Ela vai vingar

"Rua do Inhame", saga de imigrantes italianos no sul do Brasil, expõe memória, violência e sobrevivência ao longo de cinco gerações
Gabriel Maschio, autor de “Rua do Inhame”
01/05/2026

Num trecho já adiantado de Rua do Inhame, a personagem que deu origem a toda a prole no mundo novo — a América do Sul —, uma mulher já idosa, diz para si mesma, com o autor emprestando a voz dela como narradora da saga:

Sem pai, sem mãe e sem marido. Minha vida voltava a não fazer sentido. Uma vez que já tinha sido um ventre de esperança pra minha família e pra minha nação. Desta vez, porém, eu era o último ramo seco de uma árvore no inverno dos seus dias.

A voz de Giuseppina ecoa apenas para ela, num mundo que teria sido de esperança, mas que, ao final da vida, já não se mostra como tal.

O romance começa numa Itália miserável, onde se morre de fome e de frio; nem os animais, como vacas e bois, são poupados. Os habitantes de pequenas cidades são obrigados a abandonar a terra natal para tentar a vida fora dali. E quem diria, sra. Giorgia Meloni, hoje querendo fechar fronteiras, a Itália para os italianos, quando há pouco mais de cem anos eram socorridos por países de pouca importância, como o nosso, o Brasil. Tudo bem que as coisas aqui não se deram como o prometido, e ainda houve muitos italianos da época envolvidos na falcatrua: os lotes de terra não eram assim como eles prometiam; e essas mesmas terras, bem, essas, tinham donos, só que esses (os indígenas) não eram considerados gente. Triste país, triste humanidade.

Pietro e Pina embarcam num navio francês cujo destino é o Brasil. Após uma viagem turbulenta e acidentada, aportam no Rio de Janeiro, onde são obrigados a permanecer durante alguns dias. Na capital do império, após a conferência dos documentos, são encaminhados ao sul do país, especialmente para o que viria a ser o estado de Santa Catarina. O casal traz duas crianças, Filippo e Luigia, que até acham tudo muito divertido. Todos mantêm acesa a chama de que em terra estrangeira serão mais felizes.

A narrativa vai se desenvolver durante cinco gerações, começando em 1882 pela matriarca e terminando por Ana, em 1992, uma descendente já distante e miscigenada, cento e dez anos depois. O romance não é narrado em ordem cronológica nem possui apenas um narrador. Uma pluralidade de vozes, predominando a das mulheres, vai nos contar a história.

As dificuldades
No processo de chegada ao Brasil e no estabelecimento dos imigrantes à terra, vamos nos familiarizando com os problemas que esses primeiros colonos enfrentaram e com a carência de soluções. As autoridades da época jamais cumpriram o que prometeram. Muitos se tornaram insatisfeitos com a qualidade da terra que receberam, com a falta de insumos, a falta de apoio contra o ataque constante dos indígenas e com a rudeza do meio ambiente que não dominavam. Inclusive, na chegada e destino dos novos colonos, muitas famílias foram separadas.

O casal se estabelece e a família aumenta. Filhos italianos e brasilianos, como são chamados, se misturam e passam, assim que o corpo lhes permite, a fazer parte da força de trabalho rural que o casal inicia.

Gabriel Maschio conta, em pormenores, sempre na voz de seus narradores e suas narradoras, a lida diária e o aumento da família, não apenas no crescimento vertical dela, mas na sua expansão horizontal, com mais irmãos, primos, tios e sobrinhos. O foco é sobre a imigração italiana, mas não faltam os colonos alemães que, em alguns momentos, não têm boas relações com os italianos. Sobre os tais brasilianos, a situação é toda outra, sendo vistos sob uma lente de extremo preconceito, incluindo nessa sub-raça os indígenas. Quando alguém da família se mistura ou tem a intenção de se relacionar com as pessoas da terra — os povos originários, como se diz hoje —, é completamente discriminado pela família, sendo privado da herança.

O autor faz um trabalho de fundo memorialista, chegando ao final do livro, na seção de agradecimentos, a fazer referência a alguém que teria anotado e preservado toda a sucessão de descendentes.

O romance é tratado com muita sensibilidade, tendo o autor o cuidado de apresentar todos os sentimentos dessas pessoas. Muitas tinham consciência do seu papel na economia local e na do país, trabalhando para juntar bens e enriquecer; enquanto outras, já não viam seu estar no mundo da mesma forma, sendo criticadas pelo primogênito, que desejava todos segundo a sua ideologia. Há ainda a presença da Igreja Católica, que não contribui muito para nada, ou melhor, apenas para interesses próprios, ficando em cima do muro quando a questão era defender os colonos, os índios, ou quem quer que seja do andar debaixo, preferindo a vida confortável ao lado dos poderosos. Inclusive, presenciam-se brigas entre ordens religiosas, sendo os franciscanos os de maior prejuízo.

Há cenas de estupro de mulheres, exploração do trabalho infantil e assassinatos de crianças indígenas; bem como, pelo lado dos políticos e poderosos, sempre o benefício proporcionado pelo dinheiro público. Passam-se mudanças de presidentes, revoluções, conflitos armados, exploração empreendida pelas tropas que passam pelas cidades roubando dos colonos cavalos e gado. Há ainda o golpe militar de 1964, esperança que não se deu para muitos da localidade que viam com simpatia o movimento armado das casernas.

Solução narrativa
O que surpreende no livro, porém, não são os grandes acontecimentos, mas a solução narrativa encontrada para colocar em ordem mais de cem anos de história. É a vida de cada um, contada por meio de pequenos acontecimentos diários, pequenas esperanças, lutas contra doenças dos filhos, sofrimento advindo das perdas destes, e a própria batalha pela sobrevivência. É isso que vai proporcionar o grande prazer que a leitura oferece. A grande literatura é feita de pequenos eventos e de soluções sutis. Nesse ponto, o autor parece ser um grande mestre, apesar de ainda estar no primeiro romance.

Voltando ao início desta crítica literária, quando falo de Pina, sozinha, a fazer um inventário de sua vida, estando a mulher já no crepúsculo da existência, sopesando se valeu a pena tê-la vivido debaixo quase sempre de intempéries, acredito que se poderia fazer a mesma reflexão a respeito da literatura, como o faz sobre si essa velha imigrante calejada por dias frios, por terrenos inóspitos, vivendo em meio a animais ressequidos, dos quais, muitas vezes, não conseguiu extrair o leite para o sustento dos filhos.

A literatura não tem poder para mudar o mundo e desfazer as injustiças, mas, pelo menos, enumera o inventário de tantas perdas, sempre maiores do que qualquer sucesso. Ao mesmo tempo, poderíamos pensar sobre como se desenvolve uma literatura de quinta geração de imigrantes. Seria ela, ainda, italiana e no exílio? Seria brasileira? É a língua que caracteriza uma literatura? Perguntas difíceis, frequentemente irrespondíveis, deixadas aos departamentos de pesquisa das universidades públicas.

Em algum momento da narrativa, alguém, mesmo sabendo que a coisa não vai bem, chega a dizer a respeito da saúde de uma criança:

Tá tudo bem, mãe. Vai ficar tudo bem. A mãe responde: Eu sabia. Ela vai vingar.

É bom sempre lembrar que a literatura explora a pluralidade de sentidos. Aqui, então, fica a questão principal: quem é que vai vingar?

Rua do Inhame
Gabriel Maschio
Caiaponte
380 págs.
Gabriel Maschio
Nasceu em Rio do Sul (SC) e vive em Florianópolis. É doutor em Ciência Política pela UFSC. Seu primeiro trabalho ficcional foi o roteiro de Ondina, incluído em Dos filmes que ainda não fizemos (2021). Rua do Inhame é seu primeiro romance publicado.
Haron Gamal

É doutor em literatura brasileira pela UFRJ e professor de literatura brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Autor dos livros Magalhães de Azeredo – série essencial (ABL) e Estrangeiros – a representação do anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (Ibis Libris).

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