O terrível semblante da morte

"Um amor", do italiano Dino Buzzati, é uma requintada coleção de sutilezas psicológicas que a relação entre um homem e uma mulher pode gerar
Dino Buzzati, autor de “Um amor”
01/03/2021

A Milão do início da década de 1960 é o cenário de Um amor, de Dino Buzzati, talvez mais conhecido pelo inesquecível O deserto dos tártaros (1940) — adaptado em 1976 para o cinema por Valerio Zurlini. A planície imensa e sem sinal de vida é onde fica a fortaleza em que se encontra Giovanni Drogo, personagem d’O deserto, que vive na expectativa, como seus demais companheiros, da chegada dos inimigos. A constante espera é também a esperança, como apontou Antonio Candido, de um dia justificar a própria vida. Escritor, pintor, cenógrafo, jornalista, artista plástico, Dino Buzzati (1902-1976) é uma figura múltipla e singular do século 20 italiano. Algumas de suas obras já tiveram traduções por aqui, inclusive o Poema em quadrinhos (1969), que retoma, numa linguagem experimental com muitas pitadas surrealistas, expressionistas e também do pop, o clássico mito de Orfeu e Eurípedes.

Um amor traz prefácio de Marco Lucchesi e mantém a tradução de Tizziana Giorgini feita em 1985. A nova roupagem continua apresentando na capa a imagem de uma figura feminina, mas agora essa figura olha fixamente para o futuro leitor. É interessante perceber como a percepção estética ao longo do tempo se transforma. Toda e qualquer capa é sem dúvida uma veste, um primeiro contato do leitor com o livro e é, justamente, interessante nesse sentido notar a diferença entre as posturas das figuras femininas que aparecem nessas três capas, facilmente consultadas pelo Dicionário Bibliográfico da Literatura Italiana Traduzida (dlit.ufsc.br).

O próprio título, Um amor, dá todas as dicas: trata-se de uma história de amor que traz para o primeiro plano a entrega, a fragilidade e até que ponto um ser humano pode ficar à mercê desse sentimento inatingível, que é de um lado contemplação, sublimação, atenção e, de outro, maldades, ciúmes, obrigações.

Uma história de amor até banal entre Antonio Dorigo e Laide (apelido de Adelaide): ele, um arquiteto milanês de 49 anos, com uma vida monótona e vazia; ela, uma garota menor de idade que trabalha numa casa de prostituição (Casa de Encontros de Ermelina) frequentada por Dorigo. É uma Milão em plena transformação, arrebatada pelo processo de industrialização que marca a cultura italiana e por uma vida burguesa de pequenos e grandes hábitos. Nesse centro degradado pelo espírito do consumo, Dino Buzzati fala — por meio do amor — da hipocrisia das grandes cidades, da vida caótica nessa selva de pedras e, ao mesmo tempo, das necessidades de se ter afeto e amor e continuar acreditando nas ilusões.

Um amor comum, então, que é a um só tempo a história de todos os amores possíveis e expõe a degradação e corrosão sentimental. A neblina tão característica da cidade de Milão e o sol que permanece encoberto podem ser uma analogia das relações e dos redemoinhos que vão sendo formados no curso dessa trama envolvente.

O drama de Antonio aumenta quando ele começa a pretender de Laide atenção e atitudes que se dão a um amante e não a um protetor, que é como ela o vê. Esse tema do homem mais maduro que se apaixona por uma jovem não é novidade. Podemos nos lembrar de Nabokov com seu Lolita (1955) e de Philip Roth em O animal agonizante (2001).

Mas, no caso de Buzzati, não se trata de um amor impossível ou do reencontro com um tempo perdido e reencontrado graças à jovem garota; o que o autor italiano oferece é uma requintada coleção de sutilezas psicológicas que a relação entre um homem e uma mulher pode gerar com suas devastadoras e atrozes consequências. Por isso, Um amor vai muito além de um mero amor e seu sofrimento melancólico.

Pulsões e sensações
Buzzati carrega nas tintas, trabalha visceralmente esse grande tema que atravessa a arte em geral — da música à pintura, à escultura, à literatura. Talvez o grande eixo desse romance seja a autodestruição, ou melhor, o que Bataille chamou de dispêndio. Aquele se perder na existência, a fúria cheia de energia (nada é mais vitalizante do que o amor), e também autodestrutiva, que toca e desperta para o sacrifício de uma causa superior, não vê limites para a doação. Eros e tânatos se entrelaçam nessa pulsão erótica.

[…] ela nunca deve ter encontrado um homem assim tão direito ou então sim, já devia ter encontrado e teria ido para a cama com eles e os havia beijado com todo os outros jogos carnais de costume, mas nenhum desses homens certamente a teria tratado como ele, todos a tinham tratado como uma piranha de vinte mil liras, com todos os favores que isso comportava, que encobriam um extremo desprezo era o que ele achava enquanto ele não fazia distinção entre direito e não direito, tratava-a como uma dama, uma princesa não receberia tratamento melhor nem tantas atenções de sua parte. Um sorriso, um olhar de reconhecimento não seria pedir muito, seria?

Mas ela não o olhava, embora ele continuasse a olhá-la com insistência. Ela olhava para frente, para a estrada, com uma expressão tensa e quase ansiosa, não era mais a garotinha pretensiosa e segura de si.

Quase não tinha mais batom, não era mais bonita, era um animal assustado, como quando surgiu na casa de Ermelina.

Recusando retóricas que podem mascarar a verdadeira face do amor, Buzzati abre a ferida, expõe a dor e a consciência dessa dor, fazendo com que o amor se torne o terrível semblante da morte.

O protagonista Antonio já está resignado diante da impossibilidade de compreender o objeto do seu desejo, e os vórtices do amor fazem com que ele esqueça completamente de que existe a morte.

[…] não era mais ele, era um ser que antes ninguém conhecia e com o qual era impossível comunicar-se porque ele não ouvia ninguém, não podia ouvir, ele ouvia apenas a si próprio sibilar ao vento, para ele nada existia além dela, Laide, aquela assombrosa precipitação, e em meio ao turbilhão ele não podia sequer olhar o mundo ao redor, aliás todo o resto do universo deixara de existir, não existia mais, nunca existira, o pensamento de Antonio era inteiramente absorvido por ela, por aquela vertigem, e era um sofrimento era uma coisa terrível, nunca ele girara com tanto ímpeto, nunca se sentira tão vivo.

O amor é um antídoto contra a morte. Antonio, como é de se esperar, perde a cabeça e os limites, e isso incomoda e atiça Laide, que cada vez mais vai lapidando a perversidade de suas mentiras, olhares e gestos a partir do momento que percebe que Antonio sacrifica a própria dignidade. Antonio, sentimentalmente, depende de Laide e Laide, financeiramente, depende de Antonio. Essas linhas, porém, nunca se cruzam.

Antonio se dá conta das mentiras e historietas ditas pela voz daquela que ele ama, mas é mais doce acreditar nela, “adorável covardia”. Não há nada para se provar porque já está tudo provado, todas as evidências foram dadas, mas a remoção é menos dolorosa do que encarar a realidade. Na flor dos seus 50 anos, Antonio Dorigo começa a sentir pulsões e sensações que a maioria de seus coetâneos já tinha passado e não se questionava mais. Ele, que nunca tinha levado a sério o amor, agora pagava “amargamente com o ressentimento, com a inveja, com o dissabor de não ter mais tempo pela frente, com a solidão”.

Pela sua “harmonia dissonante”, como aponta Marco Lucchesi, Antonio lembra o personagem Giovanni Drogo, de O deserto dos tártaros. Dois personagens e a aventura solitária. Nas palavras de Lucchesi: “O sujeito, em pedaços, à procura de um desenho, de um sentido, de um mosaico, sabendo que a ideia de um sentido, de um desenho e de um mosaico não são apenas inúteis, mas improváveis”.

Um amor
Dino Buzzati
Trad.: Tizziana Giorgini
Nova Fronteira
237 págs.
Dino Buzzati
É considerado um dos maiores escritores da literatura italiana no século 20. Atuou como dramaturgo, cenógrafo, pintor e jornalista. Sua escrita, marcada por tons surrealistas, rendeu-lhe a alcunha de “Kafka italiano”. O deserto dos tártaros (1940) é seu livro mais famoso.
Patricia Peterle

É professora de literatura na UFSC.

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