O livro Todo mundo rodopia enquanto rodopia o mundo foi o jeito que André Gravatá encontrou para contar a história dos seus pais. Usou a arte e a poesia para expor suas memórias.
Seu José por muitos anos foi pedreiro e dona Josefa, costureira. Aos sessenta anos, viraram artesãos. O responsável pela virada foi o tio Raimundo, que os desafiou a criar seus próprios brinquedos. Nascidos em Paripiranga, no sertão da Bahia, vieram para São Paulo, onde André nasceu. É com a madeira que seu José busca no sacolão do bairro que ele faz seus bonecos; Josefa usa tinta para pintar as roupas e as estampas. A escolha dos personagens não tem muito a ver com a origem de José e Josefa. Mané Gostoso é um boneco típico de Pernambuco. Caruaru e Camocim de São Félix são as cidades onde ele é mais popular. Mané Gostoso é vendido em feiras, ao lado de bancas com comidas, roupas, utensílios de casa… Foi em 1940, em Camocim de São Félix, que Otávio José da Silva, um menino de dez anos, criou o primeiro boneco usando apenas sementes, retalho e cordas. Quando mostrou sua invenção ao pai, ele voltou aos tempos de criança: ficou horas brincando com o boneco e falou: “Que brinquedo gostoso!”.
Mais velho, aos dezesseis anos, Otávio se mudou para Caruaru, onde além de vender seus bonecos na famosa feira de artesanatos da cidade, tinha também mais gente para observar e se inspirar. Mané Gostoso nada mais é do que o retrato das pessoas que ele observava.
Duas varetas verticais e cordões constituem um boneco todo articulado. Mané Gostoso é construído de tal jeito que ao pressionar levemente as duas varetas verticais com as mãos, o boneco voa, salta, se mexe de um lado para o outro.
O boneco reflete seu José e dona Josefa, que se moveram tanto quanto ele ao longo da vida, ao trocar o Nordeste por São Paulo. Por um tempo, construíram casas para os homens morarem e roupas para eles vestirem. Agora eles constroem saltos e cambalhotas que dançam com o vento.
Para narrar esse destino poético dos pais, André contou com o auxílio de Ana Matsusaki, que articulou o enredo com suas imagens. Sem o fio que costura cada parte de Mané Gostoso, o boneco não se movimenta, e o mesmo acontece com o livro.
Os movimentos
Ana recebeu fotos, referências e começou seus movimentos com as imagens. Recortes, desenhos, colagens foram dando forma, cor ao texto de André e aos movimentos de seus pais. Imagens articuladas entre as técnicas e as páginas do livro se movem junto com a narrativa textual, lembrando as manobras dos bonecos feitos pelas quatro mãos.
As imagens começam em páginas à esquerda, seguem para a página da direita. E, repare, é você, leitor, quem as movimenta de um lado para o outro quando vira a página. Virar a página aqui funciona do mesmo jeito que pressionar as hastes verticais do Mané Gostoso. Não sabemos qual salto ou pirueta iremos encontrar na página seguinte.
Não à toa o livro é vertical, como o Mané Gostoso.
Na capa, um pássaro nos convida a entrar no livro com um homem preso em suas penas. Nas páginas seguintes, encontramos as partes soltas do boneco, voando. Pernas, cabeças, braços e pés, todos coloridos, estampados prontos para se encaixarem. Eles flutuam em um fundo azul no verso da capa. Não demora, e as quatro mãos aparecem nas páginas seguintes junto com as partes do boneco. Mas atenção: elas escapam, voam, ganham forma e se movimentam. Num jogo lúdico, as imagens começam a tomar forma e a desenhar outros movimentos.
André conta quando foi conhecer a cidade de onde seus pais vieram. “Fui junto para ver o lugar de onde brotaram os movimentos mais antigos que me antecederam.”
E foi observando a natureza, a vegetação, a fauna e a flora daquele lugar que André percebeu “como se o vento sussurrasse: Todo mundo rodopia quando rodopia o mundo”.
No final estamos todos articulados, os pais do André, o André, a Ana Matsusaki e nós, leitores. Criando a cada movimento um sentido para uma história. Abrir este livro é compartilhar com o André a certeza de que “Todo mundo rodopia quando rodopia o mundo”.
Para quem quer seguir os passos de José e Josefa, Rafa da Rabeca, originário de Pernambuco, resgatou esses brinquedos de sua infância em Camocim e Caruaru e se tornou professor de tradições e da cultura popular, como a música, a poesia e os brinquedos. Hoje, ele ministra oficinas e cada vez mais gente aprende a fazer o Mané Gostoso e a se encantar com seus rodopios.