Em 1995, após se demitir da universidade em que lecionava, a professora Azar Nafisi escolheu sete alunas para formar uma espécie de turma especial, um grupo cuja leitura e discussão seriam um respiro de liberdade. Essas mulheres se reuniriam semanalmente, às quintas-feiras, na casa da mestra. Lá, por algumas horas, por meio da literatura, estariam, em certa medida, fora do controle rígido que imperava no Irã. Estariam nos livros, onde não havia fronteiras.
Essa é uma das histórias presentes em Lendo Lolita em Teerã, da iraniana Azar Nafisi. A obra, publicada originalmente em 2003 e celebrada em boa parte do mundo, agora ganha tradução no Brasil.
Grosso modo, é um livro de memórias, mas a definição me parece injusta, ou no mínimo limitante. Há algumas possibilidades de leitura, o que permite múltiplos caminhos e interpretações ao leitor/à leitora. Há quem possa ver como um livro sobre Azar Nafisi, nascida em 1955, e sua relação com o país natal; outra forma de enxergá-lo é como uma ode à importância da leitura e da literatura, principalmente em um local que reprime a cultura e a liberdade individual; uma terceira maneira é como um livro de reflexões sobre alguns clássicos ocidentais. Eu prefiro um quarto tipo, que engloba todas as anteriores. Com quase 500 páginas, é difícil não se sentir tocado em algum momento pela obra.
Contextualizo. Escrito no começo do milênio, Lendo Lolita em Teerã foi produzido quando Azar Nafisi já morava e lecionava nos Estados Unidos, em fins dos anos 1990. Filha de uma família de classe média alta dotada de capital cultural, econômico e político, Azar viveu até os 13 anos no Irã, depois morou na Inglaterra e fez doutorado em literatura inglesa nos EUA. De volta ao país natal, passou a dar aulas na Universidade de Teerã em 1979 — o ano da Revolução Islâmica.
A partir de suas memórias, a autora reconstitui a própria vida em sua terra natal e o impacto causado pelo governo dos aiatolás. Porém, o texto não caminha de forma linear e única. Além de falar sobre si mesma, ela escolheu quatro autores e suas obras para comentar e analisar à luz do que vivia naquele país: Vladimir Nabokov e Lolita, Scott Fitzgerald e O grande Gatsby, Henry James e Daisy Miller e Jane Austen e Orgulho e preconceito — daí uma das belas sacadas do trabalho.
Sentimentos ambíguos
Jean-Paul Sartre considerava que a experiência individual não poderia ser descolada do local onde a pessoa estava inserida, da experiência social dela, e Lendo Lolita em Teerã talvez seja um livro que funcione perfeitamente para uma análise sob essa ótica. Azar, uma grande conhecedora de literatura inglesa, vivia sob sentimentos ambíguos: por um lado, era feliz ao dar aula e discutir literatura em uma universidade; por outro, era infeliz ao dar aula e discutir em uma universidade sob um regime como aquele:
Como ensinar quando a maior preocupação dos funcionários das universidades não era a qualidade do trabalho que se fazia, mas a cor dos lábios ou o potencial subversivo de uma única mecha do cabelo? Alguém podia realmente se concentrar no próprio trabalho quando o que preocupava o corpo docente era de que modo eliminar a palavra vinho de um conto de Hemingway, ou quando eles decidiam não ensinar Emily Brontë porque aparentemente ela aprovava o adultério?
A Revolução Islâmica causou a derrubada do xá, que comandava uma monarquia com apoio dos Estados Unidos. Não à toa, o país norte-americano passou a ser chamado de “Grande Satã” pelo novo regime. Para além da mudança política, os costumes foram alterados e fiscalizados. Mulheres não podiam andar ao lado de homens que não fossem o marido ou um familiar. Milícias foram criadas para fiscalizar as normas e condutas, e qualquer pequeno erro, como se maquiar, poderia resultar em chibatada, prisão ou condenação à morte.
O fato de a cultura ter sido alterada de forma imposta marcou a autora. Ela se lembrava do Irã de sua infância e das histórias de sua família, que puderam viver sob liberdade, escolhendo com quem se casariam, indo ao cinema, ouvindo música. Já o Irã no qual viviam suas alunas, bem… era um gerador de revolta, em muito silenciosa, já que o regime matava oponentes, inclusive intelectuais públicos.
Ao longo dos anos 1980 e 1990, além de dar aula na Universidade de Teerã, da qual ela saiu antes que fosse expulsa, ela ministrou em uma instituição mais liberal, a Universidade Allameh Tabataba’i, da qual também saiu quando se cansou.
É nas memórias sobre as aulas e afins que se vê toda uma teia de articulação, manipulação e convencimento de ideias do regime. O romance O grande Gatsby, por exemplo, quando Azar Nafisi discutiu na faculdade, tornou-se uma espécie de símbolo do que os EUA representavam para os aiatolás e para quem aderiu às ideias do regime. De modo geral, no debate com os alunos, houve uma condenação ao estilo de vida de Gatsby, uma leitura moral da obra. A maior parte dos alunos que se manifestava não entendia que aquilo era, também, uma crítica aos excessos. Aos poucos, Azar foi se cansando e compreendendo que, ali, a liberdade seria cada vez mais sufocada. Não havia só a dominação dos corpos: a mente também havia sido ocupada.
A liberdade em Teerã
Após deixar de dar aulas em 1995, Azar Nafisi decidiu montar uma turma especial, com sete alunas. Os encontros, semanais, às quintas-feiras, em sua casa, foram, inicialmente, para discutir literatura. Aos poucos, porém, tornaram-se um espaço que foi além disso. A casa se transformou em um símbolo de liberdade para aquelas mulheres, em Teerã, mesmo que de forma mínima. Ali, sem o véu, elas se mostravam maquiadas, com unhas pintadas. Elas faziam piadas e riam, fofocavam entre si e, aos poucos, compartilhavam problemas, como a infelicidade diante do regime sob o qual viviam e a violência que sofriam em casa, nas mãos dos maridos.
“Por quase dois anos, todas as quintas-feiras pela manhã, chovendo ou fazendo sol, elas iam a minha casa, e, na maior parte das vezes, eu não era capaz de superar um sobressalto no momento de vê-las sem seus véus e túnicas, explodindo em cores. Quando minhas alunas entravam na sala, tiravam mais do que seus véus e túnicas. Gradualmente, cada uma delas ia ganhando contorno e forma, tornando-se singular. Nossa vivência ali naquela sala era sagrada, e nosso universo autossuficiente desdenhava da realidade dos véus negros e rostos acanhados na cidade lá fora.”
Azar Nafisi se alimentava das trocas com as alunas, e vice-versa. Era uma relação, de certa forma, de projeção, de busca por um lugar seguro. A autora, por sua vez, também tinha uma espécie de mentor, o professor R., a quem ela chamava de “meu mágico”. Ele, um ex-professor universitário, vivia em um apartamento sozinho e, vez ou outra, realizava conversas em sua casa. Alguns dos melhores diálogos do livro ocorrem com ele — o mestre é uma espécie de consciência crítica do que acontecia no Irã, jogando luz sobre as incertezas da pupila, apontando caminhos.
Eu já disse, anteriormente, que uma das possibilidades de leitura é como um livro de memórias. Quanto à análise literária feita pela escritora, gostei muito da leitura que ela fez de Lolita, do jogo proposto por Nabokov: o de um homem mais velho, narrador, que domina e fantasia uma paixão por uma garota de 12 anos, e que espera o mesmo por parte dela. Em pleno 2026, há quem ataque o livro, o autor, como se se tratasse de uma obra simplesmente machista, não entendendo o que é mostrado de fato ali. Azar Nafisi entendeu e foi além. No livro, ela ainda compreendeu que Lolita perdeu o controle de sua vida, algo que ela e as alunas entendiam bem, já que viviam em Teerã.
A prosa de Humbert, às vezes modificada num floreado, pretende seduzir o leitor, especialmente o leitor culto, que poderá ser iludido por essa ginástica erudita. Lolita pertence a uma categoria de vítimas que não têm proteção e a quem jamais foi dada a oportunidade de articular a própria história. Assim, ela se torna vítima duas vezes: não somente sua vida, mas também a história de sua vida lhe é retirada. Dissemos para nós mesmas que estávamos naquela classe para impedir que nos tornássemos vítimas desse segundo crime.
Lendo Lolita em Teerã é repleto de diálogos, o que dá fluidez ao texto. E há um cuidado com o estilo, muito acertado. A autora, por vezes, narrou conversas por meio de aspas; em outros momentos, utilizou travessão; ela também usou discurso indireto livre — todos se encaixaram. Há momentos em que a escritora propôs uma conversa direta com o leitor — “Pergunto-me se você pode nos imaginar” —, o que dá uma ideia de diálogo com quem está com o livro em mãos.
Em um momento de grande exposição do “Eu”, principalmente nas redes sociais — o que é o Instagram senão um grande cartaz com cada um de nós se exibindo, em maior ou menor grau? —, ler um livro sobre o outro, escrito em primeira pessoa, por meio da memória, parece-me um belo exercício de alteridade. Interessar-se pelo que o outro tem a dizer, às vezes sobre algo que não tem relação direta com o “Eu”, ganha novos contornos em 2026.
1979 é logo ali
Durante toda a leitura do livro, não houve como não pensar nas questões atuais do Irã. A principal delas, claro, o fato de os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, terem feito um ataque e matado, entre outros, o então líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei. É claro que a medida foi uma agressão a um país soberano, mas me soou estranho ver tanta gente defendendo o Irã com unhas e dentes. Um dos principais motivos, claro, é a forte oposição aos norte-americanos. Lendo Lolita em Teerã mostra que atacar um adversário não faz do território um local tão amigável.
(Justiça seja feita, claro. O relato de uma pessoa não define o que de fato é um país. Mas, dado tudo o que se sabe, bem, o Irã não me parece o local mais calmo para quem gosta e defende as liberdades individuais.)
Por outro lado, enquanto pensava sobre isso, uma ideia me vinha à cabeça: 1979 não está tão distante de 2026. De nós. No período letivo 2024-2025, 6.870 livros foram banidos temporária ou permanentemente nos Estados Unidos. Um dos motivos? O movimento conservador chamado Maga (Make America Great Again), que vê as artes como um espaço de tudo aquilo contra o que eles se posicionam. E o problema não tem sido só lá.
Aqui, nas terras tupiniquins, o sol não brilha diferente, infelizmente. Em anos anteriores, O avesso da pele, de Jeferson Tenório, foi recolhido, inicialmente, de uma escola no Rio Grande do Sul, depois em outros estados, como no Paraná. Décadas atrás, o mesmo aconteceu com Cristovão Tezza, quando obras como Juliano Pavolini e Aventuras provisórias também foram censuradas. Até Dalton Trevisan (1925-2024) viu seu livro Violentas e pavões retirado do vestibulinho de acesso ao Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa em 2012.
A certa altura de Lendo Lolita em Teerã, Azar Nafisi escreveu que o regime era tão severo no dia a dia que pequenas ações como festejar, tomar sorvete e usar batom eram comemoradas quando aconteciam. Ao ler sobre o que acontecia por lá, espero que essas ações sigam sendo comuns por aqui.