O medo escondido no silêncio

Nos contos de "O bom mal", Samantha Schweblin usa a incapacidade de comunicação para refletir sobre aquilo que mais tememos
Samantha Schweblin, autora de “O bom mal”. Foto: Alejandra Lopez
01/05/2026

Seres humanos tendem a se sentir desconfortáveis com qualquer coisa que nos cause incerteza. Aquele ruído, à noite, foi uma voz humana ou um animal? O vulto branco que enxerguei pela janela era alguém ou apenas um reflexo da luz? A expressão que o rosto dele assumiu enquanto segurava com força o cabo da faca foi de tristeza ou de raiva?

Diante dessas situações, não há reação óbvia. Parte de nós quer ignorar o ruído, fechar a janela, se afastar do homem, mas outra parte sente que não devíamos fazer isso. Estamos sendo bobos, imaginando coisas. Quando sofremos uma ameaça óbvia, nosso corpo sabe como reagir. Sentimos medo, bombeamos adrenalina, nossos membros recebem fluxo sanguíneo extra para que possamos lutar ou correr. Mas quando a ameaça é secreta, ambígua, discreta, muitas vezes ficamos ali, tentando ignorar uma perturbação ou um medo como um sapo imerso em água que aos poucos sobe de temperatura.

É nesse espaço de ambiguidade e incerteza que Samantha Schweblin opera na coletânea de contos O bom mal. Sua obra se aproxima daquilo que o autor de best-sellers Stephen King chamaria de terror. Para ele, ao contrário do horror, que pode envolver aranhas gigantes, monstros e mutilações, o terror é algo muito mais discreto. É perturbador. Enlouquece não pelo choque, mas pela sutileza, porque se parece tanto com a realidade, que não conseguimos dizer exatamente em que se distingue. É olhar para o texto que nós mesmos escrevemos e ter a certeza de que uma única de suas frases foi substituída — mas não sabemos qual, e temos certeza de que isso é impossível.

O primeiro dos contos, Bem-vinda à comunidade, nos traz a incerteza desde a primeira página. Uma mãe de família se joga em um rio com um cinto de pedras, numa tentativa de suicídio. Depois de mais tempo do que, acredita, deveria ser possível, sai do lago se perguntando o que deu errado. Por que está viva? Daí em diante terá que lidar com a culpa e a incerteza da própria existência, em situações que parecem simbolizar que, na realidade, ela já não estava lá. Que as exigências de uma vida em família acabaram por apagar a pessoa que de fato era.

Aqui, já vemos outro tema recorrente nos contos de Schweblin: o uso de animais como símbolo ou encarnação de algo em nós que nunca conseguimos compreender exatamente. O coelho branco que aparece no conto propõe um convite muito mais terrível que aquele que o coelho de Lewis Carroll propõe a Alice: um convite sangrento, que envolve a destruição de si mesma, o abandono do eu em favor do outro.

No conto seguinte, Um animal fabuloso, vemos o cavalo como símbolo, e mais uma vez temos nele a possibilidade de encarnação do sentimento humano. Muitos já associaram o formato da cabeça de um cavalo ao formato de um caixão, e aqui, o animal existe na ambiguidade (sempre ela) entre a sobrevivência e a morte, à medida que parece se associar simbólica e espiritualmente com um acidente envolvendo uma criança. Assim como o coelho do conto anterior e o gato que veremos no conto seguinte, o cavalo parece funcionar como proxy de sentimentos humanos. Os animais possuem a qualidade do silêncio, e mesmo os sons e movimentos que fazem muitas vezes levantam dúvidas, incerteza. Nos questionamos se, por trás daqueles olhos, existe algo mais do que imaginamos.

Sobrenatural
E é assim que acontece com William na janela, o conto mais abertamente sobrenatural entre os três primeiros. Ainda assim, é ele que, segundo uma nota da autora ao fim do livro, “aconteceu mesmo”, e justamente por ser autobiográfico, “é melhor não dizer mais nada”.

Os traços estilísticos do conto, também, são cuidadosamente escolhidos para dar ao leitor a sensação de um relato real, com afirmações mais diretas, e calcadas na realidade. A narradora é uma escritora argentina, e temos a impressão de ouvir a própria Schweblin nos contando sobre uma viagem a Xangai com um grupo de escritores. Se a dose perfeitamente calculada de clareza e ambiguidade davam o tom dos outros contos, esse, em seu começo, soa quase como uma crônica ou diário. A estratégia não é nos deixar em dúvida sobre o que aconteceu, mas descrever, com perfeita clareza, acontecimentos “reais” — incluindo um elemento sobrenatural, dessa vez envolvendo um gato. Apesar da clareza com que a história é contada, vemos se repetir, pela terceira vez, o papel do animal como alvo e encarnação de sentimentos, levantando questões sobre nossas relações com animais — e com outros seres humanos. Esses sentimentos, sim, são ambíguos, pouco claros, e aquilo que dizem nem sempre é tão óbvio como gostaríamos que fosse. O mesmo vale para a cena final do conto, estranha e surpreendente.

Nos três últimos contos da coletânea, embora vejamos aqui e ali a presença de algum animal, a ambiguidade fica por conta de outros elementos. No conto O olho na garganta, por exemplo, já não é o silêncio de um animal que nos deixa em dúvida. Nele, vemos uma criança que perde o uso da voz por engolir uma bateria quando muito nova — mas o silêncio que ela emite é enigmático apenas para seus pais, não para o leitor. Do nosso ponto de vista, essa criança fala enquanto narradora, e mais ainda, enquanto narradora onisciente. É como se, ao perder a capacidade de comunicação, ela ganhasse o poder de nos contar tudo o que ocorreu, quase uma adaptação da figura do cego que tudo vê. Contudo, há algo que ela não nos conta, ao menos diretamente: a identidade da pessoa que telefona para seu pai todas as noites, e simplesmente permanece em silêncio do outro lado. O conto soa como uma discussão profunda do tema da culpa, e sua capacidade de afetar relações familiares.

No conto seguinte, A mulher de Atlântida, a impossibilidade de comunicação e o mistério vem na figura de uma poeta alcoólatra, cujas circunstâncias de vida misteriosas são exploradas por duas irmãs. Desde o início do conto, ouvimos que algo aconteceu a uma dessas irmãs na época de sua infância. Acompanhamos a maneira como invadem a casa dessa poeta por brincadeira e acabam não só afetando a vida da mulher, mas também afetando a própria existência e sua relação com a arte. Enquanto vemos o choque entre duas crianças e uma poeta já adulta, somos levados a pensar na importância da arte, nas dificuldades da criação artística, e no que significa ter uma “inspiração”.

Finalmente, em O todo poderoso faz uma visita, vemos uma curiosa mistura de sátira e suspense para formar um conto que esconde uma camada interessante de reflexão sobre as relações de gênero. A pessoa ambígua, não totalmente compreensível, nesse caso, é uma mulher, cuja idade fez perder parte da sanidade. Por uma série de acasos, ela acaba por passar uma noite na casa de uma desconhecida — nossa protagonista. O filho dessa mulher, alertado por uma espécie de GPS que indica a localização da mãe, vai até a casa da mulher, e a partir de sua chegada a tensão aumenta constantemente. O conto ao mesmo tempo ridiculariza o excesso de ego do homem e mostra o quanto seu comportamento pode ser aterrorizante. Ao mesmo tempo, parece sugerir que certo nível de confiança pode ser saudável, que o ignorar pode ser uma forma de resiliência, e que é possível assimilar o lado positivo dessa mistura egoica.

Coerência interna
Talvez a descrição acima passe a impressão de que esse livro de Samantha Schweblin é inconsistente, sem uma linha mais compreensível de leitura — mas não é isso que acontece. Embora vejamos temas, estratégias narrativas e decisões estéticas variadas, a coerência interna do livro é clara. A camada de mistério que se sobrepõe aos acontecimentos é uma constante, ainda que a fonte desse mistério possa variar. E como todas aquelas que se dedicam a uma artesania com seriedade, Schweblin tem uma voz pessoal e um estilo na composição das frases que é perceptível, por mais que consiga aplicar outros efeitos a seu texto.

É de se esperar que o trabalho da autora leve a comparações com a conterrânea Mariana Enríquez, e de fato há elementos em comum. As duas usam mistério, terror e suspense para discutir questões sociais importantes, e eu suporia que alguém que gosta do trabalho de Enríquez também gostará dos contos nessa coletânea. Ao mesmo tempo, a julgar por esta obra (a primeira que leio da autora), acho importante dizer que qualquer comparação entre as duas corre o risco de ser exagerada. Enríquez, em suas obras, parece usar mais elementos históricos e perigos externos em obras como Os perigos de fumar na cama e As coisas que perdemos no fogo, e vemos em sua obra questões sociais e históricas tomando formas aterrorizantes.

Schweblin, por sua vez, parece se voltar para dentro. O terror, a perturbação e o mistério parecem menos forças externas do que manifestações simbólicas do próprio eu das personagens narradas. As questões sociais existem — mas são internas. Estão na culpa de um pai, no apagamento de uma mãe e na ameaça contida nos atos de um homem; são processadas na figura de um coelho assustado, um gato etéreo e um telefonema silencioso. No fim, contudo, são os nossos próprios medos, dúvidas e inseguranças transformados em eventos, animais e pessoas que nunca podem ser inteiramente compreendidos.

O bom mal
Samantha Schweblin
Trad.: Livia Deorsola
Fósforo
160 págs.
Samantha Schweblin
Nasceu em Buenos Aires (Argentina), em 1978, e desde 2012 vive em Berlim (Alemanha). Vencedora de prêmios importantes como Juan Rulfo e Casa de las Américas, é autora dos volumes de contos Pássaros na boca e Sete casas vazias e do romance Distância de resgate, que, assim como Kentukis, foi finalista do International Man Booker Prize. Sua obra foi traduzida para mais de vinte idiomas. Em abril, por O bom mal, venceu a primeira edição do Prêmio Aena de Narrativa Hispano-americana e recebeu 1 milhão de euros.
Bruno Nogueira

É autor de Grito distante (romance) A síndrome do impostor (contos).

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