Poemas de Felipe Gomes

Leia os seis poemas "sem título" de Felipe Gomes
Felipe Gomes, autor de “Pai de menino”
01/05/2026

é isso
não é aquilo
aqui é agora
lá é longe demora
nem rola outra hora

é assim
só pra mim?
sim nunca é fim
vi me perdi mas vim
e já vou embora

a guerra
começa hoje —
não me preparei

a derrota é certa
cor de terra
e tempestade

não respeito o
inimigo quando
penetra

incendeio o
campo de batalha
minha carne

domino o jogo da espera
como grandes bocados
de dias mastigando
lentamente

danço com o tempo
tecendo o infinito
com os riscos
dos passos

varo a cidade
fantasma
a assustar
pessoas com olhares penetrantes
em calçadas estreitas
ruas desertas
— tal o negror
da noite

na sala de cinema
eu esperava tanto pela sua
mão
que a minha atraísse
com ruminação de falanges
um deslize seu no rastro
de luz pipoca jeans
pois a minha
nunca me mexia em direção à sua
parada à espera

mas veio esse dia

pousou segura
na exatidão
do clímax
retido assim num entrelace
desdobrando cada segundo
cobrindo o espaço de tempo
em que os dedos não foram juntos
até suarmos grudando sem jeito
para a metonímia das palmas em separação
no fim dessa que foi a nossa
última sessão

chega o final
de semana
e a preguiça
de ser carnal

só na cama
o filme o cobertor
e minha tigela
de mingau

Felipe Gomes

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1984. É mestre em literatura brasileira pela UERJ. Desde 2013, é professor de língua portuguesa na Rede Pública Municipal de Ensino. Publicou os livros de poesia Alma na casa sozinha (Patuá, 2020) e Pai de menino (Patuá, 2023).

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