O triunfo da poesia

"Viagem à América do Sul", do chinês Ai Qing, reúne poemas escritos durante uma viagem em 1954, quando se comemoravam os 50 anos de Pablo Neruda
Ai Qing, autor de “Viagem à América do Sul”
01/03/2021

Ler e escrever sobre poesia traduzida de uma língua e cultura que nem de longe apreendemos é quase sempre uma tarefa ilusionista. Mas nós poetas somos sempre expedicionários do desconhecido, viajantes em busca do coração da utopia, da realidade dita e expressa de forma onírica, da pretensa irmandade cósmica do ser e de suas manifestações culturais.

Estamos diante de uma navegação entre oceanos, e navegar é sempre preciso na imensa imprecisão da existência. Embarcamos em Viagem à América do Sul, navegando com os poemas do chinês Ai Qing (1910-1996) em edição bilíngue organizada e traduzida por Francisco Foot Hardman e Fan Xing. É poesia contemporânea chinesa escrita por alguém que é considerado um dos grandes da literatura moderna na China.

Ai Qing nasceu em Jinhua, sudeste da China, em 1910, e morreu em Pequim, em 1996. Frequentou a Academia de Arte de Hangzhou e viveu de 1919 a 1932 em Paris, onde estudou arte, filosofia, poesia moderna ocidental e dedicou-se à pintura em porcelana. Fez parte da Organização de Artistas de Esquerda em Xangai e foi preso por se opor ao Partido Nacionalista no mesmo ano de sua volta. Escreveu seus primeiros livros ainda na prisão. Em 1941, filiou-se ao Partido Comunista Chinês. Antes, já havia trabalhado como editor e diretor do departamento de literatura da Universidade Yucai de Chongqing. Entre 1957 e 1959, foi condenado ao exílio no norte do país por ter defendido a escritora Ding Ling durante os expurgos contra intelectuais chineses.

Estamos diante de um intelectual criativo e de ação. Seu filho herdou sua potência criativa. É o dissidente e artista contemporâneo multimídia Ai Weiwei, que já expôs e pesquisou em diferentes lugares do Brasil.

Personagem apresentado, vamos ao livro. Vinte e um poemas reunidos que registram a viagem de dois meses que Ai Qing fez a partir de julho de 1954, passando pela Europa, África e América do Sul. Seu destino era o Chile, a poesia incorporada naquele momento pelo amigo-avatar Pablo Neruda, que celebrava seu aniversário de 50 anos. Qing também esteve no Recife, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Os poemas foram pinçados pelo organizador do livro no caderno convertido em Diário de viagem (publicado só em 2004, em Xangai) de Ai Qing, em periódicos, coletâneas e outras obras. O que podemos vislumbrar nas traduções dos poemas revela um olhar delicado e atento às desigualdades, às ações do colonialismo, ao imperialismo e à pobreza. Veja um exemplo:

“Ele dorme”
No corredor da sala de espera do aeroporto, um jovem negro dorme, apoiado contra a parede. Um francês passa, lança um olhar sobre ele sorrindo: “Il dort”.

Acorda, meu irmão
Desperta do teu sono profundo
Embora a grande fadiga
e o calor senegalesco 

Tu deves acordar
está na hora
Em breve o dia nasce
e sobe o sol

[Dakar, África, manhã, 16 de julho de 1954]

O poema faz um apelo ao jovem negro que dormita em uma Dakar colonizada, a partir do comentário de um francês. Dakar, capital do Senegal, fazia parte da África Ocidental Francesa, uma federação de oito territórios franceses na África composta por Senegal, Mauritânia, Sudão Francês, Guiné, Costa do Marfim, Níger, Alto Volta e Daomé. Senegal só se tornaria independente em 1960.

Tradução
Como a edição é bilíngue, fico olhando para os ideogramas dispostos em linhas horizontais e, claro, a questão da dificuldade de tradução se impõe. Não há como deixar de considerar os ensinamentos propalados por Ezra Pound dos estudos do orientalista norte-americano Ernest Francisco Fenollosa (1853-1908) sobre como a milenar escrita chinesa em ideogramas poderia auxiliar na construção poética, principalmente por causa do seu caráter intrinsecamente metafórico e do seu poder de condensação do pensamento em signos “vivos”. Sabemos que a escrita chinesa em sua origem, diferentemente das escritas alfabéticas, aproxima-se muito do objeto representado. Por conta disso, tem uma riqueza de composição muito grande. Um ideograma de um texto clássico, por exemplo, encerra inúmeros significados, e sua tradução para o português não se resume a uma única palavra. Aprendemos também que, no chinês moderno, palavras diversas compostas por dois ideogramas compartilham um ideograma comum, embora signifiquem coisas diferentes.

Imagino então a dificuldade e, por outro lado, o desafio poético que é a tradução de um poema chinês. Mesmo levando em conta que Ai Qing se insere no movimento da chamada Nova Literatura Chinesa, aquela que se afasta da rígida versificação da poesia clássica e busca em sua escrita uma linguagem mais prosaica, cotidiana, expressa em versos livres, a dificuldade de tradução não se reduz.

Viagens
Embora a passagem de Qing pela África tenha sido rápida, e ele nunca mais tenha voltado, seus poemas revelam uma percepção aguçada da realidade social e histórica e, ao mesmo tempo, brindam-nos com sua compassiva humanidade.

Minha África

[…]
Bom dia
Meus irmãos de pele negra
Quero tanto abraçar vocês
Bom dia
Minha África
África quente arfante
Águias e cães do imperialismo
Vagueiam pelo aeroporto
Pistola no cinto
Sob o capacete
Nos olhos afundados
Há fogo diabólico    

Eles guardam a noite da África
A noite daqui é tão longa
Que dura centenas de anos
[…]

Sua passagem pelo Brasil não foi diferente. Os poemas estão enfeixados na parte III. Negro Brasil: Rio de Janeiro, onde a desigualdade social e a discriminação racial não lhe passam despercebidas.

Jovem negra cantando 

No tabuleiro,
uma jovem negra,
Encantadora,
passeia e canta… 

[…]
Com bebê nos braços,
É canção de ninar.

Não é filho seu,
Nem um irmão caçula;
do patrão é o filho,
que ela deve cuidar; 

Uma é negra tão negra,
da cor do sândalo;
Outro é branco tão branco,
da cor do algodão;

Um é só conforto,
e não para de chorar;
Outra é pobre pobre,
e canta alegres cantigas. 

[Rio de Janeiro, 17 de julho de 1954]

Impressões
Ao ler as traduções dos poemas de Ai Qing, também não consegui deixar de pensar na categorização das línguas feitas pelo brilhante filósofo tcheco Vilém Flusser (1920-1991) em seu livro Língua e realidade (1963). Segundo ele, o idioma chinês faz parte das línguas isolantes, em contraste com o português que é uma língua flexional. O argumento de Flusser é que o mundo das línguas isolantes é impenetrável para nós (que criamos e mapeamos a realidade com nossa língua flexional). O conjunto dos ideogramas formaria um todo estético, que criaria uma aura de significado. Essa aura, por não ser unívoca logicamente não poderia ser captada pelas línguas flexionais. Seu ideal seria a beleza, e não a verdade — como se dá na frase de uma língua flexional.

Sabemos todos nós que lidamos com a poesia que muito ou quase tudo do que ela seria se perde com a tradução, como já enfatizou o grande Robert Frost (1874-1963). Com isso já sabemos lidar, mas as implicações que a tese de Flusser sugere são assustadoras para quem trabalha com a linguagem.

O que Flusser nos aponta parece fazer sentido quando lemos a tradução de alguns dos versos de Ai Qing. Por exemplo: “Uma canção não pode metade só ser cantada;/ A liberdade deve ser inteira —/ como maçã redonda vermelha toda”. Este último verso parece ter sido traduzido ideograma por ideograma. Embora possamos compreender o sentido, em português ainda fica parecendo como partes separadas de um mosaico.

Por outro lado, quando nos deparamos com versos como “Meu coração é um mar cheio de sol”, sentimos que a poesia triunfou, ultrapassou os limites da língua e da cultura e nos resgatou a todos: chineses, europeus, africanos e sul-americanos.

O enlace da poesia ultrapassa os limites históricos, geográficos e culturais. Ultrapassa os limites do próprio idioma. Graças a ela, a sensibilidade do povo chinês fica mais linda no coração dos povos tocados por seu elã. Milagres da poesia, a língua original da humanidade.

Viagem à América do Sul
Ai Qing
Trad.: Francisco Foot Hardman e Fan Xing
Unesp
204 págs.
Ai Qing
Nasceu em Jinhua, em 1910. É um dos maiores poetas da literatura moderna na China. Escreveu dezenas de livros e foi traduzido em idiomas ocidentais e orientais. Viagem à América do Sul é sua primeira obra editada e traduzida no Brasil. Morreu em Pequim, em 1996.
Edson Cruz

E poeta e editor do site Musa Rara.

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