Começo pelo fim. Haroldo de Campos conclui o ensaio inspirador sobre sua interpretação de trechos do Fausto II com uma definição incisiva da sua própria versão e, em geral, da tradução engenhosa (por ele chamada “transcriação”): “Flamejada pelo rastro coruscante de seu Anjo instigador, a tradução criativa, possuída de demonismo, não é piedosa nem memorial: ela intenta, no limite, a rasura da origem: a obliteração do original. A essa desmemória parricida chamarei ‘transluciferação’”.
O ensaio, intitulado Transluciferação mefistofáustica, aparece como post scriptum na obra Deus e o diabo no Fausto de Goethe: marginália fáustica.
Seguindo a linha do título, a metáfora da rebeldia atravessa todo o texto, virando de ponta-cabeça conceitos historicamente consagrados sobre a fidelidade na tradução. Bem ao estilo haroldiano, o texto, como o título, é recheado de neologismos e, sobretudo, de ideias provocadoras sobre o processo tradutório.
Parte importante do texto de Haroldo de Campos se baseia em suas leituras de conceituações que os filósofos Walter Benjamin e Jacques Derrida elaboram sobre a tradução: trata-se de uma operação de rebeldia diante do original, de não subserviência, de criação, transcriação, revolução, inversão de papéis (o original se transforma na tradução de sua tradução), de transluminação, de não humildade — e até de certa arrogância/ousadia criadora.
O tradutor, fortalecido pela consciência de autonomia, toma posse do original e passa a manipulá-lo segundo sua própria estratégia interpretativa, visando à transcriação. O resultado é a inversão de papéis mencionada acima, que resulta na transformação do texto traduzido em original — e aqui cabem muito bem pelo menos duas acepções desta palavra, uma substantiva, outra adjetiva.
A postura ativa do tradutor diante do texto primeiro — única forma considerada válida por HC no trabalho de versão literária — repele qualquer nível de subserviência e remete a uma verdadeira usurpação: “Assim, nada mais estranho à tarefa do traduzir, considerado como uma forma […] que aspira a uma fidelidade — hiperfidelidade — a outra — […], do que a humildade”.
Haroldo de Campos alude a uma fidelidade de qualidade superior — pelo menos em hipótese —, na qual o autor da versão se esforça por captar e, em seguida, expressar o conteúdo essencial aliado à forma original, podendo tranquilamente, sem culpa, modificar o conjunto do conteúdo, no intuito de preservar o fundamental e, se necessário, dispensar o supérfluo.
A fidelidade se revela como transgressão, rejeitando vazar o conteúdo, tal como supostamente se apresenta no original, caso sua nova expressão não se ajuste à forma proposta no texto primeiro — entendendo-se, aqui, a escritura artística, literária, em especial a poesia. No dizer de Haroldo de Campos, verifica-se “o transgredir da relação aparentemente natural entre o que dicotomicamente se postula como forma e conteúdo”. O par é desarticulado para remontar-se, em nova configuração, no texto de chegada.
Essa estratégia tradutória subversiva inclui movimentos como a “compensação”, ativamente empregada e ilustrada por HC, na qual perdas pontuais — ou seja, omissões de elementos essenciais — no processo interpretativo podem ser recuperadas em outros trechos do texto.
Trata-se, claro, de intervenção substantiva na escritura original, que não deixa de abrir o flanco a naturais críticas no tocante à fidelidade (no sentido mais convencional) da versão. Mas a defesa haroldiana é robusta. Lê-se, em meio à análise de diferentes conceitos de “fidelidade”, uma sustentação hábil, erudita e convincente de sua “hiperfidelidade”. Prenúncio de uma possível hipertradução.