José Paulo Paes, crítico por paixão

Reunião de ensaios do poeta, tradutor e editor exibe um vasto e agudo estudioso que fez da literatura uma forma de vida
José Paulo Paes, por Oliver Quinto
01/07/2026

Não acredito que o futuro de quem quer que seja possa estar escrito com antecedência na configuração das linhas da mão ou dos astros do céu. Mas não posso deixar inteiramente de lado a ideia de o local de meu nascimento ter influenciado nos rumos de minha vida. Pois nasci numa livraria. Melhor dizendo, num quarto bem ao lado da Livraria, Papelaria e Tipografia J. V. Guimarães. É o que diz a placa da loja do meu avô materno, em cuja casa de Taquaritinga vim ao mundo no dia 22 de julho de 1926.

O parágrafo acima abre o capítulo A casa, início efetivo da autobiografia Quem, eu? Um poeta como outro qualquer, que José Paulo Paes publicou em 1996. Como se vê pela passagem, em julho de 2026 completa-se o centenário de nascimento do poeta, tradutor, ensaísta e editor singularizado pela admirável polivalência de seu trabalho literário. E os trinta e seis livros que publicou como autor (além das diversas traduções, cujos títulos não encontrei listados em lugar algum) demonstram que, se não se pode dizer que o destino de José Paulo Paes estivesse escrito com antecedência em alguma instância metafísica, ele próprio o redigiu concretamente, dotando seu nascedouro da bela simbologia de um ponto de partida que se confirmou como caminho por toda a vida. E digo “por toda a vida” literalmente, porque Paes morreu em 9 de outubro de 1998, aos 72 anos. Socráticas, seu último livro de poemas, publicado postumamente em 2001, é concluído com Dúvida: “Não há nada mais triste/ do que um cão em guarda/ ao cadáver do seu dono.// Eu não tenho cão./ Será que ainda estou vivo?”. Logo após o poema, a edição registra: “data da última gravação: 8/10/98, 17h09”. O autor morreria menos de 24 horas depois.

Consumada a ausência, a viúva Dora Costa cuidou de manter inalterada a arrumação da biblioteca, em cuja entrada ele havia fixado a placa da Livraria, Papelaria e Tipografia J. V. Guimarães, nos fundos de uma casa em Santo Amaro, na capital paulista. Tendo o computador gravado o derradeiro feito poético de Paes, a máquina de escrever guardou seu último ato crítico: a resenha não concluída de A carne da ruína: sobre a representação do excesso em Augusto dos Anjos, de Sérgio Martagão Gesteira, publicado originalmente em 1998. Encravada entre as teclas e o suporte para o papel, a folha do texto apenas iniciado materializava suspensão enquanto sugeria devir. O ser que saiu para a luz tão perto dos livros dedicou-se à leitura e à escrita até que seus olhos se fechassem peremptoriamente. Predestinada ou desprovida de qualquer sentido prévio, a vida se cumpriu — com coerência e coesão.

Crítica reunida
Deste breve comentário biográfico, importa destacar a última parte para passar ao comentário analítico. Poeta e tradutor prolífico, José Paulo Paes também foi um fecundo crítico literário. Essa parte de sua obra foi publicada ao longo de quatro décadas e está registrada em onze títulos, sendo quatro monografias e sete coletâneas de textos saídos esparsamente. Pela ordem de lançamento, listam-se As quatro vidas de Augusto dos Anjos (1957, monografia); Mistério em casa (1961, coletânea); Pavão, parlenda, paraíso: uma tentativa de descrição da poesia de Sosígenes Costa (1977, monografia); Gregos & baianos: ensaios (1985, coletânea); A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções (1990, coletânea); Tradução, a ponte necessária: aspectos e problemas da arte de traduzir (1990, coletânea); De Cacau a Gabriela: um percurso pastoral (1991, monografia); Canaã e o ideário modernista (1992, monografia); Transleituras: ensaios de interpretação literária (1995, coletânea); Os perigos da poesia e outros ensaios (1997, coletânea), O lugar do outro: ensaios (1999, coletânea). Tal bibliografia o situa entre os mais pródigos poetas-críticos da literatura brasileira.

Com margem mínima para o engano, todos esses livros estão esgotados. Mesmo a antologia Armazém literário, com vinte e três textos selecionados por Vilma Arêas, não parece facilmente encontrável no mercado livreiro, ainda que tenha sido lançada em 2008, pela Companhia das Letras. José Paulo Paes não foi um crítico maior, dos que elaboram teses incontornáveis para os estudos literários. Isso de modo algum invalida seu trabalho ensaístico, desenvolvido com erudição e inteligência admiráveis. Também admiráveis são sua autonomia intelectual e a abrangência de seu escopo, que o levaram a estudar com fundamentação e discernimento tanto autores sempre comentados, como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, quanto outros bem menos destacados criticamente, como Jorge Amado e Graça Aranha, por exemplo. Nessa direção, ele disse algo ilustrativo na abertura de seu livro sobre Sosígenes Costa:

A vitalidade de uma literatura não se mede apenas pelo mérito daqueles autores que a crítica passou em julgado e entronizou definitivamente como “maiores”. Mede-se também — e é forte a tentação de escrever sobretudo — pelo valor dos autores ditos “menores”, que, negligenciados pelos contemporâneos, só tardiamente, o mais das vezes depois de mortos, conseguem se impor. É então que ocorrem as chamadas “ressurreições” literárias aos de justiça tardia que, outra utilidade não tivessem, sempre serviriam para perturbar, com afloramentos sincrônicos, a digestão dos profissionais da diacronia.

Nesse sentido, a leitura de suas páginas ensaísticas é fonte de informação sobre literatura, dado o amplo repertório pautado; de subsídio interpretativo, vista a qualidade de suas exegeses; e de formação crítica, pois elas revelam um estudioso que não confunde rigor com desprezo, tampouco abertura com complacência. A produção crítica de José Paulo Paes foi fundamentalmente um exercício de paixão — a paixão daqueles que não imaginam a vida de outra forma que não seja orientada pela literatura, que é a paixão daqueles que, com angústia e com sabor, imaginam a vida de outra forma, recusando as anomalias decretadas pela ganância predatória do capital e pelo automatismo homogeneizante do senso comum.

Daí ser muitíssimo oportuno que Fernando Paixão e Ieda Lebensztayn tenham organizado Crítica reunida sobre literatura brasileira & inéditos em livros, em dois volumes que agrupam cento e vinte e sete textos de José Paulo Paes. O conjunto de mais de mil páginas não abarca toda a produção ensaística do autor, vista a opção dos organizadores pelos estudos voltados às letras nacionais, conforme indicado no título. Por um lado, isso indica inevitável perda, porque a obra crítica de Paes saída em livro totaliza cento e trinta e três artigos, boa parte deles dedicada a refletir sobre obras estrangeiras. Para cumprir o recorte da nacionalidade, desse total Paixão e Lebensztayn transpuseram noventa e nove ensaios para a Crítica reunida, incluindo os títulos monográficos, dados exclusivamente à interpretação de uma única obra ou de um único autor.

Mas os termos do recorte ocultam um ganho, porque o objeto de muitas intervenções ora reunidas ultrapassa o escopo estritamente literário, comentando, por exemplo, música popular e aspectos da cultura de massa. O outro ganho, explicitado no título, é a inclusão de nada menos que vinte e oito textos não publicados em livro, num conjunto com predomínio de resenhas, mas formado também por escritos de outros gêneros. Destes inéditos em livro, destaco enfaticamente Carlos Drummond de Andrade e o Humour — I, II e III e Pós-modernismo, ambos publicados quando Paes contava apenas 22 anos. No primeiro (dividido em três partes), ele examina complexidades políticas da obra do poeta mineiro só perceptíveis a sensibilidades refinadas: “Este o dilema fundamental que explica quase satisfatoriamente as contradições da poesia drummondiana: a oposição entre inteligência e sensibilidade, a incapacidade da segunda em obedecer aos comandos da primeira”. No segundo, Paes toma as obras de Drummond e Murilo Mendes para avaliar a geração de poetas a que ele próprio pertencia. E se observarmos que àquela altura ele era um militante comunista, talvez consideremos um milagre da intelectualidade que sua juventude e seu partidarismo (que, quando somados, costumam resultar em ímpetos restritivos no pensamento e na arte) em nada tenham se manifestado como postura sectária:

Essa gesticulação original, nós a repetimos em nossos versos. Fizemos poemas amargamente humorísticos, pretensamente noturnos, desesperadamente inteligentes; deixamos o lirismo pelo descarnamento, pelo angustiado hermetismo; trocamos a vitalidade de juventude por um intelectualismo pessimista, que não creio, absolutamente, representar nossa resposta de escritores de vinte e poucos anos, em face de uma encruzilhada histórica que exige, apesar de tudo, um pouco de esperança, um pouco de solidariedade humana, simplesmente humana.

Não inseri no cálculo dos títulos ensaísticos de Paes o opúsculo Poesia para crianças (1996), por consistir em um breve depoimento, exclusivamente autocrítico, acerca de sua produção infanto-juvenil, formada por dez livros via de regra literariamente notáveis e de grande sucesso editorial. Fernando Paixão e Ieda Lebensztayn também não o incluíram na antologia, ao fim da qual estabelecem um índice cronológico dos textos coligidos. O objetivo do rol e da sua disposição é “mostrar como a obra crítica de Paes compõe uma historiografia hermenêutica da literatura brasileira”.

Disse acima que o intérprete refletiu sobre autores de diferentes repercussões críticas, e a citada percepção dos organizadores só se possibilita porque os nomes estudados por Paes são de também diferentes épocas e lugares, de Padre José de Anchieta, nos primórdios da colonização do Brasil, até ficcionistas e poetas que lançavam seus primeiros trabalhos na década de 1990. “Certamente a distância que José Paulo Paes sempre manteve em relação às teorias estéticas fechadas, tendentes a juízos categóricos, facultou-lhe a prática dessa amplitude de interesses e gostos, uma das feições mais salientes de seu ensaísmo crítico”, diz, num dos prefácios da edição, Alfredo Bosi, amigo, interlocutor e intérprete de Paes.

Ofício e missão
A partir da citação de Alfredo Bosi, é oportuno destacar outros comentaristas da obra crítica de José Paulo Paes, a fim de especular as principais motivações e a situação de tal obra num certo panorama dos estudos literários. Afinal, aparecida em livro na década de 1950 e mantida como exercício regular veiculado bibliograficamente até fins dos anos 1990, tal obra se desenvolveu em paralelo com a gradativa consolidação da área de literatura em âmbito universitário.

Ao apresentar a Poesia completa (2008), Rodrigo Naves também disserta sobre a crítica literária do autor de Novas cartas chilenas, do qual põe em relevo “a preocupação em dialogar com aqueles que, como ele, lidam com a arte e a cultura amorosamente, embora com limites e mesmo ingenuidade. Todo seu extenso trabalho de crítico literário e tradutor tem uma preocupação formadora notável”. Vilma Arêas, em trabalho referido acima, sublinha a disposição democrática de José Paulo, algo a seu ver “romanticamente imbuído do sentimento de missão”. Ao comentar a longeva veiculação de textos de Paes pela imprensa comum, a escritora assevera que o expediente “cumpre de modo cabal o propósito do autor, que procurou elaborar assuntos e textos de modo a não afugentar da cultura os que não tiveram ocasião de cultivar-se”. Voltando à Crítica reunida, Fernando Paixão, em prefácio intitulado Um crítico múltiplo, pergunta quais são “as linhas de força que norteiam o posicionamento do nosso crítico em relação à literatura brasileira”, ao que sua parceira de empreitada Ieda Lebensztayn, no prefácio que assina, refere um lance do fazer crítico de Paes em termos que, digo eu, cabem como síntese de uma orientação que permeia esse fazer: “José Paulo Paes (…) exerce a crítica em sua plenitude, ao apontar a necessidade ética e estética da poesia”.

Por esse breve apanhado de citações, pode-se perceber que a vasta produção acumulada em Crítica reunida não se orientou por metodologias que a academia se empenha em atualizar, tampouco foi desencadeada pelas exigências da produtividade científica. Se isso não a diminui, também não lhe garante qualquer superioridade prévia, apenas por seu deslocamento institucional. Mas importa frisar que ela se originou do amor pela literatura, e almejou chegar aos olhos dos que se interessam por livros. Tal como uma existência, a crítica literária de José Paulo Paes assim se cumpriu — com coerência e com paixão.

Crítica reunida sobre literatura brasileira & inéditos em livros – Vol. I e II
José Paulo Paes
Org.: Fernando Paixão e Ieda Lebensztayn
Ateliê / Cepe
1.096 págs.
José Paulo Paes
Nasceu em Taquaritinga (SP), em 1926. Literato fertilíssimo, publicou mais de trinta livros, preponderantemente de ensaio, literatura infantojuvenil e poesia. Também atuou como editor e tradutor de variados idiomas para o português. Foi casado com a bailarina Dora Costa. Morreu em São Paulo (SP) em 1998.
Marcos Pasche

É crítico literário.

Rascunho