentes
o peso de cada palavra)
muitos ficaram sem voz ou verbo diante dessa língua
enquanto o próprio orago era varrido pelo vendaval

monumentos foram erguidos sobre o futuro
de antigos monumentos
casas e praças e vielas cresceram à sombra dessa língua
que também conheceu o outono e o inverno o quente e o frio
e a noite
para sempre condenada a não cumprir seu rito

a noite que foi a última
e que deixou no arco da página esta lacuna
que só pode ser dita

com frases que feneceram

1. Compromisso

se meu sucesso sufocar o inimigo
eu vos darei
fatias de pão branco e uma ânfora
de vinho

na presença de Hator senhora do horizonte
milhões e milhões de anos darão fôlego
ao vosso nariz

e os deuses todos
todos os deuses do nosso Thinite
estarão convosco
sob vosso abrigo

se meu sucesso sufocar o inimigo

2. Nada sabemos agora

Renenutet dará a esta criança
vontade de viver

Meskhenet a levará depois para o reino dos mortos

quem pagará os amuletos de faiança
ou o incenso que embalará
seu coração tão frio
não sabemos

nada sabemos ainda

o saiote a faixa vermelha
esse trapo de tanga que será o avental
tudo virá depois
com as cheias e os ritos

nada sabemos agora

em que o olho ferido do velho Hórus
o olho ferido por Seth
vasculha no templo a sua hora

3. A súplica de Nebetiotef

lutai em meu favor, Merirtyfy
: o oeste está contra mim

eu que fui vossa esposa na terra
de novo faleço em favor de vosso nome

não vos esqueçais

: vazia de todas as prendas
Merirtyfy

estará também
vossa laje de oferendas

4. Antes, depois

4.1 Em Set Ma’at

à passagem de meus exércitos
dobravam-se os obeliscos

de terras estrangeiras
traziam-me ouro e peles
pão e cerveja

naves enormes então cobriam o Nilo

minha mão atava a duração da hora
e era Montu com mil parelhas
o próprio Baal em pessoa
e Sutekh e sua sina

hoje sozinho aguardo a aurora
em Deir el-Medina

4.2 Em Deir el-Medina

já não se ouvem pedidos de lenha e leite
cabras e peixes para a glória
da vossa necrópole

o saldo dos salários
sonda o silêncio dos silos
para o confisco dos deuses

e em vosso nome erige este vazio

5. Com o que resta da janta

velho e cego há muitos anos
Ptahotep
ora à sombra do celeiro

seus deuses o abandonaram

urge ancorar
o arco de areia no ouvido

o deflúvio nos dedos
que em fogo tocaram
o fruto
da infâmia

Ptahotep garante nova cheia às crianças

e o Nilo comparece e canta
de vinho vestido

imenso de ouro e púrpura
com o que lhe resta da janta

Iacyr Anderson Freitas

Nasceu em Patrocínio do Muriaé (MG), em 1963. Publicou mais de vinte livros de poesia, ficção e ensaio literário. Sua obra já foi divulgada em vários países — Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Malta, Nicarágua, Peru, Portugal, Suíça e Venezuela. É autor de, entre outros, Trinca dos traídos (Menção especial no Prêmio Casa de las Américasem Cuba), Quaradouro (semifinalista do Prêmio Portugal Telecom), Viavária (1º lugar no Prêmio Literário Nacional do PEN Clube do Brasil), Ar de arestas (finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom) e Os campos calcinados (semifinalista do Prêmio Oceanos).

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