Mamut

Trecho do romance inédito de Eva Baltasar
Ilustração: Mello
01/05/2026

No final de junho, a cidade inteira exsudava um calor sufocante. De dia fermentava, apodrecia, começando pela polpa de cada um de seus habitantes, de noite era um organismo exausto que caía estendido diante do mar. Comecei a jantar na sacada. Um lenço como toalha, velinhas, cerejas em uma cumbuca de plástico, grandes e úmidas como olhos. Do outro lado da rua, os muros do zoológico se calavam. Àquela hora, com seus alambrados, pareciam fronteiras. Concentrava-me nas copas das árvores que sobressaíam e comia devagar. As árvores eram macias e formavam um travesseiro recheado de bicos e chilros. Quando a luz ia embora, os pássaros morriam e as árvores se tornavam azuis. Tinham o silêncio dentro de si e dava a impressão de que sustentavam tudo. A mim também, de um modo que eu não compreendia, mas que era indubitável. Olhava-as, e elas abriam os olhos. Eu estendia uma mão, e elas queriam esticar-se, como se tivessem vindo me buscar porque havia outras, que me esperavam em outro lugar. Falei com elas. Expliquei-lhes que ia deixar o trabalho. Que talvez nunca tivesse um filho. Sentia seu testemunho, que tudo que dizia ficava escrito. Depois de falar, eu teria chorado, mas não conseguia. Não conseguia me provocar nem a dor do choro engasgado. A noite era impiedosa. As ruas, sempre brutais, nunca calmas, serviam de resguardo às larvas. Todas as larvas levavam uma mesma vida, a vida encapsulada que acabou por se impor. Era uma vida no gelo, impenetrável e estéril. Óbvia até em uma noite canicular de verão.

Toda manhã saía para procurar trabalho, consultava sites, dava uma volta pelos quadros de anúncios dos centros cívicos, dos pontos de informação juvenil. E nada. Descobri que nós, os sociólogos, éramos técnicos da vacuidade. Quando quase já não me restavam economias, aceitei um emprego de garçonete em uma rede de cafeterias. O uniforme era verde e preto, com uma camisa de poliéster que eu precisava abotoar até em cima. Oito horas, todo dia, mantendo o pescoço tenso. Se sentisse sede, podia beber café, se sentisse fome, podia terminar o que os clientes deixavam no prato. Não acreditei quando me disseram isso. No dia seguinte, já tinha me acostumado. Aprendi a usar a máquina e a achava maravilhosa. Também aprendi a preparar cafés sem a reabastecer com o pó, assim podia beber toda a água suja que quisesse e não terminava a jornada com o coração disparado. Minha chefe era uma garota mais jovem que eu, magra como um gato. O tamanho pequeno do uniforme ficava grande nela. Tinha cabelo tingido de cor mostarda e um brilhante encrustado em cada canino. Gostava de mandar de uma mesinha do fundo, onde passava horas sentada, papeando com amigos ou parentes. Suas ordens me acertavam como dardos. No dia em que larguei o emprego, não quis me pagar. Ameacei, garantindo que espantaria a clientela ficando plantada na entrada como uma indigente, com um papelão que diria: trabalhei aqui e não quiseram me pagar. Ela riu de mim, e eu não ousei voltar ali. Tinham se passado dois dias desde que eu tinha sido contratada.

Trabalhei em uma padaria, no estoque de um supermercado, lavando pratos na cozinha de um hotel, de atendente em uma loja de bolsas e calçados. Abandonava os empregos pouco depois de os ter conseguido, quando já começava a me acostumar, porque me aterrorizava a sensação de me habituar à exploração. Vi claramente que o mundo laboral, o mundo laboral legalizado, era uma armação. Trabalhando para um outro, entregava o que tinha de mais valioso, mais do que o tempo, mais do que o corpo, mais do que o significado daquela palavra tão intrigante: dignidade. Tinha a impressão de que, toda vez que assinava um contrato ou aceitava verbalmente uns dias de experiência, estava me vendendo a um intermediário, a alguém que ficava com meu passaporte para engordar às minhas custas. Ao anoitecer, voltando para casa de metrô, exausta depois de uma jornada inteira caçando e matando piolhos das cabeças de uma tropa de crianças de pré-escola, lembrei com saudade da minha época de faculdade. Foi uma rota à fraqueza que me deixou consciente do poder feroz do cansaço. É possível obrigar uma pessoa esgotada a qualquer coisa. As oito ou nove horas de pé por um salário miserável reduzem qualquer um a um modelo anterior na escala evolutiva dos humanos. Impossível pensar, apenas um raciocínio primário: permanecer em um lugar pelo tempo necessário para conseguir comer e, por fim, abrigar-se das trevas e da inclemência em um buraco. Há milhares de anos, os buracos eram chamados de cavernas. Hoje, são chamados de ócio, esportes, redes sociais. Fechamo-nos em nossas celas miseráveis e nos sentimos orgulhosos, pensamos que somos afortunados.

Em uma tarde de chuva em que estava sozinha em casa, preparei um chá para mim e fui tomá-lo no sofá. O apartamento estava às escuras. A luz de leitura emitia uma claridade solitária que lembrava um farol. Me sentia bem naquele canto. O bem-estar era a teia de aranha tecida entre os detalhes que me resguardavam: o suéter gasto de ficar em casa, a rachadura escura dentro da xícara, os pés sob a manta. Lá fora, a chuva seguia caindo. Pensei no zoológico, que tomava a chuva como o único elemento imprevisível dentro da rotina diária. Cada recinto um microcosmo, um hábitat falseado com galhos de bambu e de acácia e termostatos de contenção climática. Os animais não viviam ali, apodreciam, exatamente igual às pessoas que os visitavam, nem mais, nem menos do que aqueles que trabalhavam ali. Terminei o chá em uma golada e fui à cozinha para fazer outro. Quis colocar um CD, mas o aparelho não funcionava. Outra vez sofá. Quietude. A língua escaldada. E a chuva, que de repente gritava. Me lembrei da noite do meu aniversário. Eu também tinha gritado. Na primeira investida. Uma só vez. Depois, houve um grande naufrágio, a rachadura seguida por um afundamento. Como o de um petroleiro partido ao meio. Como na amputação de um continente. O corpo pode conter um oceano congelado com a abundância irreparável no fundo, onde tudo dorme, preso. A noite do meu aniversário tinha me mostrado isso. A primeira trepada foi como contrair uma doença tropical, tão precipitada e alienante que meu corpo inteiro ficou verde e lilás, febril e dolorosamente pesado. Mas o sexo da manhã, depois daquelas horas de espera na penumbra do quarto, velando o sono alheio, um sono profundamente biológico, seminal, aquele encontro precipitado, preparado com um cuidado criminoso, atiçado e executado com precisão… Mexeu comigo. Fazia semanas que me sentia assim, incrivelmente perturbada, arrogante. Como quando você se recupera de uma febre de vinte dias e, no espelho, a mulher que te contempla se tornou velha e não tem voz, mas triunfou, dizem seus olhos. O que tinha me sequestrado não era o desejo por um filho, era o desejo de gestá-lo, o de fazer a vida passar através do corpo, o de criar. Para fazer isso, eu precisava me desengaiolar. Como se a única maneira de continuar fosse a fuga. Como se não houvesse salvação, somente a lã fóssil do passado.

Eva Baltasar

Nasceu em Barcelona (Espanha), em 1978. Seus romances Permafrost, Boulder e Mamut formam um tríptico que explora, em primeira pessoa, as vozes de três diferentes mulheres por meio de uma prosa ágil e concisa, tão brutal quanto poética. Seus livros foram publicados em diversos países. Mamut será lançado em breve pela Dublinense.

Rascunho