Não deve ser fácil a vida de um artista após um trabalho genial. Uma de minhas bandas favoritas, U2, lançou sua obra-prima muito cedo. Depois do álbum The Joshua Tree, de 1987, houve trabalhos bons, mas nada tão genial. Não à toa, a turnê de 30 anos de The Joshua Tree, em 2017, fez grande sucesso no mundo inteiro ao relembrar o talento dos irlandeses.
Mas encher estádios para um show de qualidade garantida é uma coisa. E quando a obra-prima é um livro, como agradar ou surpreender seus leitores novamente depois de escrever seu melhor trabalho muito antes? A carreira do britânico Ian McEwan passa por isso. Até hoje, ele é sempre lembrado como o autor de Reparação, lançado há mais de vinte anos. Depois, houve uma sequência de livros bons e outros regulares, mas Reparação permaneceu como a grande referência.
Com a chegada de O que podemos saber, não é apenas um chavão dizer que McEwan volta à velha forma. Ele retoma temas de livros recentes, como mudanças climáticas em Solar e dilemas da nova sociedade em Máquinas como eu, mas com o vigor, complexidade e talento literário exibidos em Reparação.
Em um espectro de tempo que vai do final dos anos 1990 a um futurista 2119, McEwan construiu, em O que podemos saber, de forma sublime, uma conexão entre crise climática, memória e herança cultural. É um romance ambicioso, de grande densidade intelectual, naquele que talvez seja seu romance menos linear.
O romance se estende por duas épocas distintas: do final dos anos 1990 até 2014, quando um poema, Uma coroa para Vivien, foi escrito e desapareceu, e 2119, em uma terra que sofre as consequências de um desastre ecológico. Num mundo pós-catástrofe ambiental, com cidades submersas e sociedades reorganizadas em territórios mais altos, um professor universitário acha mais importante investigar o desaparecimento do poema no século anterior.
Um alerta
Uma coroa para Vivien foi escrito por Francis Blundy para sua esposa. Francis é famoso e mulherengo. Ele faz a primeira e única leitura no aniversário de 54 anos de Vivien, numa recepção para amigos em sua casa, em 2014. O poema é uma série de sonetos em que o último verso é o primeiro verso do soneto seguinte. Escrito num pergaminho, Uma coroa para Vivien nunca é publicado e desaparece misteriosamente. Há rumores de que seu conteúdo seria uma chave ou alerta para a crise climática que atingiria o mundo nas décadas seguintes.
Em 2119, o professor de literatura Thomas Metcalfe vive obcecado pelo poema perdido, enquanto os jovens ao seu redor representam uma geração cética e pragmática diante da devastação climática. Sua figura é marcada por uma certa solidão e incompreensão, já que poucos entendem sua dedicação à literatura em um cenário de sobrevivência. Thomas é erudito, reflexivo e obstinado, quase quixotesco, ao insistir na relevância da arte quando tudo parece perdido.
Ainda que Francis Blundy duvidasse das alterações climáticas, Thomas acredita que talvez aquele poema pudesse mostrar que o poeta estava revendo suas ideias.
Thomas pesquisa tudo sobre o casal Blundy e o jantar de aniversário. Faz buscas incansáveis em e-mails, diários online e outros documentos. Acredita até que o poema pode estar enterrado na antiga propriedade em que Francis e Vivien viveram, ou numa das pequenas ilhas próximas, lugar cheio de torres de igrejas e acessível somente pelo mar.
Em sua busca, Thomas também se depara com uma pista que pode esclarecer o sumiço do poema, mas encontra uma trama de amores e traições que muda sua visão sobre pessoas que achava conhecer.
Embora Francis Blundy seja a estrela literária de sua época, na parte do livro em que Vivien é a narradora, surgem os segredos mais surpreendentes, além de um crime que pode ser o motivo para o desaparecimento do poema.
É interessante, ainda, observar a distinção das épocas. Em 2014, o romance e a ficção ainda existem, uma festa com leitura de poema de um autor renomado é algo relevante e prestigioso.
Cento e cinco anos depois, os jovens da nova geração são práticos, voltados para a sobrevivência e pouco interessados em tradições culturais. Para eles, livros parecem irrelevantes em um mundo arruinado.
Passado e futuro
Há pouca informação sobre o planeta de 2119; entende-se que restou uma terra alterada por ataques nucleares e mudanças climáticas extremas. A internet é dominada pela Nigéria. McEwan representa com habilidade o choque entre passado e futuro, tradição e pragmatismo, o que já fez em outras obras, mas de forma isolada e sem o mesmo vigor.
Em 2010, com Solar, ele não convenceu com a crítica satírica ao negacionismo climático. Já o dilema ético-tecnológico de Máquinas como eu (2019) foi engolido pela pandemia e após isso se tornou pouco impactante numa era anterior ao ChatGPT.
Em O que podemos saber, McEwan traz uma reflexão filosófica e ambiental mais ampla, abordando os limites do conhecimento humano, mas com focos distintos: ciência, tecnologia e, por fim, memória e legado.
Por tudo isso, temos um McEwan dos bons tempos, com segredos, crimes, reviravoltas, tudo recheado de mistério, humor e ironia.
Mas O que podemos saber é ainda um romance futurista, com olhar agudo sobre o que estaria por vir. Um jogo entre passado e futuro, que questiona o que realmente podemos saber. O que acontece com o amor, as relações, o pensamento e a história depois que tudo desmorona com o desastre climático?
McEwan faz uma engenhosa mistura de ficção científica, thriller e romance psicológico, mas defende o papel da arte e da literatura, como em seus melhores livros. Ele mesmo descreve O que podemos saber como “ficção científica sem ciência”.
Numa nota fictícia no final, McEwan fala ainda de um livro lançado em 2125, com o título Confissões de Vivien Blundy. Essa obra teria sido editada pelo personagem Thomas Metcalfe. Em outra nota, McEwan afirma que “nada relacionado a este romance está enterrado em lugar algum”. São notas que, na verdade, deixam o leitor em mais dúvida se o livro lhe contou tudo que era possível saber. Em tempo: na capa de O que podemos saber está escrito: do autor de Reparação.