Não há pássaros aqui, ganhador do prêmio LeYa de 2023, marca a estreia de Victor Vidal no romance. Podemos dizer que o livro se inscreve em uma lógica da prosa brasileira que desloca o centro da narrativa para vidas comuns atravessadas por fraturas sociais persistentes. Trata-se de um livro que não aposta na grandiloquência nem na reconstituição histórica de largo fôlego, mas na observação minuciosa de existências marcadas por traumas íntimos e por uma desigualdade que não aparece como tese, e sim como experiência cotidiana.
A história consiste basicamente na necessidade de Ana buscar sua mãe desaparecida, após vários anos sem qualquer contato. A relação das duas havia sido marcada pelo conflito, cujo extremo é evidenciado pela frágil saúde mental da protagonista, sobretudo ao retornar à sua antiga casa, onde jurou nunca mais pisar.
Vidal constrói uma narrativa repleta de silêncios em idas e vindas entre passado e presente. Em parte, é essa interlocução que permite a manutenção do suspense sobre o que teria acontecido com Andrea e, principalmente, com Ana ao longo da vida. Como parte desses fatos vai sendo revelada aos poucos, resta ao leitor se amparar no temperamento da protagonista até que ele seja justificado pela própria história e toda a violência envolvida.
Ana e sua mãe, Andrea, são personagens que se movem em espaços urbanos reconhecíveis, embora nunca plenamente nomeados. Essa recusa da cartografia explícita não enfraquece o vínculo com o real; ao contrário, reforça a ideia de que a história poderia se passar em qualquer cidade brasileira em que as promessas de mobilidade social convivem com a precariedade estrutural. A desigualdade, aqui, não é pano de fundo, mas força modeladora de subjetividades.
Entre o trauma e a sobrevivência
Ana carrega marcas de um passado que não se resolve: traumas familiares, violência, silêncios acumulados, uma sensação de deslocamento que atravessa suas relações. Andrea, por sua vez, parece operar em uma chave distinta, mas igualmente ferida — seu percurso revela como a tentativa de autopreservação pode se converter em endurecimento, em uma ética defensiva que, no limite, impede o encontro, visível na forma como se relaciona, ou tenta se relacionar, com Tomás. O romance trabalha o contraste entre ambas sem recorrer a esquematismos psicológicos. Não se trata de opor vítima e algoz, força e fragilidade, mas de expor como cada uma negocia com o que lhe foi legado.
É comum o leitor encontrar arroubos nas reações de Ana, visíveis em sua relação com Benjamim, que, desde o princípio do texto, a levam para longe do óbvio. Em determinado momento, quando já se está familiarizado com a sua personalidade, com a maneira como conduz suas interações com as pessoas, as manifestações violentas se tornam a regra, gerando um permanente clima de suspense e expectativa na história devido aos contornos de imprevisibilidade que marcam a personagem.
À medida que avança, tais arroubos são notados como a evidência da fragilidade mental da protagonista, construída a partir da relação abusiva mantida com a mãe ao longo de muitos anos em uma vida precária. Logo, o olhar do leitor é desviado da descrição de elementos tão comuns à desigualdade brasileira, passando para uma atenção às condições de Ana e à sua relação com a mãe.
Remexi o conteúdo das gavetas debaixo da pia, peguei as cartelas de comprimidos que encontrei ali dentro e as atirei na privada. Ao apertar a descarga, vi os medicamentos rodopiarem na água turva antes de desaparecerem. Não sabia para o que serviam, mas esperava que Benjamim adoecesse ainda mais sem eles, que enlouquecesse de dor durante a noite. Ainda insatisfeita, abaixei a calça e urinei no tapete que havia perto da pia.
A linguagem do não dito
Victor Vidal demonstra atenção particular ao modo como o trauma se infiltra na linguagem. Há, no texto, uma sintaxe por vezes contida, com elipses e lacunas a espelharem o que não pode ser dito diretamente. O silêncio, nesse sentido, torna-se um procedimento narrativo. O título — Não há pássaros aqui — funciona como metáfora de um espaço rarefeito, de um ambiente onde a possibilidade de voo, de deslocamento simbólico, foi restringida. Não é a ausência literal que importa, mas o que ela sugere: a interrupção de um horizonte.
Do ponto de vista social, o romance evita tanto a denúncia panfletária quanto a neutralidade confortável. A desigualdade comparece na materialidade dos empregos precários, nas moradias apertadas, nas expectativas frustradas de ascensão. Não há discursos inflamados, mas situações que evidenciam o peso das condições objetivas sobre as escolhas individuais. Ao narrar vidas ordinárias, o autor coloca em primeiro plano a forma como as biografias são atravessadas por estruturas que escapam ao controle dos personagens.
É nesse ponto que a construção de Ana e Andrea ganha densidade. Elas não são apenas indivíduos com dramas privados; são sujeitos formados em ambientes marcados por assimetrias de classe e por hierarquias afetivas, limitando suas ações ao mesmo tempo que as condicionam. O romance sugere que o trauma não nasce apenas de eventos excepcionais, mas de pequenas violências repetidas — negligências, expectativas desmedidas, ausências. A soma desses episódios produz marcas duradouras que se projetam nas relações amorosas, familiares e profissionais.
Como estreia, o livro revela um autor atento à tessitura do cotidiano e às zonas de fricção entre o íntimo e o social. Há momentos em que a narrativa se aproxima de certa rarefação excessiva, como se o cuidado formal contivesse o impulso dramático. Ainda assim, essa contenção parece coerente com o universo representado: personagens que falam pouco, que hesitam, que carregam o peso de histórias mal resolvidas dificilmente poderiam habitar uma prosa expansiva.
A principal virtude de Vidal está em compreender que a desigualdade não se manifesta apenas em indicadores estatísticos, mas em gestos mínimos, em oportunidades negadas, em expectativas moldadas pela escassez. Ao acompanhar Ana e Andrea, o leitor é convidado a perceber como a violência estrutural se internaliza, convertendo-se em autocensura, medo ou ressentimento.
Não há pássaros aqui não pretende oferecer saídas fáceis nem redenções espetaculares. Sua aposta é mais modesta e, por isso mesmo, mais incisiva: mostrar que, nas vidas comuns, os traumas e as desigualdades não desaparecem por decreto. Eles permanecem como ruídos de fundo, como ausências a moldarem o presente. Ao estrear no romance com um texto de tal consistência temática e formal, Victor Vidal indica que está disposto a enfrentar, sem atalhos, as zonas sombrias da experiência contemporânea brasileira.