Quando se fala em fluxo de consciência, logo vem à mente Ulysses, de Joyce. Embora não a tenha inventado, Joyce elevou a técnica ao seu mais alto grau. Na obra Lições de literatura, Vladimir Nabokov afirma, a respeito desse recurso no solilóquio final de Ulysses: “(Joyce) exagera o lado verbal do pensamento. Pensamos não apenas em palavras, mas também em imagens, e o fluxo de consciência pressupõe uma corrente de palavras passíveis de serem registradas: é difícil, contudo, acreditar que (Molly) Bloom estivesse o tempo todo falando consigo própria”. Em Goiás, romance de Marcus Groza vencedor do Prêmio Sesc 2025, o fluxo de consciência se dá na mente não só dos humanos, mas principalmente na de um cão — o que faz surgir mais um elemento na questão levantada por Nabokov: cães não pensam em palavras, mas em imagens, cheiros, sons e sabe-se lá o que mais. Conclui-se, portanto, que a literatura não opera na realidade, mas na representação da realidade (ou, como bem colocou Samuel Johnson, ela produz dor e prazer “não porque é confundida com a realidade, mas porque traz realidades à mente”), e quanto mais livre e inventiva for essa representação, mais rica é a literatura.
O enredo de Goiás é simples: seis capítulos que narram o trabalho de dois cães farejadores, Cora e Goiás, e seu tutor, o bombeiro Sadu, durante o resgate das vítimas da tragédia de Brumadinho. O livro é narrado pelo cão Cora, que se refere a Goiás como “o nosso herói”, por Sadu e também por sobreviventes da tragédia. Mas é a “voz” de Cora que domina todo o livro, um enorme e bem-sucedido exercício linguístico de Groza, aqui em seu segundo romance (o primeiro ainda não foi publicado). Em uma entrevista recente, o autor afirmou que considera o romance “um longo poema” e “uma experiência de linguagem”.
Na história da literatura, há um sem-número de romances narrados por animais de toda espécie, mas a obra de Groza, a meu ver, eleva esse “subgênero” a outro patamar. A falta de conectivos e vírgulas e as elipses tornam as frases truncadas, quase cuspidas. Isso condiz com o modo estouvado dos cães, mas essas falas se misturam às dos humanos, e por vezes não sabemos exatamente quem está narrando. Aos poucos, contudo, nos acostumamos à sintaxe do livro e somos invadidos e encantados pelo lirismo inspirado de Groza, como neste trecho:
Botaram a gente ali toureando o boi que a cobra comeu, foi rápido demais quem não voa se quebra meu deus, corro e corro e todo o ar me falta, pra baixo é lama pra cima é mato, virgem maria projeto de fim de mundo foi, busco o lugar mais alto a boca seca, então que paro caio brusco sentado ofegante apreciando a demolição o chiado quente do tremor, depois o vento que vem junto traz o poeirão, parecia um encantado do avesso, eu quis respirar fundo queimar tijolos no meu próprio pulmão, um muro de arrimo talvez subisse, se tivesse coragem descia lá de novo pagar o bicho à unha, mas sobreviver para ficar vendo toda essa miséria aqui não.
A tragédia de Brumadinho é conhecida por todos: controlada pela Vale, que ignorou avisos de segurança, a barragem Mina Córrego do Feijão, de rejeitos de uma mina de ferro, rompeu-se em 25 de janeiro de 2019, matando 272 pessoas e contaminando solo e rios. Cerca de 20 cães farejadores, de diversos estados brasileiros, foram usados nas operações de resgate. Goiás faz crítica social e política de duas formas: na voz de alguns sobreviventes e, de forma mais chocante e contundente, na narrativa de Cora: afinal, o que ele, Goiás e outros cães de resgate estão farejando são cadáveres:
Nossa frente ficou com a área do refeitório, eu já tinha corrido aqueles ares algumas vezes quando tudo aqui ainda estava molhado, foram sete vítimas na primeira fase, as que vieram à tona foram extrincadas nas primeiras horas, agora no solo mais seco viemos sondar extratos mais profundos. Sadu me solta da trela, corro em volta das coisas me movo em todos os sentidos, as moléculas se dispersam contraefetuo os redemoinhos, o vento me corta, pateio o barro tudo onde as minhas patas se moldam, vem à tona o que foi enterrado antes do tempo, semente que se precipita em fruto nenhum pássaro carrega, a não ser esse floco leve de asas vegetais que o vento não destece empurra, surgiu não sei de onde, flutua em silêncio na paisagem a alma que seu caminho encontra.
Marcus Groza é formado em Filosofia, mas fez doutorado em Artes Cênicas, tendo escrito peças teatrais e uma obra sobre teoria teatral, além de livros de poemas. Tal formação e vivência certamente explicam a rica oralidade de Goiás, aliada ao domínio narrativo do autor. Falamos de Joyce; podemos fazer um paralelo com seu “duplo invertido”, Beckett, que foi buscar no teatro uma sintaxe que depois iria utilizar em suas novelas e seus poemas. O texto teatral falado possui algo valioso que a literatura não tem: o silêncio, a pausa. É preciso imprimir a intencionalidade da fala com a cadência das frases, a pontuação, os espaços invisíveis; é preciso, enfim, exprimir o horror no silêncio da palavra impressa no papel, fazer com que ela ganhe vida, eleve-se, flutue sobre a cabeça do leitor e seja ouvida, como um sussurro ou como uma explosão. Marcus Groza foi especialmente feliz ao dar voz a um cão para descrever o terrível acidente. Cães são naturalmente afetuosos e corajosos, e diante de sua integridade animal, a estupidez e a covardia humanas se tornam ainda mais patéticas.
O tema central de Goiás é a dor da sobrevivência. O desastre ambiental produziu vítimas que morreram e vítimas que permaneceram vivas. Parentes foram obrigados a reconhecer pessoas amadas por partes de seus corpos; moradores perderam suas casas, animais silvestres morreram pela contaminação do meio ambiente; bombeiros e cães também sofreram revezes e têm que sobreviver com o trauma do enfrentamento da morte. O cão Goiás é sobrevivente de um desabamento, e seu tutor adiciona calmante à sua água. Sua alegria, contudo, é inabalável — uma alegria estabanada que será o motivo de seu ocaso, ao final do livro. Como atesta seu companheiro Cora:
Goiás é o bicho mais feliz que já conheci, agora fica atestado que não é lá nenhuma felicidade doentia, Goiás nosso caramelo feliz e terrível, às vezes demoramos sete vidas para driblar o desamparo e habitar o leve da deriva, Goiás é bicho solto, liberdade é tudo que as bocas tortas do cachimbo policiam, nada martiriza mais os pobres de espírito que a alegria estampada na bandeira de um sorriso.
Muito se tem discutido sobre o lugar que o engajamento político ou social ocupa na literatura. Goiás trata de um desastre ambiental que vitimou centenas de seres humanos e animais, causou uma enorme devastação ambiental e não viu os culpados serem responsabilizados e punidos: ex-executivos e funcionários da Vale e da consultoria alemã TÜV SÜD e duas empresas são réus na Justiça Federal, mas o processo se arrasta há anos, sem previsão para terminar. Porém, apesar de ter esse pano de fundo, e defender as vítimas desse flagelo, o romance jamais é panfletário e prioriza a narrativa, a linguagem, o estilo e a originalidade. Em uma época em que o fazer literário muitas vezes se resume a uma defesa pedestre de pautas morais e à autoindulgência rasteira da autoficção, este belo romance de Marcus Groza é mais do que uma exceção: é um vislumbre de dias melhores.