O imaginário e os sonhos fotografáveis

Nos microtextos de “Caligrafias”, Adriana Lisboa leva o leitor a aspectos e significados que estão além do simples olhar
Ilustração: Gianguido Bonfanti
01/01/2005

“De repente você se pergunta quantos são os metros de altitude, quantos são os quilômetros de distância.” E de repente, texto após textos, Adriana Lisboa descortina o espesso véu que cobre as atitudes cotidianas, que nos passam despercebidas. De repente, com arguto olhar, aponta o inesperado que se vê no banal, onde, aparentemente, não há nada de novo.

Num livro de contos pouco conhecido, intitulado Onde estivestes de noite, Clarice Lispector abre assim um dos textos: “Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto — é para lá que eu vou”.

Adriana Lisboa, em Caligrafias — após publicar três romances, também pela editora Rocco — leva o leitor a este aspecto que está além do olhar. E há muito a se ver neste terreno quase invisível: um sonho cheio de fantasmas; uma subida a Petrópolis, de ônibus; um mergulho no universo sertanejo da árida capital paulistana; momentos registrados como retratos; hipóteses mais abrangentes para o sétimo dia da Criação.

Todo prosador, vez ou outra, derrama ao papel textos que são breves por natureza, têm sua força e sua graça e estão lá, tudo posto, não se prestando ao conto e muito menos ao romance, ainda que excertos ou fragmentos. São textos independentes que não se encaixam em outros projetos, quase que por princípios: querem ser só eles, querem uma independência do iniciar e terminar na mesma página. O autor (e o editor) que se virem. São textos mimados, caprichosos, que vão ficando por lá, aprendem a andar , a tomar banho sozinhos, mas precisam ainda de um empurrãozinho para ganhar o mundo.

Ficam em cadernos, folhas soltas, às vezes são transplantados para outras prosas às quais não se destinavam, no momento da composição — inclusive no sentido gráfico do termo, na montagem do texto como produto final. Adriana Lisboa não é exceção, faz poesia em pequenos fragmentos desde há muito. O longo período que abrange a escritura dos textos é também revelador: 1996-2004. Oito anos para redigir 38 textos? Pode questionar o leitor mais apressado. Sim, oito anos. E poderiam ser 15, 30 anos. Para tomarem forma, são lapidados e re-lapidados e também não são escritos diariamente, aparecem como flores raras, vez ou outra.

Em alguns textos como Altitude (um dos mais belos do livro) e Aventura, segundos se dilatam relativizando o tempo. Segundo Benedito Nunes (O tempo da narrativa) e outros estudiosos da modernidade (Anatol Rosenfeld, Theodor Adorno, Octávio Paz, inclusive), esta característica é uma das marcas da prosa contemporânea, em que o tempo curva-se às atitudes das personagens. Espaço e tempo, na verdade, estão à disposição do narrador, valorizando reflexões e piscares de olhos que se constituem em câmara lenta, revelando aspectos que o passar regular do tempo não traria à tona.

Há retratos de polaróide, instantâneos (Sonho, Descobrimento, Presente, Zen, Enchente, Quintal, Dia das mães); há momentos que se aproximam da crônica (Autópsia, Botânica, Meteorologia, Reparação, Geografia, Retiro) e há fluxos de pensamento (Música, Saudade, Caligrafia).

Há alguns textos inclassificáveis e indefiníveis, como Densidade:

“No meio do caminho tinha uma pedra porosa. Dava para ver seus grãos. Chegando mais perto, raios finíssimos de sol atravessavam a pedra. Mais perto ainda, um turbilhão, um pequeno redemoinho (uma galáxia minúscula) se movia lá dentro, no leve corpo da pedra.

A pedra, no meio do caminho, era permeável: se chovesse, ficava encharcada. O vento a enchia de poeira, pólen e cadáveres de insetos. O calor do meio-dia a deixava com sono e sede. A neblina que às vezes baixava no fim da tarde invadia a pedra, no seu corpo, as nuvens trafegavam sem pressa. Os sons passavam por ela e iam se extinguir em algum lugar desconhecido. Na pequena galáxia dentro da pedra havia pequenos planetas orbitando em torno de sóis de diamante”.

Em alguns textos, mais que outros, há rasgos poéticos belíssimos, como em Tristeza, Segredo, Fracasso e Aprendizagem: “Lá fora é noite, e dormem os telhados” — algo de Acalanto (canção de Dorival Caymmi) com pitadas da poesia mais fina e repleta de significâncias de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Drummond. Reencontro, por sua vez, é uma descrição crua e precisa de Brasília, com um final arrebatador.

Morte é o texto mais expressionista do livro, o que mais se aproxima das marcantes ilustrações de Gianguido Bonfati, aspecto que dá um charme especial à edição, transferindo o enfoque direto dos textos, diluindo a força das imagens entre as criadas pelo poder descritivo da autora e o poder pictórico do ilustrador. A força das ilustrações, ao contrário do que se possa argumentar, não destoa do conjunto literário, é como o agridoce do molho derramado sobre a maciez da endívia: faz-se assim um prato dos mais preciosos — mesmo que seja uma entrada — chamativo para o restante da obra da autora.

Em Botânica, está a eterna necessidade de florir. De uma certa maneira, os microtextos vêm desta necessidade do autor, de sempre produzir. Às vezes, desejávamos um romance, e manifesta-se, dos mais obscuros cantos da mente, onde se escondem as idéias, apenas fragmentos. Não se pode simplesmente rejeitar os filhos menos robustos, virar-lhes as costas. Então vão pra a pasta de esboços, como faz o desenhista cioso de seus originais, mesmo que canhestros. Podem vir a ser cisnes prateados, apesar de primeira impressão ser de meros patinhos feios. Há aqui um pequeno grupo de cisnes que nadam harmonicamente em formação.

Para encerrar, Pirotecnia, uma dessas aves raras:

“Um menino sonhou com fogos de artifício.

Anos mais tarde, descobriu que as palavras às vezes formam versos. Tornou-se poeta e durante toda a vida quis relatar o itinerário daquele sonho de infância. Remexeu nos dicionários e encontrou a possibilidade de criar imagens híbridas como sereias, como manticórias. Versos que soavam como café fresco, que corrompiam como aguardente pura, que salvavam como um lírio branco.

Anos mais tarde, publicou sua coletânea de poemas. O último deles se chamava Os fogos paralelos e era seu projeto de vida levado a cabo: fogos de artifício transformados em versos.

Anos mais tarde, certa leitora comprou a coletânea. Ao enveredar pelo último poema, percebeu que as palavras assumiam cores diferentes e brilhavam sobre o fundo negro da página branca, ofuscando as estrelas, e impregnavam todo o livro com um discreto cheiro de pólvora.”

Caligrafias
Adriana Lisboa
Rocco
87 págs.
Moacyr Godoy Moreira
Rascunho