“Estou triste. Hoje vou dormir triste”, diz Peixe — o protagonista do romance Fantasmas, de Daniel Munduruku — a seu advogado Salomão. Peixe está em uma penitenciária desde que confessou alguns crimes de vingança. O advogado o visita e grava seu depoimento, tentando compreender o caso. “Isso não é um desabafo” — continua Peixe — “É o que é”.
O romance é inspirado na história do Índio Tanaru, também conhecido como Índio do Buraco, que viveu isolado na floresta, em Rondônia, por décadas, como último sobrevivente de seu povo. Porém, o personagem ficcional tem outro rumo: depois do massacre de sua comunidade, ele se aproxima dos brancos (os “fantasmas”), para conhecer sua língua e seu modo de vida, e assim consumar sua vingança.
A experiência de Peixe remete a outras narrativas de contato entre povos da floresta e o “povo da mercadoria” (o mundo dos fantasmas, ou seja, o mundo do sistema literário em que se inscreve o romance). Do ponto de vista documental e etnográfico, é possível traçar um paralelo com as trajetórias de Carapiru, retratado no filme Serras da desordem (2006), de Andrea Tonacci, e de Davi Kopenawa, coautor, com Bruce Albert, de A queda do céu (2010). Se, historicamente, os traumas de contato eram vistos de fora (pelos “fantasmas”), os relatos de Carapiru e Kopenawa marcam nossa produção cultural por seu ponto de vista: mostram a violência a partir do olhar interno das comunidades ameaçadas e dizimadas.
O personagem Peixe, no romance, é um homem indígena sem etnia definida. Nesse sentido, poderíamos pensar no termo “yanomami”, que significa “ser humano”. Seu povo tinha um modo de vida, um sistema de valores, até que um dia aparecem jagunços que assassinam toda a aldeia. Peixe é um dos poucos sobreviventes. Ele busca abrigo em uma comunidade amiga, do mesmo ramo linguístico, porém esse grupo tem contato com missionários. Peixe desconfia dessa parceria — os missionários, afinal, são fantasmas, a mesma gente que matou seu povo — e então formula um novo caminho: irá até o mundo dos brancos, aprenderá sua língua, com o objetivo de vingar-se.
O livro não se reduz à sua premissa narrativa. O discurso propõe uma composição sofisticada, ao entrelaçar vários modos de narração: temos o relato oral de Peixe (gravado pelo advogado); há textos escritos por ele na prisão, em cadernos que recebeu de Salomão; há cartas e, finalmente, capítulos narrados em terceira pessoa. A moldura narrativa tem um fio de mistério — como ocorreu o crime de Peixe? Ele é mesmo culpado? — no entanto, a investigação criminal é secundária; o corpo do livro trata, acima de tudo, de uma aproximação cultural. Peixe conta a Salomão sua história, apresenta seus saberes. Esse conhecimento marca o advogado, que aos poucos se abre para uma nova forma de linguagem — a comunicação através dos sonhos.
Tentativa de convencimento
Na narrativa, Salomão é o receptor do discurso de Peixe. “Quer saber mais coisas? Não tem problema, doutor. Posso falar o dia todo aqui, sem parar” — o texto é repleto dessas marcas de contato. O leitor incorpora-se ao papel de ouvinte, o que demonstra certo papel instrumental do advogado. Ele tem a função de intermediar narrador e leitor. Seu engajamento na defesa de Peixe, ao final do romance, postula o efeito ideal do livro sobre o leitor: a obra literária busca nos converter para sua mensagem, assim como o advogado é convencido pela narrativa de Peixe.
Essa postura é didática e moral. O livro ensina a visão de mundo dos povos da floresta, estabelecendo suas virtudes — são práticos, compreendem os ritmos da natureza, apreciam o silêncio, sabem ler os sonhos; tais qualidades se opõem ao sistema dos fantasmas, onde “igualdade, lealdade e honra” são palavras vazias. A orelha do livro ressalta a mensagem de “verdades óbvias”: “a escrita de Daniel Munduruku produz manifestos”.
Trata-se do limite desse romance no aspecto literário. Para um leitor que desconheça o universo das culturas nativas do país, pode ser um bom começo. É um texto bonito, maduro e conciso. Porém, apesar do esforço admirável de criar, literariamente, uma subjetividade da solidão indígena, a prosa soa cansativa em seus trechos mais maniqueístas:
Os fantasmas são covardes, mas dizem que não. São medrosos, mas se armam até os dentes, seja com armas que cospem fogo, seja de leis que cospem regras. Não são capazes de enfrentar os crimes que cometem, jurando inocência até o fim. Isso vale para todos os fantasmas, mesmo sabendo que eles não são iguais como eu pensava antes.
A luta indígena necessita e merece nosso engajamento; tem relevância global, neste planeta em que os fantasmas precipitam a “queda do céu”. Isso é incontestável, nos campos social e político. Porém, no campo literário, um manifesto não atinge as possibilidades artísticas que o tema poderia render. O autor cumpre seu papel com dignidade — mas a dignidade, às vezes, atrapalha um romance.