Se existe a luz, há também a sombra. A cidade moderna — e, principalmente, Paris — é o sintoma mais óbvio dessa dicotomia. A iluminação que transformou o espaço urbano em um lugar de convivência — e não apenas de passagem — permitiu que as trevas estivessem presentes, escondendo o que não deveria estar aos olhos de todos. E Edgar Allan Poe (1809 – 1849), ao escrever, em 1841, Os assassinatos na Rua Morgue, foi o escritor que melhor enxergou a dualidade parisiense de modo a transportá-la para a literatura, esculpindo uma obra-prima e criando um gênero, a literatura.
Crimes, claro, não eram uma novidade na literatura. Sófocles, com Édipo Rei, quase 500 anos antes de Cristo, e Shakespeare e seu Hamlet — na virada dos séculos 16 para 17 — já tinham nas suas tramas uma brutalidade ímpar. A grande questão é que não havia a investigação do crime. O escrutínio, em geral, não passava do debate moral e, em certa medida, Poe também vai finalizar seu conto com uma reflexão acerca da natureza humana, entretanto, quando Auguste Dupin — o detetive de Poe — tenta encontrar quem matou as mulheres na Rua Morgue, começa ali uma nova forma de fazer literatura.
O que o conto de Poe investiga está para além do crime em si: é um mergulho nas sombras da cidade e, no caso, não é qualquer cidade: é Paris, a capital da modernidade. Poe sabia que seria muito menos interessante fazer seu texto se passar nos Estados Unidos, seu solo natal. Somente Paris — e, anos depois, sua reforma, que levaria abaixo cortiços e outros espaços indesejados — seria capaz de funcionar como cenário perfeito para uma trama como essa, em que o que realmente importava eram as sombras, a escuridão. Enquanto autores como Jane Austen (1775 — 1817), com romances como Razão e sensibilidade (1811) e Orgulho e preconceito (1813), usavam suas histórias para enxergar no mundo uma possibilidade de diálogo positivo, Poe, que sempre teve uma inclinação para temas sombrios, não estava interessado no que as pessoas tinham de melhor. O corvo, seu poema mais famoso, e o relato O retrato oval, publicados nos anos seguintes a Os assassinatos da Rua Morgue, confirmavam essa predileção.
O modelo detetivesco
Ao voltarmos a uma comparação fugidia entre Austen e Poe, se é que isso é possível — e aqui usamos somente para analisar opostos extremos —, muito mais que o chiaroscuro, o que temos é uma relação entre emoção e racionalidade. Austen, filha do romantismo, legou à sua obra uma carga emocional fortíssima, desprovendo muito de seus personagens, justamente, daquilo que Poe teria como ingrediente fundamental: a racionalidade. Os assassinatos na Rua Morgue é a exegese do pensamento científico. Se antes tudo poderia ser explicado pelos dogmas religiosos, com o desenvolvimento da ciência o cenário mudou para um alinhamento menos especulativo e mais definitivo.
E Auguste Dupin é arauto de toda essa racionalidade. Por ser um cavalier, Dupin já não é um sujeito ordinário, mas sim capaz de aventuras pelas ruas de Paris. O narrador, um amigo anônimo do protagonista, é quem testemunha as façanhas do detetive. E, como se vê, não fosse o seu amigo fiel, o próprio Dupin seria um sujeito a viver às margens — não pela sua conduta, e sim por não estar interessado no heroísmo que lhe é atribuído. O prazer da sua tarefa investigativa é fruto exato do deleite científico.
E ainda que apareça somente em três histórias — as outras duas são os contos O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada —, a influência de Dupin é imensa. Sherlock Holmes, o fleumático personagem de Conan Doyle (1859 — 1930), e Hercule Poirot, o detetive de Agatha Christie (1890 — 1976), são seus derivados mais identificáveis. Para além do desejo pelo cientificismo, Holmes tem Watson, ao passo que Poirot, Hastings. Ambos são os responsáveis por transformar seus amigos em heróis e construir a sua reputação como desvendadores de mistérios. Dupin, Holmes e Poirot são a trindade do racionalismo e do conhecimento científico como maneira una de chegar às conclusões mais acertadas. Eles são, portanto, e acima de tudo, humanistas e intelectuais, logo, resolver um enigma exige inteligência e não força bruta. É o ápice do que chamamos de romance de enigma.
Diante disso, em que perspectiva está a violência? Isso explica por que a resolução de Os assassinatos na Rua Morgue é como é, ou seja, não consegue entrever a possibilidade de a brutalidade ser algo do homem, e não bestial — e não avanço mais na análise para não cair no terreno frágil do spoiler.
O legado de Poe não para por aqui. Se formos ainda mais longe, Arsène Lupin, o ladrão de Maurice Leblanc (1865 – 1941), é um herdeiro direto, mas inverso, de Dupin.
Era de ouro
Se por um lado os anos iniciais da literatura policial respondiam ao cientificismo em voga, a sua Era de Ouro, entendida como as duas décadas entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial — ainda que essa delimitação seja somente uma restrição teórica —, responde às novas demandas do século 20, explorando ainda as temáticas da violência e da sexualidade. A violência é o que transforma as histórias da Era de Ouro em uma espécie de literatura escapista.
Paralelamente à Era de Ouro, consolida-se também a série noire — o romance negro — ou ainda, em uma definição norte-americana, como hard-boiled, em que não há uma história a adivinhar; não há mistério, no sentido em que ele estava presente no romance de enigma. Não à toa, Philip Marlowe, o detetive de Raymond Chandler (1888 — 1959), descreve a si mesmo, em Para sempre ou nunca mais, da seguinte maneira: “Se eu não fosse duro, não estaria vivo. Se eu não pudesse nunca ser gentil, não mereceria estar vivo”.
O estopim deste momento específico da literatura foi a publicação de Red Harvest, em 1929, por Dashiell Hammett (1894 — 1961), autor que se tornaria seminal para o gênero — criando, inclusive, um dos detetives que se tornaria epítome do hard-boiled, Sam Spade, que surge em O falcão maltês. Enquanto o detetive clássico possui uma motivação intelectual e de brio, o detetive noir é um profissional que trabalha por dinheiro e acaba se envolvendo com os criminosos ou até mesmo ocasionando outros crimes.
Como se nota, os detetives racionalistas e cerebrais são sujeitos que não erram, que estão certos de suas ações e deduções, são personagens idealistas, às raias da perfeição. Holmes, a despeito de sua astúcia e sensibilidade — vale lembrar que é um detetive de mão cheia —, é um leitor voraz dos jornais, sabendo até mesmo diferenciar a tipografia de variados jornais, porém, um néscio em termos de literatura. Conan Doyle não oscila o seu personagem entre um lado ou outro do polo moral ou intelectual: Sherlock é um cidadão modelo, uma espécie a ser seguida, tanto pela sua conduta quanto pela inteligência.
A estrutura da literatura hard-boiled, ao contrário, está amplamente fortificada no caráter pendular dos seus (anti-)heróis. Marlowe, de Chandler, é uma derivação direta de Spade, e ambos são homens de um mundo flutuante e que seguem a própria cabeça, mesmo que isso vá contra a lei. O senso de justiça operante também é distinto. Os mecanismos legais, como as forças policiais e os órgãos judiciais, são corruptos ou ineficientes, obrigando o detetive a se envolver completamente no caso que investiga.
A metrópole que havia sido o ponto-chave do gesto inaugural de Poe é retomada de maneira ainda mais intensa. A cidade não só oferece seu manto de invisibilidade para a marginália, mas também é um fator opressor sobre todo o sistema social, exigindo dos detetives um código moral próprio e uma dose cavalar de cinismo para sobreviver à selva urbana. Por isso, diante da impossibilidade de o detetive solucionar o crime de forma definitiva — como seria comum em um romance de enigma —, cabe ao leitor um papel de participação.
True crime e a nova onda
O gênero, devedor direto do texto policial — tanto da narrativa de enigma quanto da série negra —, tem relação clara não somente com a literatura, a ficção, mas também com o jornalismo. Um dos marcos modernos do true crime é A sangue frio, de Truman Capote (1924 – 1984), publicado em 1965 na The New Yorker e em livro em 1966, e considerado um dos propulsores do jornalismo literário, que, naquele momento, estava mais interessado em fatos do cotidiano ou em um olhar maximizado para figuras da cultura popular, como o famoso perfil que Gay Talese escreveu sobre Frank Sinatra.
Na obra, Capote, que à época já era um romancista bem estabelecido, principalmente, graças a Bonequinha de luxo, investiga o assassinato dos Clutter, uma família de classe média que vivia na cidade de Holcomb, no Kansas. Para retratar o crime, o escritor, comissionado pela revista The New Yorker, acompanhou desde as primeiras ações da polícia até o julgamento e a execução dos assassinos, Perry Smith e Richard Hickock. Para os detratores da obra de Capote, por sinal, a morte dos criminosos fazia parte do projeto literário do autor, que se beneficiaria — narrativa e financeiramente — daquele fim.
Polêmicas à parte, o relato de Capote atraiu grande atenção do público ao revelar detalhes que, comumente, não faziam parte do noticiário. O mergulho na cena e nos desdobramentos de um assassinato brutal apresentava um caráter que estava além do informacional.
A conexão entre crimes reais e a literatura policial de Poe não é, propriamente, uma novidade, ainda assim, gosto de pensar que pode ser lida como uma nova onda. James Ellroy teve como matéria-prima para seus romances e contos policiais tragédias verdadeiras. O caso envolvendo a aspirante a atriz Elizabeth Short, brutalmente assassinada em Los Angeles, em 1947, serviu de base para Dália negra, uma das obras mais importantes de Ellroy. O crime, que jamais foi solucionado, é revisitado constantemente por obras ficcionais — como a adaptação cinematográfica homônima feita por Brian De Palma a partir do livro de Ellroy — e novas investigações que buscam retomar detalhes e pistas deixadas de lado, por omissão ou voluntariamente, pela polícia.
Seja como for, Poe, ao delinear as luzes e a escuridão, conseguiu transformar a literatura e abraçar o que não estava à vista de todos. Os assassinatos na Rua Morgue não é somente uma obra inaugural da literatura policial, mas um conto que revela como a metrópole é, quem sabe, o mais importante personagem literário.