Olha ela: couro sobre ossos, pernas e braços que assustam de tão finos, os peitos enormes e a barriga maior ainda. É conhecida no pedaço que frequenta e domina como Magrelinha. Está sentada no banco de madeira na porta da farmácia, sacolinha de pano no colo, pedindo a quem passa um pacote de fraldas, uma lata de leite, biscoito de qualquer marca, garantindo a quem puder ajudar que Deus vai devolver a caridade em dobro.
“É pro meu bebê, que nasce mês que vem.”
A senhora de buço acentuado e bolsa pendurada no ombro diz que não tem e que, se tivesse, não daria um tostão “para essa desmiolada”. Em seguida, estanca no sinal, ainda resmungando:
“Onde já se viu? Uma menina e já com filho no bucho!”
“Menina sou eu. Essa aí já pariu três”, diz a outra que está em pé ao lado, tentando também atravessar a rua.
O moço de bigode grisalho pergunta, com alguma simpatia:
“Promete que, se eu lhe der o leite, você não vai vender por qualquer merreca nem trocar por droga, minha filha?”
“Deus me livre de droga! Juro pela saúde dele”, responde e põe a mão na barriga. “Sou maluca não, nem irresponsável”, diz.
“É não. Irresponsável é quem acredita em tua historinha!”, alfineta a que espera no caixa da farmácia e espicha os ouvidos na direção da conversa, com a cesta entupida de sabonete da promoção.
“Só podia mesmo ser a senhora. A senhora me odeia, né, Dona Creusa? Que foi que eu lhe fiz, criatura?!”
“É Cleusa, ignorante”, diz a cliente da farmácia.
Magrelinha torce o nariz, sorri fazendo careta e vai dar umas voltas pelas imediações.
“Ô, mulher do cão!”, reclama, mostrando a Dona Cleusa o dedo médio apontado para cima.
Faz cara de “Deixa a vida me levar”, cantarola “Fale de mim quem quiser”, sacode o barrigão e segue em frente.
Uma conhecida acena e grita do balcão da padaria:
“Magrelinha! Como vai você?”
“Assim, assim, vivendo e me defendendo.”
Um dia de cada vez.
Pede a um, agradece a outro, responde às ofensas e cumprimentos sorrindo ou de cara amarrada, no ritmo da bondade ou da indiferença.
Magrelinha bate os cambitos e arrasta as sandálias havaianas na calçada até a esquina seguinte; à direita, ao lado da pizzaria, Índio e Paizão estão atracados com uma garrafa de plástico cheia de cachaça.
Oferecem, ela dá de ombros:
“Tô fora!”
Eles sorriem, debocham, desmerecem:
“Vamos ver até quando…”
Na calçada do outro lado da rua encontra uma velha amiga, que tem ponto cativo na porta do sacolão.
“Oi, Leide.”
“Magrelinha! Reapareceu, hein, bandida?! Andou por onde?”
“Por aí, fazendo uns exames.”
“Quem te viu, quem te vê. Cuidando da saúde…”
“Por causa do bebê.”
“Ah, é. Tô vendo o bucho. Tem pai?”
“Claro. Onde já se viu filho sem pai?”
“É o que mais se vê nesse mundo.”
“Esse tem. Mas seria bem melhor se não tivesse.”
“É no que dá se deitar com qualquer um. Agora é tarde.”
“Por falar em tarde, vou seguir, Leide.”
“Pra onde, com essa pressa? O povo aqui pergunta muito por onde tu tem andado, mulher.”
“Diz ao povo que estou viva.”
Atravessa a rua em direção ao posto de gasolina, onde trabalha um frentista conhecido de outros carnavais. Encosta no balcão da loja de conveniência e pede um salgado.
“Na conta do Ceará.”
“Só se ele autorizar”, diz a atendente.
Assovia na direção do amigo. Ele confirma levantando o dedão de positivo.
Magrelinha sorri, pega o salgado, joga um beijo enviesado para Ceará e já se prepara para bater em retirada.
“Contigo estou sempre no prejuízo, né, Magrela?”, provoca ele.
“Vai ter forra, bonitão”, ela responde, piscando o olho.
“Quando?”
“Quando a barriga esvaziar.”
“Quem vive de promessa é santo”, diz Ceará.
“Ingrato. Já te dei muita coisa boa nessa vida…”
“Quem vive de passado é museu”, responde ele, conhecido no posto pela coleção de frases feitas.
Sorriem um pro outro, com carinho. Ele balança a cabeça. Ela dá tchauzinho, mexendo os dedos. Gostam um do outro, o que de algum modo ajuda os dois a enfrentar o tranco e o vendaval.
Vida besta que segue, e Magrelinha resolve seguir em frente. No sinal da Casa de Saúde, esbarra com dois amigos de longa data: Diva, que tem as pernas atrofiadas e vende balas na esquina, sentada em um banco de madeira, e Xande, sempre correndo entre os carros para oferecer carregadores de celular, pacote de pilhas e até pen drive mais em conta:
“Como vai, Diva?”
“Doente, como sempre.”
“E cada vez maior. Tem que emagrecer, mulher.”
“Se for pra ficar magra como tu, quero não.”
Xande pergunta se vai ser ele mesmo o padrinho da criança.
“Claro, compadre. Já está prometido. Mas vai ter que dar presente no Natal e no aniversário do afilhado.”
“Então, quero não.”
Sorriem, os três.
Começa a escurecer, hora de pegar o caminho do abrigo onde passa as noites, arranjado pelo pessoal da igreja que ela prometeu frequentar e onde nunca pisou. A moça da loja de sucos chama por ela e lhe entrega um saquinho de papel com o sanduíche dentro:
“Toma, Magrelinha.”
“Ô, flor, eu já almocei.”
“Guarda pro lanche.”
Põe o saquinho na bolsa de pano e joga um beijo:
“Deus lhe pague.”
É vista embarcando no ônibus, depois de pedir uma carona, mas ninguém a vê descer. Contaram na delegacia que, dois ou três pontos à frente, o sujeito entrou. E que foi logo apontando a arma para o velho no banco amarelo das prioridades. Tentou arrancar a carteira, o velho resistiu e levou uma coronhada na testa.
Sentada ao lado, Magrelinha tomou as dores do passageiro, xingou e chutou o agressor, que reagiu com um disparo. Bem no meio do barrigão. Em seguida, obrigou o motorista a abrir a porta e desceu ali mesmo, sem ser sequer incomodado.
O ônibus seguiu viagem, todos em direção aos seus destinos. E ninguém mexeu mais com ninguém.