A voz fina, ainda em formação, infiltra-se pela estante de livros que separa a sala do escritório: “Papai, calça é com U ou com L?”. Estamos escrevendo. Eu, no computador. Ela, as pernas delicadas enroscadas num cobertor, ali no sofá, empunha um lápis — a voracidade das ideias espalha-se em palavras escritas à mão em folhas de sulfite. Somos dois escritores a dividir a mesma casa. Há um reino, cujo nome lembra uma marca de detergente, uma princesa e seu diário repleto de inquietações. Preciso decifrar o que se esconde por trás de algumas palavras. “Tem palavras que não sei como escreve.” “Não se preocupe, filha, vou corrigir e deixar tudo certo.” A princesa se chama Esmeralda. Me parece um bom nome — algo valioso, forte, bonito. Há algum tempo, recebi a missão: editar e preparar os originais de um romance que promete muitas aventuras confessadas pela princesa ao seu fiel escudeiro, um diário.
Naquele tempo, eu não sabia onde as palavras me levariam. Havia iniciado minha biblioteca com livros comprados numa banca de jornais — uma coleção de capa dura que, passados quase quarenta anos, segue me fazendo companhia, como se fosse uma herança, um tesouro encontrado no fundo do mar. Estão todos alinhados no canto da maior estante da casa-biblioteca onde hoje vivo. As capas azuis reluzem um tempo de dificuldades e incertezas. Todos aqueles quase cem livros serão parte da herança afetiva legada aos meus filhos. Após almoçar na cozinha do jornal em que trabalhava desde os 13 anos, eu descia as escadas rumo à garagem improvisada como escritório, espécie de calabouço. Ali, num silêncio úmido, pegajoso e um tanto claustrofóbico, sentava-me a uma mesa diante da máquina de escrever. Dedilhava com rapidez e destreza graças ao curso de datilografia feito em máquinas Olivetti. Dava vida a poemas de rima quebrada, versos infantis e imagens previsíveis. Os finais dos contos, alguns bem longos, eram trágicos, infelizes, envoltos em algum tipo de violência. Sentia-me, naquela adolescência de muitos pesadelos, um escritor a mudar os rumos da vida. Tenho alguns dos poemas e contos guardados numa caixa metálica. Todo final de ano, ao fazer a faxina na imensa biblioteca, penso em jogá-los fora. Algo segura minha mão e me impede de me desfazer daqueles escritos juvenis e inocentes.
Esmeralda é uma personagem interessante. Princesa de um reino em lugar incerto. A questão geográfica não tem nenhuma importância à trama. Tem gostos um tanto excêntricos para uma delicada princesa: filmes de terror, pudim, outono e pegadinhas. Tenta equilibrar o terror e as pegadinhas com pudim e outono. Espero que isso faça algum sentido no decorrer da narrativa. Esmeralda tem uma irmã chamada Stter — a grafia do nome, confesso, causa-me alguma estranheza. Por que os reis deram nomes tão distintos às filhas? As princesas têm animais de estimação: um pato e um coelho. Eu nunca tive animal de estimação. Na infância, alguns cachorros sarnentos e famélicos apareciam no terreiro de casa. Mas a comida rala e a nossa indiferença os espantavam sem nenhum remorso. Logo na primeira página, descubro o que tanto incomoda Esmeralda e será, com certeza, o centro das anotações no diário: o amor. Ou a repulsa a ele. O reino é um lugar lindo e cheio de amor. Mas, para meu espanto e diversão, Esmeralda logo destrói qualquer vislumbre de conto de fadas: “O amor é a coisa mais estúpida de todas. Eu odeio sentir o amor”, escreve. Quando estamos sozinhos no sofá ou embolados na cama, M., minha filha escritora, diz com frequência: “Papai, eu te amo muito”. Esmeralda é só um personagem.
Eu sentava na última fileira do cursinho para o vestibular. Era um jovem a sonhar com o futuro, a manusear palavras: o curso de jornalismo abriria as portas a um mundo inimaginável — eu viveria de escrever, algo impensável para meus pais semianalfabetos. Lá no fundo, numa manhã preguiçosa, o quadro negro transformou-se em um borrão, algo opaco e tremido. A ida ao oftalmologista decretou minha miopia às portas da vida adulta. Os óculos me acompanham até hoje. Gosto deles; fazem parte da geografia do meu rosto. Há pouco tempo, M. também colocou óculos. Fizemos uma romaria por várias óticas até encontrarmos o modelo ideal para a menina de rosto quadrado, cabelo escorrido e olhos grandes. “Papai, escritores usam óculos”, disse-me, sem disfarçar o orgulho de ter a visão corrigida pelas lentes. Mas, lá no fundo daquela sala de cursinho, já míope e daltônico, certo dia escrevi um poema. Era curto, visual, de poucas palavras, sobre Deus — ou a ausência dele —, meu agnosticismo e a desilusão de nunca saber ao certo o que ele pensava quando meu pai chegava em casa bêbado e espancava minha mãe e nós, os três filhos pequenos. Sempre me digladiei com o divino nas minhas entranhas. Enfim, é o único poema que recordo até hoje, verso por verso. E, com ele, ganhei um prêmio literário numa cidadezinha ao lado de C. A módica, quase ridícula, premiação em dinheiro garantiu a compra de um garrafão de vinho. Feito um poeta maldito, convidei um amigo — que recentemente morreu devido ao alcoolismo e ao abuso das drogas — a mais um porre juvenil. Naquela época, eu era muito parecido com meu pai alcoólatra. A diferença é que eu sabia escrever; ele, não.
Sempre vejo M. escrevendo. Ela tem método e capricho. Debruça-se sobre a folha de papel sem pauta, firma o lápis com maestria e constrói as frases mantendo o equilíbrio entre a beleza da letra e a urgência das peripécias de Esmeralda. Quero acreditar que ama as palavras por conta dos muitos livros que lemos juntos antes de dormir. A leitura nos acolhe, me devolve à minha infância inexistente — leio com a certeza de que estamos construindo uma história muito particular e amorosa. Há alguns dias, M. entregou-me o manuscrito do primeiro volume — sim, será uma série de romances. E, quando estou ao computador, ela me rodeia, dá voltas, me olha com interesse e pergunta: “Papai, quando vai terminar de digitar o meu livro?”. “Não se preocupe, filha. Logo termino tudo”, digo, com alguma hesitação devido ao longo trabalho que as quase cento e cinquenta páginas me darão. M. completou 10 anos. Fizemos uma festinha aqui na casa-biblioteca para poucas pessoas: familiares e amiguinhas. Meu pai não veio — é um avô distante e amedrontador, com a aparência esculpida em anos de alcoolismo e escolhas equivocadas. Poucos dias antes do aniversário de M., ele caiu na rua, bateu a cabeça, sangrou um bocado e foi levado ao hospital. Nada grave. Já está de volta à casa, com o rosto chamuscado pela queda. Pensei em escrever algo sobre a maldição de que um dia talvez eu o encontre morto, caído na rua, assim como ocorreu com o pai dele, meu avô paterno. Mas desisti. Tenho uma escritora dentro de casa à espera de um livro sobre um reino distante — uma escritora cheia de dúvidas e certezas.
“Calça se escreve com L, filha.” “Muito obrigada, papai.”