Gesto criminoso

A escrita de Jean Genet transforma crime, desejo e marginalidade em literatura radical, entre o sagrado e o profano
Jean Genet, autor de “Heliogábalo”
01/05/2026

Ao longo da vida, o francês Jean Genet (1910-1986) foi acusado com frequência de pequenos furtos: era ele um mau ladrão? Segundo nos conta François Rouget no prefácio à primeira edição brasileira da peça Heliogábalo, “entre 1938 e 1941, [Genet] foi encarcerado oito vezes e passou quase setecentos dias na prisão”. Na penitenciária de Fresnes desde abril de 1942 (condenado a oito meses por roubo de livros), além da tragicomédia sobre o imperador adolescente e hermafrodita da Roma antiga (obra atual “em tempos de ditaduras infantilizadas”), ele escreveu o romance de estreia Nossa Senhora das Flores, um testemunho obsceno.

Escandalosa em 1943, a obra-prima ganhou merecidas nova edição e tradução no ano passado. “[…] cada vez mais contemporâneo”, de acordo com a editora Todavia, o livro antecipou a autoficção, as literaturas beatnik e queer, “dialogando com a produção dos autores de hoje, como Édouard Louis”.

No artigo O destino libertário de Jean Genet (revista Cult, março, 2010), Carlos Eduardo Ortolan nos entrega uma chave de leitura afiada, precisa, para este “delírio fetichista tornado poesia” — uma ode a Onã: “Genet está preso e torna-se um onanista contumaz. Redige Nossa Senhora das Flores como estímulo às suas fantasias masturbatórias de solitário radical”. Seus “amantes desconhecidos”, imaginários, os companheiros da sua cela “encantada” (ora “catedral”, ora “gaiola”) são “umas vinte fotografias” (um acervo de pornografia) que, “com miolo de pão mastigado” e “pedaços de fio de latão”, o escritor-presidiário cola na parede como inspiração literária e para seu prazer solitário:

Talvez entre os vinte se tenha perdido algum sujeito que nada fizera para merecer a prisão: um campeão, um atleta. Mas se o preguei na minha parede, foi porque ele tinha, a meu ver, no canto da boca ou no ângulo das pálpebras, o sinal sagrado dos monstros […]

Ele explica, alinhado a Cesare Lombroso, o criminologista do século 19.

De Genet, o canto, ou evangelho, “fantástico e fúnebre”, a “voz do sangue” (e do sêmen) e o “tom profético” (Ortolan) imitam, segundo o próprio, a carta De profundis, de Oscar Wilde, também redigida atrás de grades (o dândi foi condenado por “indecência” em 1895).

Numa noite, a Musa e protagonista — uma jovem drag queen e travesti chamada Divina, a quem o autor-narrador (Genet) conheceu na prisão e trata ora pelo pronome feminino, ora masculino — oferece seu corpo, puta, em um café de Montmartre, Paris… Sem sorte, ela/ele anda até a “zona” Pigalle e esbarra no cafetão Gostoso-de-Pé-Pequeno, que se torna “o pai” e amante de Nossa Senhora das Flores, um dos chamados “assassinos encantadores”.

Ato solitário
Enquanto se toca, Genet confessa seu “medo do guarda que pode acender de repente a lâmpada elétrica” e flagrá-lo em ato: “[…] mas, se perde em nobreza, meu gesto, ao se tornar secreto, aumenta meu prazer”, ele reflete.

“Debaixo do lençol, minha mão direita se detém para acariciar o rosto ausente e, depois, todo o corpo do fora da lei que escolhi para minha felicidade dessa noite”, escreve (um tipo de body art!).

Em Elogio da masturbação, Philippe Brenot o compara a “Sade, cuja longa vida carcerária elevou o ato solitário a culto e necessidade”. “Como a escrita, a masturbação [“o tabu mais íntimo da moral sexual do Ocidente”] é, antes de tudo, uma atividade solitária, um prazer individual, uma garantia de autonomia; por isso, entra como substituto, como rival, como complemento — suplemento, dirá Rousseau — do ofício de escrever”, observa ele.

Ainda de acordo com o antropólogo, psiquiatra e sexólogo, “o amor consigo mesmo não é uma profanação imunda como se pretende afirmar; é, com toda certeza, um suntuoso encontro interior”.

Genet (se) declara:

Foi bom que eu tenha elevado a egoísta masturbação à dignidade de culto!? […] gesto de solidão que faz com que você seja suficiente para você mesmo, possuindo intimamente os outros, que servem a seu prazer sem disso suspeitarem […]. Minha boa, minha terna amiga, minha cela! Reduto de mim apenas, eu te amo tanto!

Tipos ideais
Ladrão homossexual, Genet sente atração pelos criminosos e marginais, seus iguais: alguns são atléticos; Gostoso e Nossa Senhora das Flores, loiros de olhos azuis — seus tipos ideais contrariam as teses (tipicamente lombrosianas) de que “o homem bonito arrisca ser um fraco” e de “certo tipo de feiura como indício de virilidade”, aponta Ligia Gonçalves Diniz em O homem não existe: masculinidade, desejo, ficção. Como na Grécia antiga, ele exalta “os poderes transcendentes do corpo masculino” e faz deste “as portas do paraíso”.

Segundo Hernandes Matias Junior (Românticos radicais, junho de 2025), Genet “eleva o grotesco ao sublime, borrando as fronteiras entre o sagrado e o profano, o erótico e o espiritual” (“transfigura o real em poesia”, diz Rouget). Seus delinquentes e rebeldes são anjos beatificados ou santificados, com auréola. “[…] o criminoso [em Genet e Nossa Senhora das Flores] não é um problema a ser resolvido, mas um mito a ser celebrado” (Times Literary Supplement, 2025).

A figura do “assassino” impõe respeito “não somente porque teve uma experiência rara, mas porque se erige em deus, de súbito”, explica o “adorador do Mal” (Ortolan), transgressor da lei e da moral.

Ora, não pode uma fotografia de guerra ou uma marcha fúnebre também “ser bela”? — ensina Cristina Costa em Questões de arte: o belo, a percepção estética e o prazer artístico.

Heliogábalo
Jean Genet
Trad.: Régis Mikail e Renato Forin Jr.
Ercolano
144 págs.
Nossa Senhora das Flores
Jean Genet
Trad.: Julio Castañon Guimarães
Todavia
256 págs.
Jean Genet
Nasceu em Paris (França), em 1910. Sua vida, marcada pela marginalidade e pela prisão, influenciou diretamente sua obra literária. Filho de mãe prostituta e de pai desconhecido, foi abandonado ainda bebê e criado por uma família adotiva em Alligny-en-Morvan. Desde cedo envolveu-se em pequenos furtos e fugas, o que o levou a cumprir diversas penas de prisão na juventude. Foi justamente durante esse período encarcerado que começou a escrever, transformando sua experiência de exclusão em literatura. Entre suas obras mais importantes estão os romances Nossa Senhora das Flores (1943) e Diário de um ladrão (1949), que exploram a marginalidade e a sexualidade, e as peças teatrais As criadas (1947), A varanda (1957) e Os negros (1959). Morreu em 1986.
Adriano Cirino

É jornalista graduado pela UFMG. Foi repórter trainee do Estadão e colabora com a revista piauí.

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