Bourdain, 70: o chef escritor

No aniversário de 70 anos de Bourdain, sua obra ainda ilumina cozinhas, viagens e as contradições humanas
Anthony Bourdain, autor de “Cozinha confidencial”
25/06/2026

Anthony Bourdain, o cara mais cool da culinária mundial, amigo de Iggy Pop e Bill Murray, escritor e apresentador de sucesso, que tinha o “melhor emprego do mundo”, completaria 70 anos neste 25 de junho, caso essa vida de êxito fizesse algum sentido para ele em 2018, ano em que se matou em uma vila na região da Alsácia, no nordeste da França. Mas após o baque inicial de uma morte absolutamente improvável (ele só tinha 61 anos), dado o que se pensava sobre a vida cheia de glamour do chef americano, o culto à figura descolada de Bourdain só cresceu.

Assim que morreu, seu livro mais conhecido, Cozinha confidencial, pulou direto para a lista dos mais vendidos do The New York Times, 18 anos depois de estar lá pela primeira vez. Lançada em 2000, a obra catapultou um cozinheiro sem grande destaque na alta culinária americana para o estrelato no mundo das letras e do entretenimento — e da gastronomia, por consequência.

Em 2019, os chefs Eric Ripert — melhor amigo de Bourdain, que estava com ele horas antes do fatídico episódio na França — e José Andrés criaram o Bourdain Day. A data celebra a vida do apresentador que cativou multidões com seu jeito carismático de olhar a cultura sem filtros, para além dos cartões-postais e clichês. Algo tão forte e idiossincrático que o transformou em um ícone pop. Bourdain cativou até mesmo pessoas que nunca se ligaram em culinária, muito menos na alta gastronomia. Espécie de Bloomsday joyceano, o Bourdain Day sugere aos fãs do chef que tomem um Negroni (um dos drinks preferidos dele), provem comidas exóticas e encontrem uma birosca que sirva algo saboroso e barato. Hábitos que Tony amalgamou em um estilo de vida, retratado com fidelidade em programas como Parts Unknown. Ainda em 2019, Eric Ripert articulou a criação da Anthony Bourdain Legacy Scholarship, pelo Culinary Institute of America (CIA), onde Bourdain se formou em 1978. Trata-se de uma bolsa de apoio a alunos que desejam seguir o caminho de descobertas globais, curiosidade culinária e exploração de culturas estrangeiras.

Além disso, o culto ao chef literário tem sido fomentado também por uma série de projetos que exploram a fascinante trajetória de Bourdain e tentam desvendar o mistério de seu trágico fim. O documentário Roadrunner (2021), dirigido por Morgan Neville, revelou pela primeira vez o que durante anos se especulava: Bourdain levava uma vida solitária e desgastante em seus últimos anos e que seu relacionamento amoroso com a atriz italiana Asia Argento ajudou a agravar sua saúde mental. No filme, Bourdain transita de “melhor colega de trabalho” a um homem fechado em si mesmo, cego por um amor quase adolescente, capaz de demitir companheiros fiéis por caprichos da namorada. Asia Argento tornou-se, para muitos, uma espécie de “Yoko Ono piorada”. Ela ficou com o ônus de ter empurrado Bourdain do precipício quando o namorado a viu nas páginas de fofoca com um jornalista em Roma, no mesmo hotel em que o casal costuma se hospedar quando estava na capital italiana. Ainda que Asia tenha contra-argumentado que viviam um relacionamento aberto, e que Bourdain também se relacionava com outras mulheres, o documentário de Morgan Neville deixa evidente que o episódio afetou profundamente o escritor antes de sua morte. Para além da tristeza, o filme mostra Bourdain pré-fama em Manhattan, acordando cedo para escrever antes da jornada na cozinha, movido a cigarros e doses generosas de analgésicos que mastigava como chicletes.

Além do excelente documentário de Neville, nos últimos anos surgiram ainda relatos mais fraternos dos antigos colaboradores do chef: Em maus lençóis: Mundo afora e nos bastidores com Anthony Bourdain (2023), escrito por Tom Vitale, narra as experiências do autor como produtor de Bourdain em mais de 100 episódios de TV; já Volta ao mundo: Um guia irreverente (2021), de Bourdain e Laurie Woolever, compila lugares visitados com comentários do próprio escritor.

Parte substancial dessas viagens está no YouTube, onde é possível vê-lo interagindo com uma orquestra de panelas em Trinidad e Tobago, perambulando pelo Mercado Central de Belo Horizonte ou tomando uma Brahma na Bahia. Com o tempo, o que era um programa de viagem gastronômica virou uma experiência sociológica; a comida era apenas o ponto de partida para mostrar a vida local. Um estilo sem estrelismo, incentivando o público a fugir do óbvio.

Já o lado mais sombrio da vida de Bourdain foi exposto por Charles Leerhsen no livro Miserável no paraíso: a vida de Anthony Bourdain (2022). A biografia “não autorizada” revelou mensagens de texto e e-mails pessoais que mostram a angústia de Bourdain, seu isolamento e infelicidade no trabalho, apesar do sucesso. Algumas das mensagens são chocantes. Para sua ex-esposa, Ottavia Busia-Bourdain, ele escreveu: “Eu também odeio meus fãs. Odeio ser famoso. Odeio meu trabalho”. A obra tem o mérito de desconstruir a imagem pública de “viajante empático” do escritor, oferecendo um retrato minucioso e sem verniz da vida turbulenta do chef. E de forma mais ampla, o livro faz um importante alerta: seja quem for, não importa, todo mundo é vulnerável. Sem diminuir Bourdain como personagem, o livro o engrandece como pessoa. Afinal, Bourdain só foi quem foi, porque era uma pessoa com espírito crítico e livre, um homem inclinado a viver perigosamente, com um humor autodepreciativo que fez dele um excelente narrador. Algo que extravasa em seu melhor livro, o autobiográfico Cozinha confidencial. Bourdain queria muito ser escritor, perseguiu isso com afinco e com a obsessão que lhe era característica. Mas seus dois livros de ficção lançados nos anos 1990, Gone bamboo e Bone in the throat (que virou o filme Osso na garganta) pecavam por trazer uma voz meio frouxa, apesar de serem romances bem-humorados e que misturavam comida e máfia, uma combinação que rendeu grandes obras na literatura e no cinema.

Mas ironicamente, foi só quando falou dele mesmo, que passou a ser notado como escritor. O tom confessional de Cozinha confidencial, sem filtros e com doses iguais de perspicácia e maldade, com uma escrita rápida e intensa, emulando o ritmo de uma cozinha profissional, ganha ainda mais peso com a autenticidade do que é narrado, fruto de muitos anos de trabalho em todas as “praças” de uma cozinha profissional. Some-se a isso, a vida junkie que o chef levava, cobrindo com uma camada de sarjeta seu picaresco relato.

“Uma das grandes ironias de minha carreira foi que tudo desandou assim que larguei a heroína. Totalmente drogado, eu era, mal ou bem, um chef com um bom salário, apreciado tanto pelas brigadas de cozinha e salão quanto pelos donos”, diz um dos trechos do capítulo Anos rebeldes.

Estabilizado com metadona, tornei-me uma pessoa que quase ninguém decente se disporia a contratar: um cheirador de pó preguiçoso e desonesto, um vigarista picareta, um safado que operava às escondidas nos confins culinários. Nessa época, quase que trabalhei só de cozinheiro, pulando de galho em galho, muitas vezes com pseudônimo.

Em termos técnicos, o livro é tão variado quanto a melhor paella ou feijoada em seu menu estilístico: transita da crônica ao ensaio, do relato de viagem às memórias. Louve-se também a habilidade do autor de aumentar seus causos na medida certa que a literatura pede e permite.

Dolorosamente humano até o seu fim, Bourdain certamente não viveu uma vida em vão. Os anos que se passaram desde sua morte, mostram que a chama que acendeu continua queimando, ainda que seu fogo tenha se apagado cedo demais.

Luiz Rebinski

É jornalista e escritor. Autor do romance Um pouco mais ao sul.

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