Gramática visual do acolhimento

Cores, escalas e posições narram a jornada de "Estrangeiros", que usa o silêncio para questionar o preconceito
Alexandre Rampazo, um dos autores de “Estrangeiros”
01/05/2026

Pessoas que fugiam da guerra, da fome e do medo arriscavam-se em barcos a remo, a vela ou qualquer embarcação que as retirasse do horror, conduzindo-as a um destino próspero e alegre. Viajavam meses em alto-mar, movidas pela esperança de habitar um lugar encantado.

Nesse território, desembarcavam diariamente novos rostos: sobreviventes, curiosos e sonhadores. Temeroso diante de tantos desconhecidos — com suas crenças, línguas e desejos singulares —, o monarca daquele local instituiu uma prova rigorosa para selecionar quem teria o direito de ali ficar.

O teste era tão severo que até seus próprios ministros falhavam. Já os recém-chegados, perspicazes e coagidos pelo pavor do retorno à miséria, desvendavam gradualmente os enigmas propostos. Diante do êxito deles, uma segunda prova, ainda mais complexa, foi aplicada. Desta vez, ninguém escapou da reprovação. Todos foram expulsos: dos estrangeiros aos ministros, passando por médicos, advogados e súditos. Com ruas desertas e comércio paralisado, o silêncio fúnebre tomou conta de tudo. Sozinho, o rei compreendeu o próprio erro e partiu, ele mesmo, em busca de um novo lar.

Posição, proporção e cor
Leo Cunha e Alexandre Rampazo, autores consagrados da literatura infantojuvenil, dominam como poucos a intrincada relação entre o texto e a gramática visual. Estrangeiros utiliza um formato vertical que abraça a imensidão do oceano, a imponência do castelo e a vastidão do céu. Nele, cabem todos: os de fora, os que servem e o soberano. Do mar ao firmamento, os códigos narrativos revelam-se pela disposição dos personagens, pela escala dos elementos e pelo uso das cores.

A narrativa apresenta três camadas sociais divididas pela altura do papel. Na base, situam-se invariavelmente os imigrantes, exceto em dois momentos simbólicos: quando enfrentam o perigo de uma onda gigante antes do desembarque e quando demonstram inteligência equivalente à dos súditos. Nesses instantes, a coragem e o intelecto os elevam a uma área nobre da composição vertical, destacando seus valores humanos. No centro da cena, encontramos os colaboradores do reino; no topo, quase tocando as nuvens, isola-se o rei.

Proporção e cromatismo
Inicialmente amontoados e minúsculos, os estrangeiros só crescem em escala quando sua sabedoria se equipara à dos locais. Ali, a mesma ilustração é usada para ambos, diferenciando-os apenas pela cor. A paleta é concisa: azul, preto e ouro velho. O azul, quente e fechado, representa os que chegam; o preto e o branco estruturam o cenário (mar, escadas, castelo); já o ouro velho evoca a nobreza e tudo o que pertence à coroa.

Essa simbologia cromática narra uma transformação silenciosa: o azul, denso no início, torna-se luminoso ao final. Quando o rei sai em busca de novas terras, encontra um lugar onde a nobreza não é exclusividade de um castelo solitário. As casas e o palácio compartilham o mesmo dourado, sob um céu azul vibrante que antes era apenas amarelo ocre, preto ou branco.

Sem precisar de palavras, a escala e as cores mostram que, naquela nova margem, a harmonia é possível. O rei, que antes temia o novo, termina apequenado. Para encerrar o ciclo, as guardas do livro — originalmente douradas — tingem-se de azul, selando a integração.

Janelas e espelhos
Estrangeiros é um espelho do preconceito. Retrata um soberano acossado pelo medo de perder o controle e pela incapacidade de enxergar o próximo. Para ele, o “outro” não era soma, mas ameaça. O receio de não reconhecer um tom de pele ou um modo de existir o condenou à solidão.

Sua busca por proteger a riqueza revelou, na verdade, a fragilidade de seus valores. Há quem diga que a beleza é aquilo que não conseguimos contemplar sozinhos; algo tão transbordante que exige o compartilhamento. Logo, a beleza é, por definição, um ato coletivo.

O livro não oferece respostas prontas; prefere criar pontes entre o texto e a imagem. Ao tratar de política para crianças, o livro aborda relações sociais e o conceito de nação, abrindo espaço para o questionamento e o deslocamento de perspectivas. Afinal, imaginar também é um ato de resistência contra qualquer forma de autoritarismo.

Estrangeiros
Leo Cunha e Alexandre Rampazo
Boitatá
44 págs.
Leo Cunha
Nasceu em Bocaiúva (MG), em 1966. É escritor, tradutor e professor universitário, especialmente reconhecido por sua produção em literatura infantil e juvenil. Já publicou mais de 80 livros de diversos gêneros, além de traduzir cerca de 40 obras de autores renomados como Gabriela Mistral e Julio Cortázar. Seu trabalho recebeu importantes prêmios, como o Jabuti (vencido em 1994 como Autor Revelação), Nestlé, João-de-Barro e FNLIJ.
Rita M. da Costa Aguiar

É editora de arte, especialista em livros para infância.

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