Senhora dos labirintos

A poesia de Florbela Espanca exige uma leitura atenta e perspicaz, que não se renda às respostas fáceis
Ilustração: Carolina Vigna
27/05/2016

Embora o recente surgimento de uma série de produções associadas à vida e à obra de Florbela Espanca tenha voltado a lançar luzes sobre o seu nome, seria impróprio falar em termos de um resgate, ou mesmo de um revival, em torno da autora de Charneca em flor, por uma razão simples: nas últimas décadas, o nome de Florbela jamais deixou de estar em evidência. Pode-se demonstrá-lo por meio de um experimento trivial: basta lançar seu nome no Google, o que enseja o aparecimento de mais de meio milhão de resultados — que, se visitados, revelam incontáveis páginas dedicadas a homenagear a autora, com direito à apresentação de pequenas antologias pessoais (às vezes, livremente comentadas) ou de montagens e desenhos criados a partir do vasto acervo fotográfico. Quem desejar outros indícios pode percorrer os incontáveis vídeos com leituras de seus poemas disponíveis na internet, que alcançam milhares de visualizações; ou observar a atenção que recebeu, no Brasil, o filme dirigido por Vicente Alves do Ó, com Dalila Carmo no papel da poetisa.

O fiel séquito de leitores de Florbela, diga-se de passagem, não carece de edições nacionais de sua obra, ainda que muitas de qualidade discutível. Encontramos, nas grandes livrarias, volumes que trazem não apenas os poemas publicados no Livro de mágoas (1919), no Livro de “Soror Saudade” (1923) e nos póstumos Charneca em flor (1931) e Reliquiae (1931), mas também os livros em prosa — As máscaras do destino (1931) e O dominó preto (1982), ambos publicados após sua morte. Felizmente, leitores mais exigentes não ficam desamparados: ainda é possível encontrar à venda exemplares das bem cuidadas edições preparadas por Maria Lúcia Dal Farra, responsável também por excelentes volumes que trazem parte de sua correspondência e o Diário. Para além das fronteiras brasileiras, vale a pena mencionar um conjunto recente de publicações que vem ocupar um lugar privilegiado na bibliografia florbeliana: refiro-me à edição de suas obras completas a cuidado de Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario da Silva, empreendimento ainda em curso, valioso tanto pelo tratamento dos textos quanto pelas notas sobre os poemas.

Tarefa complexa
No que tange à bibliografia passiva, entramos em um território no qual separar o joio do trigo torna-se uma tarefa especialmente complexa. De um lado, há que se considerar que a figura de Florbela sempre foi capaz de causar uma forte impressão — seja na forma de um verdadeiro fascínio, seja na forma de um inelutável estranhamento — sobre quem a conheceu pessoalmente, ou mesmo sobre quem se aproxima de sua efígie ou de sua obra; daí os inúmeros relatos produzidos por quem com ela conviveu, nem sempre confiáveis, que permitem recompor figuras de traços por vezes contraditórios, mas que convergem no reconhecimento de uma personalidade notavelmente forte e independente, capaz de afrontar convenções sociais e de fazer valer a sua vontade, quando necessário, contra tudo e contra todos, arcando altivamente com as severas consequências disso decorrentes. De outro lado, há os inúmeros ensaios e estudos acadêmicos dedicados à produção florbeliana, que constituem um terreno em que também é necessário ingressar com muitos cuidados. A par de títulos incontornáveis para quaisquer estudos aprofundados sobre a obra da autora do Livro de mágoas, proliferam-se textos que ora enveredam por sendas marcadas por leituras impressionísticas, que na maior parte das vezes limitam-se a repetir lugares-comuns da “mitologia” florbeliana — tão alimentada, inclusive, por figuras significativas como Guido Battelli e Rui Guedes — ou a reiterar concepções estereotipadas ainda presentes em muitos trabalhos acerca da poesia de autoria feminina, que encontram um terreno especialmente fértil no que diz respeito à produção de Florbela Espanca.

A esse respeito, uma indagação aparentemente trivial pode suscitar interessantes reflexões: o que faz com que a obra florbeliana seja tão lida, mas frequentemente tão mal lida? Penso que isso tende a ocorrer por dois motivos que, muitas vezes, caminham juntos. O primeiro motivo é o já citado carisma de Florbela Espanca: sua trajetória pessoal, associada a um vasto acervo iconográfico, propicia uma enganosa familiaridade com uma autora que notoriamente explorou temas biográficos em sua poesia; isso acaba por gerar uma sensação de proximidade que, ao fim, contamina a leitura da produção literária. Para os que seguem por essa senda, ler os escritos de Florbela é como ler o que escreveu uma amiga íntima, cujos dilemas e angústias são bastante conhecidos; essa certeza de compreensão, por outro lado, enseja uma perigosa segurança, do que derivam interpretações arbitrárias, quando não flagrantemente abusivas. O segundo motivo está relacionado a questões estilísticas próprias da dicção florbeliana, presentes em um conjunto de elementos: uma linguagem frequentemente clara; o hábil manejo de um registro de tom confessional; o uso criativo de um amplo repertório simbólico; o recurso a uma retórica eficiente e bem urdida — o que pode gerar a impressão de que o texto de Florbela é sempre espontâneo e transparente, encerrando sentidos facilmente apreensíveis em uma leitura rápida e superficial. Quando se associam esses dois motivos, está preparada a armadilha: a obra de Florbela Espanca é analisada de forma reducionista e contingente; episódios biográficos ou supostos traços de sua personalidade são evocados para justificar interpretações parciais ou descabidas; textos são descontextualizados e lidos como se não se tratasse de uma autora que, ao longo de sua curta vida, dedicou-se, com notável afinco, à construção de um projeto literário denso e consistente.

Embora tanto já tenha sido escrito sobre Florbela, muitas questões solicitam novos exames que, revisitando-as, possam preencher lacunas ou desenvolver insights que permanecem insuficientemente explorados.

Com efeito, o que os mais sérios estudos sobre os escritos da autora de Reliquiae vêm reiteradamente demonstrando é que a produção de Florbela Espanca não pode ser encarada de forma ligeira ou superficial. A autora que, espantosamente, começou a escrever ainda na infância logrou construir, a despeito de seu desaparecimento precoce, um edifício literário amplo e complexo, em que tem importância tanto o que por ela foi aproveitado nos livros quanto o que já nos primeiros projetos foi rejeitado; uma obra em que alguns dos temas centrais na arte de todos os tempos — por constituírem aspectos fundamentais da existência humana — são reelaborados e repensados de forma singular e inovadora, o que faz com que seus textos dialoguem tanto com elementos característicos de seu tempo quanto com outros que o ultrapassam; uma literatura que, em outras palavras, exige uma leitura atenta e perspicaz, que não se renda às respostas fáceis. Por isso é que, embora tanto já tenha sido escrito sobre Florbela, muitas questões solicitam novos exames que, revisitando-as, possam preencher lacunas ou desenvolver insights que permanecem insuficientemente explorados.

Ilustração: Carolina Vigna

O amor
Talvez o tema que mais continue a fascinar os leitores de Florbela, o amor, é uma das questões que está longe de apresentar-se, em sua produção literária, da maneira chã como muitos insistem em perceber. Também aqui é fácil tomar atalhos enganosos: se a centralidade que o temário amoroso ocupa na lírica florbeliana guarda relação com expectativas e valores que a tradição patriarcal estabeleceu para as mulheres, nada mais errôneo do que assumir que Florbela incorporou-as passivamente; com efeito, para além dos fatos que demonstram com mais ênfase o modo como seu percurso biográfico desafiou os parâmetros epocais — sobretudo os divórcios de Alberto Moutinho e António Guimarães —, não faltam demonstrações evidentes de formas de resistência por ela elaboradas, particularmente patentes na correspondência. Se Florbela entregou-se intensamente às experiências amorosas, não o fez sem problematizá-las e questioná-las, o que se reflete no tratamento lírico que dispensou ao tema.

Como argutamente observou Maria Lúcia Dal Farra, há dois elementos que surgem constantemente associados ao amor na poesia florbeliana: a dor — compreendida pela poetisa como um atributo feminino, o que não deixa de apresentar as marcas do tempo — e o erotismo — tema que, mais à frente, abordarei com mais detalhes. Neste momento, julgo importante destacar que a percepção de um vínculo entre o amor e a dor como especificamente feminino, longe de manifestar-se nos limites da estereotipia, está associada a uma profunda compreensão do lugar destinado à mulher na sociedade patriarcal, questão acutilante para uma sensibilidade que sempre reclamou para si uma liberdade que lhe foi reiteradamente vetada. Cedo Florbela teve a percepção de que aquela mesma experiência amorosa oferecida às mulheres como instância singular de prazer e libertação encerrava, ao mesmo tempo, um asfixiante aprisionamento. “O casamento é brutal, como a posse é sempre brutal, sempre!”, escreveu na carta a Júlia Alves em que abordou extensamente o assunto. “É o casamento um grilhão de flores e risos? De acordo, mas é sempre um grilhão”, afirma para a amiga, aconselhando: “O melhor dos homens não vale um fanatismo, creia-me”.

Em Florbela coexistiram a determinação de vivenciar o amor como forma privilegiada de acesso ao prazer e a elaboração consciente de estratégias que lhe permitissem salvaguardar a liberdade, estando aí o fundamento de uma concepção dialética que pode ser percebida em sua obra literária. Conquanto apresente atributos constantes, o amor não se apresenta de forma estanque na lírica florbeliana. “Beijos d’amor! P’ra quê?!… Tristes vaidades!/ Sonhos que logo são realidades,/ Que nos deixam a alma como morta!”, escreve em Para quê?!, do Livro de mágoas; “Ama-me doida, estonteadoramente,/ Ó meu Amor! que o coração da gente/ É tão pequeno… e a vida, água a fugir…”, lemos em Mocidade, soneto de Charneca em flor. Compreender o intricado desenvolvimento do temário amoroso em Florbela constitui uma tarefa que demanda atenção para as sutilezas de uma sensibilidade singular.

A percepção da experiência amorosa como um processo que inevitavelmente envolve negociações e recusas para que a autonomia individual não seja sacrificada faz com que, ao amor, esteja intrinsecamente ligado outro tema central da poesia florbeliana: a identidade. Sabendo-se mulher, portanto sujeita a um conjunto de opressões que sobre ela incidia de forma específica; ciente da capacidade — e do direito — de vivenciar o próprio prazer, não apenas sujeitando-se ao desejo alheio, Florbela deliberadamente se dedicou a um profundo processo de questionamento subjetivo e de construção da identidade que de várias formas pode ser percebido, tanto na vida quanto na obra. Os testemunhos daqueles que com ela conviveram mencionam traços que, por vezes, sugerem uma atitude talvez calculada ou teatral — do “desdém marcado, de alma funda” mencionado por José Gomes Ferreira à “canseira febril de quem porfia em se reduzir a cinzas” referida por Amélia Vilar; a isso soma-se a consciência da construção de uma imagem exterior, explícita na carta em que Florbela reconhece, para Júlia Alves, o que denomina “sombra negra, enorme, medonha” do seu caráter: a hipocrisia, meramente por parecer alegre às pessoas quando, por dentro, guardava uma “tristeza amarga e doentia”.

As personae presentes nas obras literárias florbelianas materializam a seriedade e a complexidade com que a autora lidou com as questões identitárias. Seja assumindo a máscara que por outro lhe foi concedida — “Irmã, Soror Saudade, me chamaste…/ E na minh’alma o nome iluminou-se/ Como um vitral ao sol, como se fosse/ A luz do próprio sonho que sonhaste”, lemos no quarteto inicial de “Soror Saudade”, soneto dedicado a Américo Durão, responsável por conferir à poetisa a alcunha que batizaria seu segundo livro —, seja criando para si mesma uma outra máscara — “Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?…/ Aonde estão os beijos que sonhaste,/ Maria das Quimeras, sem quimeras?” —, Florbela incessantemente se fez outras, o que por outro lado responde a uma intenção artística: uma “estética da teatralidade”, na precisa conceituação de Renata Soares Junqueira.

Ilustração: Carolina Vigna

O erotismo
Também o erotismo, justamente percebido como um dos componentes mais característicos da poética florbeliana, não surge em sua obra de maneira arbitrária; a exemplo dos outros temas mencionados, trata-se de algo desenvolvido no âmbito de um projeto consistente. Como enfatizou Cláudia Pazos Alonso, é possível rastreá-lo até o Livro de mágoas, em que o corpo e o desejo já surgem inscritos em poemas como Languidez ou Amiga — “Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…/ Como se os dois nascêssemos irmãos,/ Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…” —, ainda que venha a alcançar uma expressão plena em Charneca em flor; é quando a subjetividade poética, alçada à onipotência, vivencia a feminilidade como afirmação suprema da sensualidade: “Trago dálias vermelhas no regaço…/ São os dedos do sol quando te abraço,/ Cravados no teu peito como lanças!// E do meu corpo os leves arabescos/ Vão-te envolvendo em círculos dantescos/ Felinamente, em voluptuosas danças…”, lemos em Volúpia. Como a tradição crítica vem destacando, o tratamento que Florbela dispensa ao erotismo constitui uma ruptura, quando analisado em relação à literatura portuguesa de autoria feminina até sua época. Não obstante, a compreensão do modo particular como isso ocorre demanda que se considere tanto a coerência de sua obra poética quanto seu modo pessoal de encarar as relações afetivas. Analisando as cartas por enviadas pela poetisa a António Guimarães, Maria Lúcia Dal Farra observa que, se o affair estendeu-se por cinco anos e meio, isso ocorreu devido à atração física e ao sexo. Em síntese: a afirmação do desejo não surge na lírica florbeliana de maneira contingente; trata-se da expressão literária de uma mulher que, de forma consciente e deliberada, busca fazer da poesia uma via para a expressão estética de um ímpeto que reconhece como seu.

A manifestação plena do erotismo na obra de Florbela associa-se à construção de um âmbito propício para que isso possa ocorrer, o que também corresponde ao desdobramento de um elemento presente já em seus primeiros escritos, a saber: a criação de espaços intersticiais que permitam a eclosão de experiências que não têm lugar no cotidiano ordinário. Essa suspensão dos princípios que estruturam a ordem própria da realidade vulgar opera como condição de possibilidade para a afirmação de um outro mundo, no qual cessam de existir as restrições e opressões costumeiramente impostas. Assim se compreende a importância, na lírica florbeliana, de temas como o sonho e a morte, que constituem vias de acesso para esse espaço alternativo; contudo, importa perceber que esse questionamento metafísico apresenta diferentes nuances na obra de Florbela.

Ana Luísa Vilela observou que, no Livro de mágoas, a tematização da dor emerge da consciência de uma clivagem entre a realidade como vivida e sonhada pelo sujeito poético, tornando-se para este uma morada —“A minha Dor é um convento. Há lírios/ Dum roxo macerado de martírios,/ Tão belos como nunca os viu alguém!”, lemos em A minha dor; analisando o tema da angústia na poesia de Florbela, Fabio Mario da Silva enfatizou como a morte assume um sentido salvífico em um soneto como À morte, de Reliquiae — “Dona Morte dos dedos de veludo,/ Fecha-me os olhos que já viram tudo!/ Prende-me as asas que voaram tanto!”. Ressalte-se, contudo, que perceber nisso um mero escapismo implica desconsiderar a aguda consciência que a poetisa manifesta acerca dos dispositivos opressores que sobre ela incidem; nessa medida, cabe considerar essa construção literária de âmbitos particulares, caracterizados por uma subversão da ordem vigente no real, como a possível elaboração de zonas de resistência.

Se consideramos que a produção literária florbeliana começou a ser estudada de modo mais aprofundado e consistente nos anos 1940, por vultos como Jorge de Sena e José Régio, o que se percebe é que, sete décadas depois — e a despeito da vastíssima bibliografia desde então publicada —, muitas questões permanecem em aberto, não apenas por conta da complexidade inerente ao tratamento dispensado pela poetisa aos temas que lhe foram mais caros, mas também pela intricada maneira como se entrelaçam, constituindo um tecido literário que abrange parte considerável das dúvidas e dos dilemas que mais agudamente afligem a consciência humana. Se aqui abordei alguns deles, de forma necessariamente sucinta — e sem considerar, por economia, as produções em prosa —, assim procedi com o mero fim de explicitar em que medida a obra florbeliana vem atraindo abalizadas leituras que iluminam alguns de seus aspectos fundamentais, sem que entretanto apresentem respostas definitivas; não obstante, a impossibilidade de alcançar tais respostas é a mais cabal demonstração de sua grandeza como autora.

Para além dos estereótipos e das leituras superficiais, uma parte considerável da produção florbeliana permanece virtualmente inexplorada; somando-se a isso o interesse que continua a suscitar, pode-se afirmar que Florbela continuará a ser fonte de fascínio, bem como objeto de estudos que poderão ensejar inovadoras leituras e perspectivas sobre seu singular projeto literário. Se a tarefa de percorrer seus escritos — dos poemas aos contos, do diário à correspondência — jamais deixará de encerrar assombrosos desafios, importa considerar que isso se deve ao modo como foram concebidos pela própria autora, que fez da multiplicidade um caminho para lidar com as contradições e aporias da condição humana. Talvez seja aplicável a Florbela Espanca, afinal, uma alcunha que ela jamais utilizou, e que poderia emprestar de certa lendária princesa cretense: a de “Senhora dos Labirintos”.

Florbela Espanca
(1894-1930), hoje reconhecida como uma das mais importantes poetisas portuguesas, só se tornou conhecida após a morte, embora tenha publicado dois livros em vida (Livro de mágoas, em 1919, e Livro de “Soror Saudade”, em 1923), bem como poemas em diversos periódicos. Parte desse reconhecimento deveu-se a Guido Battelli, responsável pela publicação de suas primeiras obras póstumas (Charneca em flor, Juvenília e Reliquiae, em 1931), que para difundir a obra de Florbela explorou episódios biográficos e o suicídio, construindo uma imagem mítica ainda hoje vigente. Entre as outras obras póstumas, destacam-se ainda os livros de contos As máscaras do destino (1931) e O dominó preto (1982).
Henrique Marques Samyn

É professor de literatura e escritor. Autor de Uma temporada no inferno e Levante.

Rascunho