Em Armadilhas, Luiz Ruffato reúne 18 contos publicados dispersamente, a maioria dos quais foi escrita entre 2018 e 2025. Nas narrativas, o autor nos apresenta a matéria principal de sua literatura: o cotidiano brasileiro. Conhecemos personagens como o pai desafiado pelas perguntas do filho pequeno e o jovem operário que abandona tudo sem motivo aparente. No livro, Ruffato demonstra, mais uma vez, como a vida comum tem muito a dizer sobre o país.
A publicação de Armadilhas ocorre no ano em que Eles eram muitos cavalos completa 25 anos. Grande parte da coletânea tem raízes no livro de 2001, que, como o próprio Ruffato afirma, “contém todas as preocupações éticas e estéticas que marcariam o restante da [sua] obra”. Nesta entrevista, concedida por e-mail, o autor mineiro reflete sobre o legado de seu primeiro romance, a importância do trabalho com a linguagem e a relação entre ética e estética. Num momento em que se debate a relação entre conteúdo e forma, Ruffato ainda acredita em uma literatura sem concessões, revelando como a ética com o Outro também está no respeito à sua inteligência e na recusa de uma literatura que se atenha “a um dualismo moral e a um rebaixamento da linguagem”.
• Em 2026, Eles eram muitos cavalos completa 25 anos. Como você enxerga o livro hoje?
Eles eram muitos cavalos, lançado em 2001, na virada do século, é um livro fundamental para minha trajetória. Não só porque, bem aceito pela crítica e pelo público, abriu caminho para os outros livros nos mercados nacional e internacional, como também pelo fato de ter proporcionado a possibilidade de tornar-me escritor profissional. Vivo da minha “pena” desde 2003, não exclusivamente dos direitos autorais, que ainda são exíguos, mas principalmente da participação em feiras e festas literárias e cursos de “escrita criativa”, atividades, aliás, das quais me encontro cada vez mais distante. E, para mim, é uma grata surpresa que o livro ainda mantenha o frescor de quando foi publicado — o que demonstra, de certa forma, que alcancei meu objetivo de fazer literatura ancorada no real, mas não na transcrição da realidade imediata, mas na sua recriação, enfatizando como que a realidade imediata impacta a subjetividade dos personagens. Eles eram muitos cavalos é um romance radicalmente paulistano — mas que, penso, transcende o espaço e o tempo pela linguagem.
• Apesar de ter publicado anteriormente na década de 1990, você já afirmou que considera Eles eram muitos cavalos sua primeira obra devido, em parte, à linguagem literária desenvolvida na escrita do livro. Que linguagem seria essa?
Na verdade, os dois livros publicados ainda na década de 1990, Histórias de remorsos e rancores (1998) e (os sobreviventes) (2000), não foram excluídos da minha bibliografia, mas incorporados a um projeto mais ambicioso, o Inferno provisório, lançado em cinco volumes entre 2005 e 2011, e relançado, em volume único e forma definitiva, em 2016. A questão não era de desagrado com o resultado desses livros, mas sim a busca de um denominador comum que sinalizasse todo o meu projeto literário, que tem como base o Inferno provisório. Somente com a publicação de Eles eram muitos cavalos, que considero uma espécie de caderno de exercícios formais, é que pude compreender onde queria chegar. Eles eram muitos cavalos contém todas as preocupações éticas e estéticas que marcariam o restante da minha obra.
• Como unir ética e estética?
Não há como separar ética e estética. Uma decisão estética já é uma decisão ética. A forma como o escritor resolve abordar determinado assunto — a decisão estética — nasce de uma visão ética específica. Por exemplo, não faço concessão com relação à linguagem utilizada nos meus livros, porque acredito que o leitor é suficientemente inteligente para compreendê-la, independentemente do grau de instrução. Porque a literatura tem esse poder, de nos levar a outros tempos e a outros espaços, não para nos alhear de nós mesmos — que é o que o best-seller pretende —, mas para nos aproximar do Outro, para nos exibir quão complexo é o mundo no qual estamos mergulhados, algo que uma literatura reiterativa não alcança, por se ater a um dualismo moral e a um rebaixamento da linguagem.
• Recentemente, em um evento na Universidade Federal Fluminense, você se rotulou “formalista”, com o adendo de que o termo teria se tornado ofensivo. O que isso significa?
Quando se fala em formalismo, a primeira coisa que leitores e críticos evocam é uma literatura alienada da realidade, uma literatura que se nutre de si mesma. E isso é uma ideia bastante equivocada. Hoje, principalmente, valoriza-se mais o conteúdo que a forma — uma volta, de certa maneira, à literatura “engajada” (o termo correto deveria ser panfletária) que se fazia na década de 1970, destinada a discutir questões que não podiam estar presentes nas páginas dos jornais e revistas por conta da censura da ditadura militar. Da mesma maneira, como não existe hoje espaço público de reflexão — jornais e revistas não cumprem mais esse papel e a internet é terra de ninguém —, apela-se para o mesmo expediente, emulando-se uma literatura de caráter imediatista, que tem sua importância, é claro, agrada a leitores e a críticos, mas que, no meu ponto de vista, por prescindir da preocupação com a forma, tende a se diluir no tempo. Machado de Assis, por exemplo, o maior escritor da língua portuguesa e um dos maiores nomes da literatura mundial, sabia disso — basta ler seus textos teóricos — e construiu toda a sua extensa obra a partir do pressuposto formalista, culminando com o maior de seus romances, Memórias póstumas de Brás Cubas, uma prosa “experimental” e profundamente articulada com as questões de seu tempo e de seu espaço — e ainda hoje a melhor reflexão sobre a sociedade brasileira contemporânea.
• Eles eram muitos cavalos é um livro que desafia as fronteiras dos gêneros. Você está lançando um novo livro de contos, Armadilhas. Como você pensa os gêneros na literatura?
A prosa de ficção nasce da necessidade de representar a realidade (mesmo a literatura não-realista não foge desta assertiva). E o romance, em particular, é um gênero espantoso, que, assim como o sistema capitalista, que o engendrou, nutre-se de suas próprias contradições. Portanto, podemos observar, com bastante precisão, a transformação do romance ao longo da evolução do sistema capitalista. Por isso, do meu ponto de vista, escrever romances no século 21 como se escrevia romances no século 19 não faz sentido. O espaço no qual vivemos se dilatou e o tempo deixou de ser sucessivo, tornou-se simultâneo. Então, busquei, em todos os romances que escrevi, refletir sobre a ideia do gênero em agonia. Eles eram muitos cavalos talvez seja a exacerbação desse processo, um romance que não é romance, mas que traz em si os vários subgêneros da prosa, o conto, o teatro, o jornalismo, a publicidade, mas também a poesia e a simples descrição, e até mesmo a ausência de linguagem — e que de certa forma deve muito a lições do Concretismo. Daí para a frente, estabeleci diálogos. Estive em Lisboa e lembrei de você é um falso romance-reportagem; De mim já nem se lembra, um falso romance epistolográfico; Flores artificiais, um falso manuscrit trouvé (no caso, não um manuscrito encontrado, mas recebido); O verão tardio, um falso romance filiado ao nouveau roman; O antigo futuro, um romance construído de frente para trás. E, Inferno provisório, repositório e síntese de todos os livros, é um romance que inverte o conceito de realismo socialista, concebendo uma história coletiva na qual a primazia funda-se no individuo, naquilo que chamo, pode-se ler com ironia ou não, “realismo capitalista”. Gosto de me impor desafios, de me colocar numa situação de desconforto formal. Também escrevi livros de poemas (Manhãs de sabre), de contos (A cidade dorme e Armadilhas), crônicas (Minha primeira vez e Ninguém em casa) e ensaios (A revista Verde, de Cataguases e A mão no fogo).

• A narrativa mais antiga de Armadilhas é de 2004 e a mais nova, de 2025. Como se deu a seleção dos contos para compor o livro?
Diferentemente dos romances, no meu caso os contos não são escritos em sequência visando a publicação de um livro. Eles nascem em situações bastante específicas e só os organizo quando encontram-se em número suficiente para preencher um volume. A cidade dorme, lançado em 2018, contém 20 contos, que cobrem o período de 2001 a 2018; Armadilhas contém 18 contos escritos a partir de 2018, à exceção de duas histórias, uma de 2004 e outra de 2013, que por algum motivo não entraram na primeira coletânea. Então, na verdade, não há propriamente seleção, mas resgate de textos dispersos.
• Você percebeu alguma mudança na sua escrita entre os contos mais antigos e os mais novos?
Não, sou autor que não evolui, no sentido de melhorar — ou piorar, imagino. Quando publiquei, em 2001, Eles eram muitos cavalos, que, como disse, forma um caderno de exercícios de prosa de ficção, eu compreendi o caminho e, de lá para cá, venho trilhando-o com dedicada honestidade — se consigo ou não estabelecer uma conexão com o leitor, não sei, mas a mim me satisfaz.
• Ao que parece, alguns dos contos foram publicados primeiro no exterior e em língua estrangeira. Como foi esse processo?
Por acaso. Por vezes, um tradutor me consultava para saber se havia algo inédito para uma coletânea ou para alguma revista literária, eu o produzia ou sacava de meus arquivos…
• O livro pode ser dividido em duas partes. Na segunda metade, você retorna a Dório Finetto e à estrutura de Flores artificiais. O que te levou a esse retorno?
Como disse, os contos nascem de necessidades circunstanciais — um convite, uma encomenda, uma imposição interior. Não foi diferente no caso da retomada das histórias protagonizadas por Dório Finetto, que formam a segunda parte da coletânea Armadilhas, intitulada Um buquê de flores artificiais. Quando lancei Flores artificiais, em 2014, avisava ao leitor que no pacote enviado a mim por Dório Finetto, contendo a narrativa de seus encontros e desencontros mundo afora, por força de seu trabalho no Banco Mundial, havia sobrado alguns textos que poderiam vir a ser publicados posteriormente. E a ocasião apareceu agora, 12 anos depois. Porém, apesar de Dório Finetto ter morrido durante a pandemia de covid, em 2021, ainda há alguns textos dispersos que, um dia, quem sabe, vão engrossar o volume original de Flores artificiais, numa edição definitiva.
• Apesar de retornar a Dório, você opta por matá-lo de covid-19. Pode-se entender isso como um tipo de comentário sobre o Brasil?
Não, não optei por matá-lo. Ele morreu mesmo, como personagem de ficção, naquele trágico momento da história brasileira, em que um facínora com sérios problemas cognitivos desgovernava o país. E, sim, se o leitor assim o desejar, pode ser compreendido como comentário sobre o Brasil.
• Assim como em Flores artificiais, você alega que os contos de Dório foram enviados a você. Afirmações similares foram feitas em De mim já nem se lembra e Estive em Lisboa e lembrei de você. Esse tipo de estratégia é antiga na literatura. Como a tradição literária brasileira informa seu projeto estético?
Essa é uma estratégica ficcional, como você bem lembrou, bem antiga. Serviu, e serve ainda hoje, para estabelecer um pacto de veracidade ou verossimilhança mais forte com o leitor. E, importante frisar, não tem qualquer relação com a chamada autoficção, já que se trata de ficção pura que não se pretende vender como verdade, mas apenas ampliar o sedutor jogo entre narrador e leitor. Assim, a ficção consegue ser mais real que o real da realidade externa.
• É comum sua literatura estabelecer relações com a História. Em Armadilhas, por exemplo, aparecem a ditadura militar e os ataques de novembro de 2015 em Paris. Você busca matéria literária em eventos históricos?
Não. Embora o indivíduo comum seja essencial para a consecução dos eventos históricos, ele não os domina, é dominado por eles. Assim, não me interessam os eventos históricos em si, mas como os indivíduos comuns são afetados em sua subjetividade. Em outras palavras, por exemplo, não me interessa, ficcionalmente, abordar a ditadura militar como evento — deixo isso para as investigações dos historiadores —, mas sim como esse evento, aparentemente longínquo do cotidiano, transforma a vida dos personagens. O mesmo ocorre com a história que se desenvolve durante o noticiário dos ataques terroristas em Paris, em novembro de 2015, que modifica a vida de personagens estabelecidos a milhares de quilômetros de distância.
• É comum nos contos a presença de personagens e espaços estrangeiros. O que há de intrigante nessa figura? E como é escrever sobre lugares fora do Brasil?
Isso ocorre somente nas narrativas protagonizadas por Dório Finetto. Por conta das minhas incansáveis viagens a trabalho para divulgar os livros traduzidos e para palestras em feiras e festas literárias e universidades no exterior, percebi que havia muitos episódios que poderiam ser ficcionalizados. Então, criei uma espécie de alter ego, Dório Finetto, dei-lhe uma biografia, um lustro cultural e uma sofisticação social que não tenho e coloquei-o como observador das coisas que via nos diversos países por onde passava. No final, compreendi que aquelas histórias conversavam diretamente com as histórias não protagonizadas por ele, do restante da minha obra, pois trata-se, em um e outro caso, de personagens desenraizados, gente buscando um sentido para a vida, e essa busca é humana, não importa se realizada no Brasil ou em qualquer outro canto remoto do mundo.
• E o Brasil contemporâneo ainda oferece matéria literária?
Certamente. Basta ter olhos para ver, ouvidos para escutar, nariz para cheirar, mãos para tatear, boca para sentir — e principalmente, empatia para colocar-se no lugar do outro e tentar compreendê-lo como se fôssemos nós mesmos.