O ritmo com que Adélia Prado publica seus livros de poesia desenha traços particulares no tempo. Em um primeiro gesto, mais solar, lança três títulos: Bagagem (1976), O coração disparado (1978) e Terra de Santa Cruz (1981). Após um hiato de seis anos, traz, quase simultaneamente, as noites escuras de O pelicano (1987) e de A faca no peito (1988). Em um terceiro ciclo, o tom meditativo e alguns espaçamentos entre as edições se acentuam, algo visto em Oráculos de maio (1999), A duração do dia (2010) e Miserere (2013). Agora, em O jardim das oliveiras (2025), a poeta segue tecendo multifacetações de sua obra e reúne 105 poemas escritos em várias épocas da vida. Sintetiza motivos, sobrepõe nuances, articula diferenças e repetições em relação ao percurso bibliográfico pessoal.
Ao longo de seus nove livros, Adélia Prado frequentemente delineia composições de uma só estrofe, mais extensa, em versos livres e de rimas discretas. Mantém uma dicção lírica, bíblica e existencial. Contempla profundas afinidades com o catolicismo, destacando aspectos franciscanos e carmelitas, e com a literatura mineira, sobretudo admirando Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa. Continua pensando, invariavelmente, em sexo, morte e Deus. Tudo isso em geral atravessado por um estilo humilde de composição e apurado por uma fala singular, com o sujeito lírico de consciência metalinguística se dizendo no feminino, no interior memorialístico mineiro de seus sentimentos poéticos.
O estilo humilde pradiano tem raízes religiosas profundas. Revisita escritos de São Francisco de Assis e dos seus seguidores Frei Leão e Tomás de Celano — por sinal, a estetização da humildade é questão importante já no primeiro poema do volume lançado em 2025 e ainda em Petição, A pobreza de Deus, A comedora, entre outros. Adélia Prado reencontra, ademais, Santa Teresinha do Menino Jesus e São João da Cruz, ambos mencionados no livro, respectivamente em Asilo para senhoras idosas e O aspirante e suas dificuldades. Com a Bíblia, também possui muitos parentescos; o próprio título O jardim das oliveiras é referência a uma passagem dos Evangelhos cristãos. Adicionalmente, recuando para o Antigo Testamento, a católica costuma recorrer à literatura sapiencial (Salmos, Jó, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos), profética (Jonas) e histórica (Rute).
Em suas tramas, embora tenha estreado em 1976, a postura feminina crítica de Adélia Prado se vale de tradições várias e anteriores a Maio de 1968. Convergem nela, por exemplo, o indicado livro de Rute, bem como a corporeidade de Santa Teresa de Ávila. Por outro lado, a sensibilidade da autora de O coração disparado reaparece depois, em menor ou maior medida, nas compreensões corporais de Elisa Lucinda; nas estrofes longas e meditativas de Marília Garcia; no olhar para o cotidiano feminino de Ana Martins Marques; e em tantas mais. Contudo, não é possível restringir às mulheres essa lista. São perceptíveis proximidades estéticas com Jorge Emil (revisor) e Marco Lucchesi (autor da apresentação), para apenas lembrar aqui dois poetas ligados diretamente à edição de O jardim das oliveiras.
Inéditas inflexões
Nesse novo livro, em particular, lançado por Adélia Prado em torno da comemoração de seus 90 anos, as preferências cultivadas pela divinopolitana retornam, mas, em uma espécie de forma com variações, revelam também inéditas inflexões de antigos pontos. Uma dessas tópicas velhas e novas é a presença de uma percepção de si como idosa. As oscilações já se notam desde a estreia em prosa, Solte os cachorros (1979), quando a narradora do primeiro texto anuncia logo nas duas frases iniciais: “Quarenta anos é demais para uma mulher. Prefiro quarenta e dois”. A seu turno, Bagagem, a estreia na poesia, conta com um título que evoca certo percurso, algo bem diferente da expressão de jovialidade buscada por Chacal, Cacaso e linhagens marginais dos anos 1970. Assim, em O jardim das oliveiras, essa antiguidade do sujeito literário mais uma vez se repete e segue criando diferenças.
Em Biografia, declara:
Qualquer infância é antiga.
Aos quinze anos, já pósteros,
nos lembramos de nós com comovida saudade.
Já nasce com mil anos a memória da alma.
Em Boitempo, vale lembrar, Carlos Drummond de Andrade recorda um menino antigo; em O jardim das oliveiras, e mesmo mil poemas antes, Adélia Prado concebe um antigo idoso, um eu lírico que há muito se sente a carregar suas bagagens de tempo e, constantemente inconclusivo, a se dobrar sobre anteriores versões de sua subjetividade. As pessoas, as idades, os lugares apontados pela escritora, aliás, com bastante recorrência, são cobertos por uma crosta memorialística sentimental: a criança da estrofe acima não é uma personagem enquanto coisa em si, objetiva e ingênua, mas sentimentalmente construída, recordação momentânea do que o eu poético sente. Em harmonia com essa perspectiva, havendo em O jardim das oliveiras textos criados nos anos 1960, 1970 e 1980 pela autora, além dos recentes, são todos eles, na verdade, selecionados pela poeta de agora: ao abrir um baú em busca não só de um tempo perdido, as lamparinas e as lâmpadas do contemporâneo iluminam um presente-passado e retramam as durações dos dias.
Em Bagagem e em Solte os cachorros, há, cada um a seu modo, eus textuais se dizendo velhos, por vezes uma balzaquiana de 40 anos, na década de 1970. Em O jardim das oliveiras, nos anos 2020, uma senhora de 90 anos se diz em vigília diante das possibilidades de dor, sofrimento e agonia no horto derradeiro da existência. Na estrutural inconclusividade da poeta, a idosa deste instante é uma nova Adélia Prado, nunca esteve tão tardia no retrabalhar das suas faces solares, noturnas e meditativas. Na sua condição humana, o sujeito lírico pradiano é inconstante, com soluções provisórias, conscientemente pobres, franciscanas, diante do Mistério.
Ler um livro inédito de Adélia Prado é também um exercício de releitura, é escutar sutilezas originais nos refrões. Revisitação de uma bibliografia mais larga, repleta de relações intertextuais com a sua própria literatura e com as tradições frequentes em seu trajeto. A pós-modernista é um verdadeiro clássico vivo da literatura brasileira a rearranhar e reordenar as recordações, criando neste momento experiências singulares.
Leia a análise de Wilberth Salgueiro sobre poema “Casamento”, de Adélia Prado