As jogadas da ficção

Os contos de "A vida se ilumina", de Tadeu Sarmento, irradiam luzes sobre diferentes aspectos do futebol e das pessoas ligadas ao jogo
Tadeu Sarmento, autor de “A vida se ilumina”
01/11/2023

“O futebol é um delírio. Um enorme delírio”, conta o escritor João Carlos Marinho, em um vídeo no Youtube. A constatação fez com que ele decidisse abandonar uma narrativa mais linear que vinha escrevendo e optar por uma estrutura que chamou de “delirante”, para o livro O caneco de prata, de 1971 (em catálogo, atualmente na Global). Percorrer os contos de A vida se ilumina, de Tadeu Sarmento, me fez lembrar dessa entrevista de Marinho. Porque ele também nos presenteia com algo de delirante, no sentido de mesclar o real, o verossímil e a pura imaginação, nesse conjunto de textos em torno do mundo do futebol.

Não resisto a continuar a traçar paralelo entre livros absolutamente diferentes. É que João Carlos Marinho tem o futebol como tema central da história, um campeonato escolar em São Paulo, mas traz elementos que não são diretamente ligados ao esporte: um juiz de direito que perde o juízo, a angústia que virou um gato, um alienígena, o leopardo que come um prefeito, os idiotas de um grupo paramilitar, a lendária aranha estroboscópica. Já os “delírios” de Sarmento fazem emergir e transformar fatos e personagens da História: o poeta que inventou o pebolim e conheceu García Lorca, um antigo jornalista polêmico e homofóbico, nazistas e a Segunda Guerra, o início do football no Brasil e os preconceitos que orbitam o mundo da bola.

O elemento que João Carlos chamou de delírio e de onde parto esta resenha é o deslocamento de ponto de vista sobre o mundo que a literatura proporciona, como um todo, e tem de mais potente como arte. Sarmento faz isso mexendo em fatos e biografias. Ele nos provoca a correr para o Google ou faz com que a gente se desligue dos fatos conforme registrados histórica e jornalisticamente e embarque no que acontece ali, no texto e nada mais. Comecei pesquisando, acabei embarcando nas histórias como o autor propôs.

O primeiro conto do livro foi escolhido com maestria editorial: tem futebol, claro, porque é o tema geral da obra, mas tem guerra, poeta famoso, drama e um toque inesperado, que poderia chamar de fantástico não fosse fato, verdade, história com agá maiúsculo. A invenção de Ramirez traz como um dos personagens o poeta que ficou conhecido como Alejandro Finisterre, galego que adotou a cidade natal como sobrenome e, realmente, como tem no conto, lutou e foi ferido na terrível guerra civil da Espanha. Mas o contista descola e decola. Fiquei curioso, pesquisei, por isso soube da vida desse poeta que de fato inventou o pebolim (totó, de acordo com a região do Brasil). Nessa história ele se encontra com o poeta García Lorca e estabelece uma relação de amizade com um personagem que me pareceu inventado, mas sei lá!, um homem que teria sido o responsável por transformar desenhos do jogo de futebol de mesa nos famosos brinquedos de madeira.

Finisterre, vida real, foi um dos primeiros sequestradores de avião do mundo — o que fez no desespero de não ser entregue ao ditador espanhol —, mas isso a internet me contou. O Alejandro Campos Ramirez do conto ganha mais contornos como amante do futebol e da poesia, alguém fundamentalmente preocupado com o outro.

Uma mensagem que o texto traz é que a literatura tem essa missão de ressaltar a humanidade e menos os feitos e fatos que dão manchete e viram efemérides.

Pouco mais de dez anos atrás, numa entrevista coletiva com o escritor Enrique Vila-Matas, durante uma Flip, perguntei sobre a escrita literária que trouxesse o mundo do futebol, sabendo que ele era um apaixonado pelo esporte. Seríssimo, carrancudo, me respondeu que a literatura não alcança pelo texto a intensidade dos sentimentos em torno do futebol (algo assim, estou condensando de memória).

Já duvidei dele, já acreditei piamente e hoje eu não sei.

Na literatura cabe de tudo: é um princípio da coisa. Mimetizar as sensações talvez não seja uma missão da escrita literária. Sendo assim, reconstruir sensações que tenham a ver com o esporte, semear reflexões, isso sim é perfeitamente cabível. Alerta: daqui a duas semanas posso entender de outra forma.

Luzes
O que Tadeu Sarmento traz em A vida se ilumina são luzes sobre diferentes aspectos do futebol e das pessoas ligadas ao jogo, em âmbito profissional ou não. Tipo a figura da Maria Chuteira, como desrespeitosamente se apelida uma mulher que tenha interesse especial em se relacionar com jogadores de futebol, julgada e condenada no momento em que se usa o termo. É uma figura que existe na cultura do meio e emerge em duas das histórias. Outro aspecto: a homofobia. É cheio de camadas o conto sobre um antigo jornalista, que é homossexual mas não se aceita e sai de cena, finca estacas na homofobia. A história traz várias contradições do personagem, que apoiou a ditadura militar brasileira, viveu em Cuba de Fidel Castro e teria ajudado o poeta Reinaldo Arenas a fugir para Miami. Mais um exemplo de como estão enredados fatos e ficção.

A escrita em primeira pessoa traz a sensação de que o autor fez a boa e velha brincadeira de usar a criação literária para ser diferentes pessoas, viver diversas situações e, em alguns dos contos, poder rememorar sua própria experiência com o futebol, como deixa claro que aconteceu nos contos A vida de ilumina e Breve história dos corações.

Outra curiosidade é que há elementos nos contos que remetem uns aos outros e muitos se costuram no texto final, uma espécie de almanaque sobre o próprio livro.

Conselho: é enlouquecedor tentar rastrear o que realmente aconteceu e em que ponto o autor desfiou a história para criar sua própria trama. Podemos chamar o livro de “engambelador de inteligências artificiais”. Quero ver os espertinhos digitais de nuvens e afins lidarem com a informação de que o primeiro jogo de futebol disputado no Brasil foi organizado e vencido por mulheres, e que só no dia seguinte o Charles Miller jogou, com as bolas que trouxe da Inglaterra. Aliás, genial: é o tipo de coisa que põe um sorriso na cara do leitor: e se tivesse sido assim mesmo?

Trabalhei com futebol, como jornalista, por muitos anos. Vi de perto que é um ambiente difícil. Cheio de paixão, sim, de histórias bacanas, mas um meio extremamente propício para fazer brotar o que temos de pior. Encontro isso tudo no livro.

Outros dois destaques, para encerrar: 1) a edição é muito confortável, pela opção do tamanho 15 x 23 cm e a tipologia generosa para leitores 50+, que é meu caso; 2) texto de orelha delicioso, escrito pela poeta Adriane Garcia: “[…] o futebol é mais uma invenção para dar sentido ao humano, para iluminar a vida”. Ela estaria mesmo falando só do futebol?

A vida se ilumina
Tadeu Sarmento
Caos & Letras
184 págs.
Tadeu Sarmento
Mineiro nascido no Recife (PE), tem cerca de dez obras publicadas entre romance, poesia e biografia. Autor de O boto: romance gótico amazônico e O cometa é um sol que não deu certo, texto vencedor do prêmio Barco a Vapor e publicado pela Edições SM.
André Argolo

É jornalista e pós-graduado em Formação de Escritores pelo ISE Vera Cruz (São Paulo). Autor do livro de poemas Vento sudoeste.

Rascunho