“Sempre imaginei o Paraíso como uma espécie de biblioteca.” A frase de Jorge Luis Borges vem à lembrança quando ouvimos relatos de grandes bibliófilos — José Mindlin, Umberto Eco, Alberto Manguel —, ou mesmo depoimentos de simples maníacos por livros, aqueles que, leitores compulsivos, enchem suas prateleiras de novidades sem se enfronhar no mundo das raridades. O humorista Jô Soares falava do prazer de comprar livros, mesmo que não tivesse tempo para lê-los; e o poeta Nicolas Behr sonha ganhar na loteria para, enfim, comprar todos os livros que deseja.
Por esse universo onírico e palpável — “os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarros”, canta Caetano Veloso — circula o novo livro de Bruno Gaudêncio, A pele da minha casa, uma reunião de trinta e seis crônicas dedicadas à paixão por este produto tecnológico secular que, com seu cheiro, textura, conteúdo, estética e encanto, continua provocando alumbramentos.
Bruno sabe bem do que está falando, afinal, nele, a paixão vem quase do berço.
Foi minha avó paterna, Dona Maria de Lourdes Queiroz, que comprou muitos dos meus primeiros livros. Atenciosa, ela percebeu desde cedo minha predileção pelo universo da leitura e do estudo: “Filho, tome esse dinheirinho para você comprar alguns livros. Sei que você gosta”. E eu ia — ainda tímido, mas animado — ao centro da cidade escolher entre as diversas opções na livraria Espaço da Cultura ou no sebo Cata Livros.
É fato: o hábito, para muitos anacrônico, de reunir livros em prateleiras catando nas livrarias as novidades, garimpando nos sebos alguns exemplares de cuja existência sequer se sabia, é o que move muitos desses maníacos. Talvez o leitor saiba do que estou falando, mas é sempre prudente salientar o prazer de se deparar com o cheiro de livro novo ou com uma dedicatória que não foi escrita para você.
Comprei, há tempos, num leilão, um livro de Edilberto Coutinho. Fui pelo autor, um dos esquecidos de nossa literatura que tanto admiro. O título Cartilhas “encontro” (assim mesmo, aspeado) nada me dizia. O livro — uma edição quase artesanal de 1962 — traz quatro artigos e anuncia, na apresentação, que “o volume reunirá, pela primeira vez, alguma contribuição à imprensa do jovem autor de ‘Onda boiadeira e outros contos’ (Edições Região, Recife, 1954), que acaba de retornar de um ano de estágio em jornais dos Estados Unidos”. E a surpresa da dedicatória: “Para Bibi Ferreira, lembrar a Espanha e o amigo Edilberto. Recife, 29-6-67”.
Pérolas
Ter uma biblioteca é guardar algumas pérolas, ou mesmo várias edições de um mesmo livro. É ter livros a se cultuar. Isso diz tudo? Não. Cada biblioteca, que Bruno Gaudêncio define como “a pele de minha casa”, tem na verdade a pele de seu dono. Cada um sabe a dor de ver sumir um volume e a delícia de encontrá-lo na prateleira mais improvável. E eu poderia ficar aqui a gastar páginas e páginas sobre estes encontros e desencontros se não tivesse de falar de Bruno e suas estantes.
Há no livro o curioso conceito de antibiblioteca. “Assim como componho sementes para futuras plantações, elaborando cores a um jardim que vai surgir, coleciono uma antibiblioteca.” O conceito foi colhido por Bruno no livro The black swan, do escritor libanês Nassin Nicholas Taleb; “você vai acumular mais conhecimento e mais livros conforme envelhece, e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você sabe, maiores são as fileiras de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros de ‘antibiblioteca’”.
Ao leigo pode parecer estranho, mas nós, os incansáveis ratos de bibliotecas e livrarias, amamos os livros não lidos. Devotamos-lhes o carinho que dedicamos às coisas inalcançáveis. Um dia vamos lê-los, prometemos sabendo que estamos mentindo. E qual o sentido disso? Numa ideia desenvolvida por José Mindlin, sabemos que somos possuídos pela biblioteca que acreditamos ser nossa. E em vários momentos destas crônicas, alentadoras e divertidas, Bruno Gaudêncio descreve sua experiência de ser domado pelos livros e do medo que isso causa.
O bibliófilo Plínio Doyle, por exemplo, diante da profusão de títulos em suas salas e quartos, adquiriu um apartamento apenas para acomodar seus livros. Pele e corpo, separados. Espero que tal destino não me seja reservado.
Neste caminhar de paixões, ele percorre cores locais. Fala de amigos que se perderam em livros, de construtores de narrativas e de escritas. “Palavra puxa palavra, livro puxa livro, autor puxa autor”, diz Hildeberto Barbosa Filho. E Bruno vai desvendando alguns desses personagens que se confinaram na província e deram contribuições indiscutíveis para nossa cultura, como Horácio de Almeida. Ele colecionava dicionários e, também, os escreveu. Com a colaboração de Carlos Drummond de Andrade organizou o Dicionário de termos eróticos e afins, lançado pela Civilização Brasileira. Na crônica que conta do dicionarista, Bruno traz a importância imensurável dos desmancha-dúvidas. Basta dizer que foi lendo um deles, encontrado jogado na rua, que Carolina Maria de Jesus desenvolveu sua escrita.
Lidos e cheirados
Mas os livros, inclusive os dicionários, foram feitos para serem lidos. E cheirados. João Ubaldo Ribeiro conta um diálogo entre seus pais que ele, menino, ouviu escondido. “Seu filho está doido. Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar”, disse a mãe. “É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante.” “Ele ontem passou a tarde inteira lendo um dicionário.” “Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?” “O Lello.” “Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação.”
A verve mordaz de Oswald de Andrade falava do orgulho de certo comendador paulistano diante de sua biblioteca de vinte e cinco mil volumes. “São as vinte e cinco virgens do senhor comendador”, concluía o modernista. Assim, o fundamental é o livro lido, cheirado, rabiscado, comentado, de certa forma até “reescrito” pelo leitor. “Cada livro, com seu conteúdo único, traz consigo suas próprias memórias e as de seus leitores. Nós deixamos nossas marcas em suas margens, sublinhamos passagens, encontramos marcadores inusitados, aplicamos carimbos, preservamos dedicatórias especiais e os colocamos em locais estratégicos de nossas estantes.”
Bruno Gaudêncio conta essa aventura em textos límpidos, claros, como toda boa crônica deve ser. Foge do lirismo poético de Rubem Braga, mas se entrega à verve discreta e doce, coloquial, de um Carlos Drummond de Andrade. Daí que a leitura, além, do prazer, nos dá o relato de uma paixão, nos oferta um quase romance de amor.
A pele da minha casa — Crônicas e ensaios de um colecionador de livros é um volume capaz de dissipar nossas culpas. Nós, fiéis roedores de livros e letras, estamos em paz. E esperançosos de que nossa doença contagie muitos outros incautos.