Certa vez, ao ser perguntada sobre sua poesia, a canadense Anne Carson afirmou que não era poeta. “Homero sim é um poeta. Eu diria que eu faço coisas.” Quem conta essa história é Dinitia Smith em uma matéria de 2004 publicada no The New York Times. Vinte anos depois, essa autodefinição ainda é capaz de nos dizer algo sobre os seus livros. Quanto mais eles chegam ao Brasil, mais nos perguntamos a que gênero pertencem. Como acontece agora com Vidro, ironia e deus, publicado originalmente na década de 1990.
Nenhum texto nesse volume é igual ao outro. E, operando no limiar entre a prosa e o verso, também não sabemos se estamos lendo ensaios ou poemas, histórias ficcionais ou documentais, estudos ou criação literária. A fronteira entre essas categorias se dissolve nas mãos de Anne Carson.
Vidro, ironia e deus é um livro importante para compreender a trajetória de Carson. Ele vem a público poucos anos depois de Eros, o doce-amargo e alguns anos antes de Autobiografia do vermelho, duas das obras responsáveis pelo sucesso de Carson, e publicadas nos últimos anos no Brasil. Digo que Vidro, ironia e deus é um livro importante porque se fizermos um pequeno sobrevoo de leitura nos textos que se encontram nele, teremos pistas de tudo o que Carson faria nos anos seguintes em sua carreira como escritora.
O primeiro texto da obra se chama Ensaio de vidro. Nele, lemos uma elaboração do fim de seu relacionamento com alguém chamado “Lei”. Depois da separação, a narradora volta para a casa da mãe viúva, onde ambas compartilham a solidão. Isso nos é contado em uma série de poemas que compõem a seção. Estamos diante de um conjunto de poemas líricos sobre o luto amoroso?
No entanto, conforme lemos esses poemas, somos apresentados também a outro tema do Ensaio de vidro: as leituras que Carson faz da obra de Emily Brontë. Ela se pergunta, por exemplo, sobre dois versos de um poema que Brontë escreveu sobre uma mulher na prisão, debatendo com seus críticos qual é o sentido de “Liberdade” que se inscreve no poema. Então se trata de um ensaio de crítica literária? Misturar autoficção lírica e crítica literária será cada vez mais comum nos livros posteriores de Carson.
No segundo texto, A verdade sobre Deus, Carson elabora em alguns poemas certa experiência do sagrado. “Minha religião não faz sentido/ e não me ajuda/ por isso eu a pratico”, ela diz. A verdade sobre Deus também abre espaço para especular certas questões teológicas, como, por exemplo, por que Deus encarnou como Cristo: “Deus não tinha emoções mas desejava temporariamente/ mover-se na mente do homem/ como se tivesse: Cristo.” A essas especulações metafísicas, Carson acrescenta questões bastante materiais, como se tentasse fazer um curto-circuito entre o alto e o baixo: “Tenho um amigo chamado Jesus,/ ele é do México.// Seu pai e seu avô também se chamam Jesus./ Consideram-me uma tola com minhas perguntas sobre a Economia da Salvação./ Dizem que estão economizando para ir morar em Los Angeles”.
Baixa e alta cultura
Tal curto-circuito também será mobilizado em sua obra para misturar alta e baixa cultura, assim como a referência aos clássicos e aos contemporâneos. É o que acontece no terceiro texto da obra, Homens da TV, que traz pequenos comentários biográficos sobre as seguintes figuras: Heitor (o herói troiano), imaginando-o assimilado à lógica da televisão; o dramaturgo Artaud e sua loucura; Sócrates e sua morte; a poeta Safo; e o “adormecido”.
Quanto ao jogo entre o alto e o baixo, o antigo e o moderno, o seu Sócrates, por exemplo, está à espera de sua própria morte quando cantarola uma canção chamada “A TV não é um jogo”. E a dívida com Asclépio do Fédon de Platão se torna outro tipo de dívida: “Ao sairmos o guarda mencionou uns cigarros que Sócrates tinha pedido para ele comprar”.
O texto seguinte, A queda de Roma: guia de viagem, repete o dispositivo ao realizar um diário especulativo sobre a viagem, a figura do estrangeiro, os afrescos em templos cristãos e a santidade em 70 textos fragmentários feitos a partir de uma estadia na cidade. Com isso, assimila, a partir da experiência individual, reflexões sobre a decadência histórica, a deterioração cultural e a morte.
Em Livro de Isaías, Carson recria a relação de Isaías com Deus a partir da hipótese de que é no livro bíblico do profeta que o pecado toma a sua forma mais nítida. “Isaías acordou com raiva”, ela escreve. “Ondulando junto aos ouvidos de Isaías um canto negro de pássaro, não, era raiva.// Deus tinha enchido os ouvidos de Isaías com ferrões.// Antigamente Deus e Isaías eram amigos. (…) Isaías amara Deus e agora seu amor tinha se transformado em dor./ Isaías queria dar um nome à dor, chamou-a de pecado.” Ao reimaginar a experiência de Isaías e reescrever a sua história, Carson revela o centro de seu impulso criativo: a leitura se confunde com a escrita.
Ler a impulsiona para a criação. É como se esses dois atos fossem indistintos. Para ler Emily Brontë, para ler o livro de Isaías, para ler o Fédon de Platão, para ler qualquer coisa, Carson tem uma caneta nas mãos. E essa caneta só escreve a partir daquilo que Carson lê. É isso o que faz dela uma pessoa com um pé no passado clássico (para ela, os gregos, fundamentalmente) e outro no presente (junto a Beckett, Virginia Woolf, Francis Bacon, Paul Celan, Gertrude Stein, para citar algumas de suas referências). Graças à identidade entre ler e escrever, temos também uma identidade entre pensamento e criação, razão e sensibilidade e, talvez o mais importante de tudo, citação e crítica.
Amor e ódio
O passado clássico é um arquivo que Carson ama e rasga ao mesmo tempo. Se esse amor foi declarado em Eros, o doce-amargo e em Autobiografia do vermelho, sua raiva aparece em Vidro, ironia e deus. Em especial no último texto do volume, O gênero do som (traduzido pela primeira vez há alguns anos, por Marília Garcia, na revista serrote). Nesse texto, que é o único em prosa dessa obra, lemos uma crítica bastante dura à tradição ocidental de submissão e controle das mulheres por meio dos usos da voz. Aprendemos com a classicista que o patriarcado que ainda faz inúmeras vítimas de feminicídio tem raízes profundas nos gregos, marcando presença tanto na filosofia de Aristóteles como nos versos dos poetas mélicos arcaicos. “Colocar uma porta na boca feminina tem sido um projeto importante da cultura patriarcal desde a Antiguidade até os dias atuais”, diz Carson. “Sua principal tática é uma associação ideológica do som feminino com a monstruosidade, a desordem e a morte.”
Isso não impede que Carson continue amando o passado clássico e lendo tanto os poetas mélicos como Aristóteles. A escritora não joga fora o conjunto dessas obras, mas também não tenta justificar o conteúdo violento que se inscreve em algumas partes desse tesouro que nos foi legado. Ela examina esse tesouro como um arquivo vivo. Essa postura de atualização do arquivo da tradição (por meio de citação rigorosa e rasura crítica) será uma marca de toda a sua obra, atingindo o seu ápice no volume Antigonick, em que Carson realiza uma tradução experimental dessa heroína que se tornou uma figura mítica da insubmissão no Ocidente.
Vidro, ironia e deus é uma obra fundamental para compreender as bases da atuação de Carson — que deve ser lida não apenas como poeta, mas também como pensadora. Tudo isso com o despojamento de uma linguagem acessível, sem arcaísmos esnobes nem academicismos que poderiam distanciar o grande público. Nesse sentido, Adriana Lisboa realizou um trabalho acertado, preservando a sintaxe ágil e o vocabulário simples de Carson, sem, no entanto, abrir mão nem do rigor filológico do vocabulário escolhido pela autora nem da estranheza característica de seus textos. Porque Vidro, ironia e deus é um livro estranho, que provocará ruídos no ouvido do leitor.