Toda tradução é ruim. Sim, há excelentes tradutores no mundo todo, mas seu trabalho quase sempre está fadado ao fracasso. Uma tradução é ruim, por definição, simplesmente porque não é o texto original, ou, usando o princípio lógico da identidade, “uma coisa só é igual a si mesma”. Se vivêssemos em um mundo ideal, só leríamos obras literárias no idioma em que elas foram escritas. Um romance escrito no realismo mais simples talvez permita uma tradução que se aproxime do original; mas, usando o exemplo mais óbvio da nossa literatura, você já imaginou como deve ser a tradução de Grandes sertões: veredas para o sueco ou para o alemão? O que os leitores suecos e alemães absorvem da obra? Certamente algo muito diferente e indubitavelmente aquém daquilo que o leitor brasileiro absorve — e não sem certa dificuldade.
Muito já se analisou o trabalho (hercúleo? sisífico? inútil?) de tradutores que se debruçaram sobre obras-primas da literatura, com maior ou menor dificuldade e sucesso — como atestam os inúmeros textos sobre o tema escritos por Eduardo Ferreira na coluna Translato, aqui no Rascunho, desde sua edição zero, em abril de 2000. Alterar o texto alheio, e ainda mais o texto de um gênio da literatura, é algo temerário. Paul Ricoeur, em Sobre a tradução, afirma que o único caminho para que o tradutor encontre a “felicidade” no ato de traduzir é renunciar à tradução perfeita — em um processo similar ao trabalho de luto freudiano. Ou seja: nenhuma tradução é boa o suficiente, aceite o fato.
Mas e quando o próprio autor é o tradutor da obra? O conhecimento absoluto do texto original e de sua gênese, a possibilidade de tomar todas as liberdades possíveis e de recriar grande parte do texto à vontade parecem ser as condições ideais para um tradutor. Mas o caso de Samuel Beckett mostra o contrário. Conforme nos conta James Knowlson, autor de uma das duas únicas biografias autorizadas por Beckett, Damned to fame (a outra é Parisian lives: Samuel Beckett, Simone de Beauvoir and me, de Deirdre Bair, embora em escopo bem menor), a tradução dos próprios textos sempre foi um estorvo para o autor irlandês, e pelo menos em uma ocasião ele desistiu da tarefa.
Beckett chegou a Paris pela primeira vez em 1928, aos 22 anos, ficando até 1930. Foi nesse período que ele conheceu o compatrício James Joyce, já consagrado aos 46 anos, com a visão seriamente comprometida, e o ajudou na pesquisa e revisão do Finnegans wake. Após um período entre Dublin e Londres, voltou a Paris definitivamente em 1937. Nesse período, escreveu romances, ensaios e poemas em inglês, mas após a Segunda Guerra passou a escrever mais e mais em francês — inclusive a peça que o tornaria famoso em todo o mundo, Esperando Godot, publicada em 1952. Durante toda a vida, Beckett teve que desmentir a ideia de que Vladimir e Estragon estariam, na verdade, esperando por Deus (waiting for God-ot), pois no título original, En attendant Godot, a alusão a Deus (Dieu) é inexistente.
Influência
A influência de Joyce sobre Beckett foi aterradora a princípio, e libertadora mais tarde. Joyce era um erudito, um gigante literário e possuía uma personalidade exuberante; Beckett era tímido, retraído e depressivo. Seu primeiro romance (escrito em 1932 e publicada postumamente em 1992), Dream of fair to middling women, segundo o próprio Beckett, “fedia a Joyce”. Foi apenas com a trilogia Molloy, Malone morre e O inominável (escritos em francês no começo dos anos 1950), que ele encontrou a sua voz. Segundo Beckett, “Molloy e os outros me vieram no dia em que me tornei consciente da minha própria insensatez. Só então eu comecei a escrever o que sentia”. Sua literatura passou a se ocupar, desde então, da própria impotência e ignorância. Conforme ele confidenciou a Knowlson anos depois:
Eu percebi que Joyce havia ido o mais longe que se poderia ir em direção a saber mais, a controlar mais o próprio material. Ele estava sempre acrescentando; basta olhar as anotações dele para ver isso. Eu entendi que o meu caminho estava no empobrecimento, na falta de conhecimento e na diminuição, na subtração, e não na soma.
Por outro lado, a vontade de fugir da Irlanda e da opressão materna tiveram um efeito definitivo sobre a sua obra. Beckett desejava exilar-se não somente do seu país, mas também do seu idioma (uma decisão compartilhada com seu amigo Emil Cioran, que abandonou literariamente o romeno em favor do francês). Além do mais, ele sentia que seus escritos em inglês estavam sobrecarregados de alusões literárias e uma erudição que ele definiu como “exuberância e automatismo anglo-irlandeses”, além da óbvia influência de Joyce. Ele afirmava que em francês conseguia escrever “sem estilo” — ou seja, de uma forma simples, direta e sem afetações.
Porém, havia um problema. A experiência no teatro fez com que Beckett introduzisse a prosódia em sua obra: ao texto, mínimo, foram incorporados o silêncio, os hiatos, a cadência, os acentos, a entonação certa. Cada palavra, portanto, ganhou força. Essa é a principal característica do texto beckettiano, ao qual ele se dedicava com esmero, jamais sem esforço, debruçando-se sobre uma frase ou mesmo uma palavra durante dias, semanas, meses. Após um período fértil, escrevendo peças, poemas e novelas em francês, voltou a escrever também em inglês. Beckett já havia, no começo da carreira, decidido traduzir/verter os próprios textos do francês para o inglês e vice-versa, após experiências frustrantes com outros tradutores. Porém, como manter a musicalidade, a concisão e os duplos sentidos (tão caros a Beckett) em outro idioma que não aquele em que a obra foi concebida? Isso foi motivo de imensa frustração para o autor ao longo de toda a vida.
Em agosto de 1981 (oito anos antes de sua morte), Beckett copiou em seu caderno de anotações três falas de Edgar em Rei Lear: “The lamentable change is from the best,/ The worst returns to laughter” (“A mudança lastimável é que parte do melhor,/ O pior retorna à alegria”), “Who is’t can say, I am at the worst” (“Quem pode dizer ‘eu estou no meu pior’?”) e “The worst is not so long as one can say, This is the worst” (“O pior ainda não existe enquanto se pode dizer ‘estou no meu pior’”). Em seguida, escreveu uma passagem que seria a sua fala mais conhecida na posteridade (reproduzida até como uma mensagem motivacional nas redes sociais!), aqui traduzida por mim:
All of old. Nothing else ever. Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
(Tudo como antes. Nada além jamais. Sempre tentou. Sempre fracassou. Não importa. Tenta de novo. Fracassa de novo. Fracassa melhor.)
Particularidade
Uma particularidade da língua inglesa é sua regularidade verbal. Um mesmo vocábulo pode ser um verbo conjugado na primeira ou segunda pessoa, no imperativo, ou estar no infinitivo, ou mesmo ser um substantivo. Isso “abre” a interpretação do texto, expondo-o a diferentes possibilidades em sua subjetividade. Em português, o trecho acima pode ser escrito no imperativo na terceira pessoa (“tente”), ou na segunda pessoa (“tenta”), quando então se confunde com a terceira pessoa do presente — não é o ideal, mas já é alguma coisa.
E por que Beckett começou a escrever esse novo texto em inglês, e não em francês? Obviamente porque ele deriva de Shakespeare: a prosódia estava dada. A repetição da palavra “worst”, nas falas de Edgar, vai ecoar também no texto que Beckett escreverá, a que dará o título provisório de Better worse (“Melhor pior”). Após um tempo, fazendo jus ao seu gosto por duplos sentidos e jogos de palavras, ele decide que o pequeno texto em prosa se chamaria Worstward Ho. Este é o tipo de dificuldade intransponível para um tradutor — e que se mostrou como tal para o próprio Beckett, ao tentar traduzir o texto para o francês. O título advém do romance Westward Ho!, de 1855, de Charles Kingsley — a expressão era usada por barqueiros no Rio Tâmisa, e significava algo como “Para oeste, avante!”. Beckett trocou Westward (para oeste) pelo hápax Worstward (para o pior) — exemplo típico de seu humor irlandês e sua inventividade. Uma única letra, um único fonema, e todo o significado é alterado, porém mantendo a força da interjeição.
Uma curiosidade: a edição de Écartèlement, de Cioran, publicado em 1979, possui um capítulo chamado Urgence du pire (Urgência do pior), em que ele vê a História sempre rumando para um desastre que jamais acontece. Beckett tinha esse livro em sua biblioteca. Talvez não tenha sido uma influência direta, mas o conceito pode ter rondado a sua cabeça.
Worstward Ho possui tudo aquilo que faz a literatura de Samuel Beckett: os jogos de palavras, as aliterações, os duplos sentidos, os neologismos, as elipses, as pausas, as repetições, o humor seco; tematicamente, a desolação, a iconoclastia, a resignação — mas jamais o desespero. Toda a filosofia de Beckett pode ser resumida no paradoxo “Eu não posso continuar/ Eu vou continuar” (O inominável). Enoch Brater, professor da Universidade de Michigan e especialista na literatura de Beckett, escreveu a respeito de Worstward Ho:
A qualidade de ser menos agora degenerou na qualidade de ser pior. Mesmo assim, não há por que se desesperar. Ao contrário: a linguagem é quase heroica em sua determinação alucinada de continuar. O vazio não pode ser conquistado, mas ainda pode ser descrito, principalmente quando parte da descrição é a incapacidade do autor de descrevê-la.
Beckett passou sete meses escrevendo a primeira versão — menos de 50 páginas. Durante o inverno, escreveu ao encenador norte-americano Alan Schneider: “Lutando contra uma prosa impossível. Inglês. Odiando”. Um ano depois, o texto finalmente foi publicado na Inglaterra; nos Estados Unidos saiu pela Grove Press. Se Beckett esperava pelo pior, ele veio na forma de sua tradução para o francês. Para começar, como traduzir o título mantendo a alusão ao romance de Kingsley e à interjeição dos barqueiros londrinos? Impossível. Em conversas com a amiga francesa Edith Fournier, eles chegaram a um título apenas passável, sem o brilho do original inglês: Cap au pire (Rumo ao pior).
Desafios
Em agosto de 1983, Beckett escreveu ao tradutor, escritor e encenador polonês Antoni Libera: “Creio que não consigo traduzir Worstward Ho. Ou com tantas perdas que eu não suporto sequer imaginar”. Em dezembro, Jérôme Lindon, chefe da Éditions de Minuit, a editora de Beckett na França, escreveu, em nome dele e do autor, a Jean-Jacques Mayoux, crítico literário e professor de inglês da Sorbonne, perguntando se ele aceitaria a tradução — sem sucesso. Em conversa com Knowlson, Beckett desabafou: “Como traduzir as primeiras palavras do livro: ‘On. Say on’ — sem perder a sua força?”. De fato, a abertura de Worstward Ho parece intraduzível, ou no mínimo apresenta desafios quase intransponíveis:
On. Say on. Be said on. Somehow on. Till nohow on. Said nohow on.
Ou, na minha tradução [medíocre]:
Continuar. Diga continuar. Seja dito continuar. De alguma forma continuar. Até não dar mais pra continuar. Disse não dar mais pra continuar.
A palavra on em inglês é preposição, advérbio ou adjetivo, mas não verbo. Como advérbio, aqui, indica a continuidade de uma ação. Como traduzi-la? Usar o verbo continuar, como eu fiz? No imperativo, talvez? E como manter a musicalidade e o ritmo das orações, todas terminando com on? Na minha tradução, optei pelo verbo no infinitivo — uma solução óbvia e pobre. Worstward Ho é um texto em prosa, mas poderia ser um poema (Cioran chamou atenção para o caráter essencialmente poético de toda a obra de Beckett, em todos os gêneros): o primeiro parágrafo poderia ser um sexteto com versos de métrica ascendente: monossílabo — dissílabo — trissílabo — trissílabo — tetrassílabo — tetrassílabo. Na minha tradução, on, a palavra monossilábica e enigmática, quase um mantra, vira um tetrassílabo — pesado, pouco sutil — até finalizar em dois grosseiros decassílabos.
Ana Helena Souza, tradutora de Companhia e outros textos (Globo, 2012), que contém Worstward Ho (traduzido como Pra frente o pior), oferece uma solução bem diferente:
Adiante. Dizer adiante. Ser dito adiante. De algum modo adiante. Até de nenhum modo adiante. Dito de nenhum modo adiante.
Há inúmeras soluções, mas nenhuma sequer se aproxima do original. Lendo esse trecho em inglês em voz alta, com todo o seu lirismo e musicalidade, entendemos o motivo da frustração de Beckett. E este é apenas o primeiro parágrafo do texto.
Nos anos seguintes, Beckett escreveu cada vez menos e se envolveu cada vez mais com montagens de suas peças em todo o mundo, com a saúde cada vez mais frágil. Ele não voltou mais à sua tradução de Worstward Ho. Após a sua morte, em 1989, Édith Fournier finalmente o traduziu para o francês, publicando Cap au pire em 1991, pela Éditions de Minuit. Uma tradução elogiada, mas obviamente aquém da obra de Beckett. Voltando à frase que abre este breve texto, talvez devêssemos trocá-la por um “beckettismo”: “toda tradução é para pior”.