No início de Não existe acaso no inferno, romance de Vinícius Ferreira, no capítulo Seria meu dia de folga, lemos:
Nem no inferno deve existir acaso. Seria meu dia de folga e eu planejava visitar o meu pai no asilo. Antes das seis da manhã, tocou o telefone:
— O Cenoura está indo aí na sua casa, Franco.
Com menos tempo na polícia, talvez eu estranhasse. Sem sacar do coldre nenhuma das suas frases conhecidas, a voz do delegado Medeiros parecia recém-saída de um brejo.
Adiante, Cenoura revela o motivo de tê-lo procurado:
— Acharam umas crianças num galpão, numa tal de Alameda Barão Veiga, lá no Milton Friedman.
— Crianças?
— É. Mortas.
Mais à frente, quando os dois estão se dirigem ao local do crime, Cenoura, ao contornar o centro de Cataguases, “passando rente às estruturas que a prefeitura montava para as comemorações do aniversário da cidade”, diz:
— Que saco essa porra de festa, Bartô! Até parece que essa merda de cidade tem o que comemorar.
Nesse momento, já percebemos o tom da narrativa: trata-se de um romance policial com características do romance noir. Além da linguagem, podemos constatar que todos os personagens têm problemas pessoais e vivem, de certo modo, fora da lei. Quando partem para uma investigação, eles têm informantes na polícia ou fora dela que não esperam autorização da justiça para revelar algo sobre suspeitos ou mesmo sobre vítimas. Além disso, as informações apontam para o envolvimento de altos funcionários da prefeitura com a corrupção. É triste percebermos que ninguém está na vida pública pelo bem do povo ou da cidade, mas para benefícios próprios. E isso é mais visível quando se trata de uma cidade de porte médio ou pequeno.
A literatura policial, num universo como o nosso, torna-se quase impossível. O autor precisa de muita reflexão e de várias investidas para que seu texto não soe fora de tom. Por isso, como podemos constatar pelas notícias estampadas todos os dias nos jornais, a investigação tem maior chance de alcançar o público quando se volta para a corrupção. Afinal, quem são os bandidos do mundo de hoje? Não falo isso para demonizar a política, mas é uma triste constatação do dia a dia nos jornais, sites, rádios e canais de TV. Até mesmo num simples roubo, muitas vezes é possível descobrir um agente do Estado envolvido, e não é com o objetivo de solucionar o caso.
Corrupção sistêmica
É notório que a corrupção não se restringe aos políticos, mas, até mesmo, dentro da própria corporação em que o detetive trabalha: um lugar pleno de gente a lhe atrapalhar a investigação.
No ambiente policial, talvez em muitos lugares do mundo, pessoas interessadas em benefício próprio não gostariam que o secretário de segurança, ou mesmo o chefe de polícia, fosse investigado. Na hierarquia do estado, há o governador, o seu secretariado, os deputados do seu partido ou da coalizão que lhe proporciona maioria na Assembleia Legislativa etc. Em relação aos municípios, percebe-se a mesma coisa. A diferença é que a polícia fica a cargo do estado. Mas para que prefeitos e políticos locais possam levar adiante suas más intenções, será preciso fazer acordo com os responsáveis locais não apenas pela polícia, mas também pelo Poder Judiciário. Como isso pode acontecer?
O romance de Vinícius Ferreira dá muitas voltas, frequenta a baixa e a alta sociedade de Cataguases, mas aponta como ocorre a questão acima. Ainda há envolvimento com a educação e a religião. No primeiro caso, os meninos mortos estão vestidos com o uniforme de um colégio que já não existe, mas que teve certa importância local. No segundo, sobre a religião, houve, num certo momento, o projeto de construção de uma igreja no terreno que outrora pertencera ao colégio. Pouco a pouco, descobrimos que tudo não passa de uma trama para a valorização dos terrenos locais, porta aberta para os empreendimentos imobiliários ligados ao poder local e aos sanguessugas desse mesmo poder.
O que se mostra interessante no romance não é o desenrolar da trama até a descoberta dos autores desses crimes praticados com crueldade e “arte” — quanto a isso, cabe ao leitor constatar —, mas a vida dos policiais, em que ninguém é inocente. A cada vez que avançam numa investigação, eles correm o risco de ser transferidos das funções investigativas para atividades burocráticas, como fazer vistorias no Detran local — apenas um dos exemplos. Isso pode ser constatado quando percebemos o destino de cada um deles após serem esclarecidos os crimes e identificados os autores e os demais envolvidos.
Sintaxe noir
Outro aspecto importante do livro está não apenas no vocabulário sujo, com muita gíria policial e mesmo palavras de baixo calão (“— Que porra de semente da ganância é o caralho! Esses aí são um bando de filhos da puta, isso, sim”, essas palavras são do Cenoura), mas também na sintaxe, que se mostra também travada, assim como a investigação. Analisemos o seguinte parágrafo:
A larga janela envidraçada deixava à vista o rio Pomba, com suas águas barrentas contornando o Clube de Remo. A lentidão das correntezas contrastando à frenética energia juvenil das quadras de peteca, da área de piscinas, onde os corpos desnudos pareciam alheios às nuvens de fuligem despejadas pelas chaminés das fábricas de tecido.
O primeiro período desse trecho não apresenta problema algum: há o verbo “deixar”, que tem como sujeito “a larga janela envidraçada” e como complemento o restante da oração. Mas, no segundo período, há uma ruptura sintática. O período se inicia com o sintagma “A lentidão das correntezas”, seguido do gerúndio “contrastando”, mas a construção não encontra correspondência no restante do segmento, porque logo depois aparece a forma verbal “pareciam”, cujo sujeito é “os corpos desnudos”, e o sintagma inicial (“A lentidão das correntezas”) fica esquecido. No lugar da forma de gerúndio “contrastando”, talvez fosse melhor empregar o pretérito imperfeito “contrastava”. Outro pequeno problema, a ser corrigido em uma futura edição, ocorre na página 156, no quarto parágrafo, em que há um “a” no lugar de “na”:
Nenhum deles poderia supor que, além de fanático, o Garavelo fosse ganancioso a ponto de planejar construir a sua igreja a (sic) parte mais alta e valorizada do terreno.
Voltando-se ao que comentei no início desse texto, quando afirmo sobre a linguagem suja, noir do romance, junta-se a ela uma sintaxe até certo ponto descuidada na voz dos policiais e do narrador. Acredito, no entanto, que não haja nada melhor para fotografar a falta de conexão do mundo político em relação ao bem público e ao cidadão de qualquer cidade, elevando isso ao caráter universal, digo: em qualquer lugar do mundo. Ficaria, então, a pergunta: O que se poderia fazer para que tudo funcionasse com honestidade? Eis uma boa questão que a literatura é sempre capaz de propor, mas não de responder.