Antoine Berman e a tradução da letra

Antoine Berman e a tradução da letra
01/11/2008

Há teóricos e práticos da tradução que defendem uma tradução literal, ou, de certa forma, literalizante. Antoine Berman se pode inscrever nessa categoria. O autor e teórico francês, de certa forma, cria uma classe especial dentro dessa categoria. Em um de seus principais textos, que pode ser conferido em português (A tradução e a letra ou o albergue longínquo, Editora 7Letras, 2008), Berman desenvolve uma reflexão (não uma “teoria”, segundo ele mesmo frisa) bastante interessante sobre o que poderia ser uma tradução “literal”. Cria um conceito de “literal” que ele mesmo define como “poético” (e, portanto, criativo).

Nada de traduzir palavra por palavra. Berman invoca uma literalidade distinta. Não algo que possa lembrar o decalque ou a mera reprodução, mas aquela que trabalha sobre a letra (e não apenas sobre o sentido) para tirar da letra a tradução. Refuta a tradução “etnocêntrica” (em certo sentido, “naturalizante”), fundada na crença da superioridade de uma língua (para a qual se traduz) sobre outra. Refuta a tradução “hipertextual”, que gera textos por processos imitativos. Refuta, por fim, a separação “platônica” entre letra e sentido, que, na corrente tradutória ocidental, teria produzido o desprezo pelo material (“letra morta”) em favor do espiritual (o “sentido”).

O tradutor francês de Augusto Roa Bastos rejeita a idéia de que tradução é captação de sentido, é desdenhar a casca para desfrutar a polpa. A letra não é casca, nem há polpa nenhuma a desfrutar, pois a fruta mesma, inteira, é a letra. Para Berman, a tradução deve ser ética (e não etnocêntrica), poética (e não hipertextual) e pensante (e não “platônica”). Traduzir seria um exercício ao mesmo tempo ético, poético e pensante (ou “filosófico”).

O ético aqui pode significar a busca de vínculo o mais próximo possível com a “verdade” (tal como expressa na letra do texto), enquanto o poético corresponderia ao elemento ao mesmo tempo criativo e fundamente calcado na materialidade das palavras (é na poesia que letra e sentido criam vínculo o mais dificilmente dissolúvel). O pensante, para Berman, seria privilegiar a reflexão (e o trabalho) sobre o texto (como unicidade, como letra) em detrimento da concepção (antifilosófica) de categorias estáticas e irremediavelmente separadas (“corpo” e “alma”, “letra” e “sentido”).

Boa parte da argumentação do autor francês se encontra na definição de tipos de “deformação” provocados no texto pela forma “tradicional” de tradução na tradição ocidental. São essas deformações (racionalização, clarificação, alongamento, enobrecimento, empobrecimento, homogeneização, etc.) que a proposta de Berman procura contornar. Não é tarefa fácil. Algumas vezes, até, pode-se não querer contorná-las (porque podem ser úteis a determinados propósitos ou estratégias tradutórias). Mas, para Berman, devem ser evitadas porque deformam a letra (que é justamente o que precisa ser traduzido).

Do texto, Berman elege a letra. Há algo no texto que não é letra? Não seria o sentido a mera proliferação de letra em letra mesma? Letra sobre letra. Aí faz mais que sentido identificar a tradução à captação da letra, e não do sentido (sendo o sentido, letra ele mesmo, já uma espécie de deformação da letra, pela tendência proliferante do texto). A letra seria o “original” do original, aquilo que ninguém pode falsear, algo que nenhuma interpretação pode deturpar. Pobres do texto, da letra, e de todos nós (inclusive de Berman) que da tradução (hipertextual) ninguém está livre.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

Rascunho