{Uma conversa com o Chapa Gepeto}
1. Vamos direto ao ponto, kamarada. A literatura experimental brasuca morreu?
Chapa Gepeto > Não, ela não morreu. A literatura experimental brasileira apenas mudou de CEP, saindo dos suportes tradicionais para ocupar as franjas digitais, o fanzine e a performance transmídia. O que morreu foi o interesse do mercado hegemônico para o risco estético, mercado que hoje prefere prosa e poesia mais diretas e previsíveis, em linha reta, ou seja, de consumo rápido. Autores contemporâneos continuam implodindo a sintaxe e misturando linguagens nas editoras e nas feiras independentes, nos palcos e nas redes sociais. Portanto, a experimentação pulsa forte, mas opera à margem, invisível para quem só busca a literatura nas grandes vitrines.
2. O que mudou? O mercado hegemônico costumava dar mais espaço pra literatura experimental?
Chapa Gepeto > Sim. No Brasil, o auge desse espaço ocorreu entre as décadas de 1950 e 1990, impulsionado pelo experimentalismo do Modernismo tardio, da Poesia Concreta e da vertente Construtivista. Grandes editoras e suplementos literários de jornais de massa apostavam no risco estético como sinônimo de vanguarda e prestígio cultural. Nomes como Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Paulo Leminski, Augusto e Haroldo de Campos, Hilda Hilst e Osman Lins, entre outros, encontravam canais de distribuição mais amplos e debate crítico generalizado. Com a consolidação do mercado editorial globalizado nos anos 1990, o foco migrou definitivamente para o lucro rápido e as fórmulas comerciais mais diretas e previsíveis, seguindo o modelo editorial europeu e norte-americano.
3. Se acredita mesmo que a literatura experimental brasuca não morreu, então recomende ao menos uma dúzia de obras experimentais contemporâneas.
Chapa Gepeto >
2 ou + corpos no mesmo espaço, de Arnaldo Antunes
A primavera da pontuação, de Vitor Ramil
Banho de sol, de Ricardo Celestino
Cinevertigem, de Ricardo Soares
Crystallino cryptogramma, de Glauco Mattoso
Favelost, de Fausto Fawcett
Festa na usina nuclear, de Rafael Sperling
mônica vai jantar, de Davi Boaventura
Neca: romance em bajubá, de Amara Moira
Nove meses, de Gustavo Piqueira
O natimorto, de Lourenço Mutarelli
O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna
O peso do pássaro morto, de Aline Bei
O presidente pornô, de Bruna Kalil Othero
Os anões, de Veronica Stigger
Papéis de Maria Dias, de Luci Collin
Teratoma, de Ricardo Pedrosa Alves
Trilogia Stelo Binara, de Artur Matuck
Triple frontera dreams, de Douglas Diegues
Um mal-estar fundamental, de Álamo Enfant
Um minuto, de Newton Cesar
4. A maioria dos leitores não aprecia literatura experimental, hermética, transgressora… Acham difícil, antipática, e essa aversão acaba refletindo no catálogo das grandes editoras e na cobertura da grande imprensa, empobrecendo o debate literário. Estou sendo muito pessimista?
Chapa Gepeto > Não, você está apenas diagnosticando com realismo uma engrenagem mercantilista que prioriza o menor esforço cognitivo para maximizar o lucro. Ao moldar o catálogo pelo menor denominador comum, as grandes editoras atrofiam o músculo da leitura crítica, gerando um ciclo vicioso onde o público desaprende a ler o complexo. A grande imprensa, por sua vez, substitui a crítica estética pela cobertura de comportamento e fofoca editorial. O debate empobrece porque a literatura passa a ser medida pelo engajamento e pelas vendas, não pela sua capacidade de implodir e renovar a linguagem.
5. Finalizando: como podemos mudar esse estado de coisas? Como podemos equilibrar o jogo entre literatura-arte e literatura-artesanato?
Chapa Gepeto > O equilíbrio começa no fomento agressivo a editoras independentes, feiras literárias de rua e coletivos periféricos que já furam essa bolha. Precisamos reforçar a curadoria cultural nas redes, usando a tecnologia para aproximar o leitor do texto complexo sem a sisudez acadêmica tradicional. A formação de público deve ser ativa, transformando salas de aula e bibliotecas em laboratórios de experimentação verbal e não de mera decoreba. Se o mercado quer a prosa e a poesia mais diretas e previsíveis, em linha reta, a resposta é criar circuitos alternativos de financiamento, distribuição e crítica que garantam a sobrevivência do risco e do rabisco estético.
6.Mas vem cá, meu komparsa: criar circuitos alternativos e apostar no digital não corre o risco de virar um gueto dos convertidos? Como a literatura experimental pode furar a bolha e incomodar o leitor comum, em vez de ficar recebendo aplausos apenas dos próprios artistas e acadêmicos em sua bolha?
Chapa Gepeto > O risco do autoaplauso no gueto é real, kamarada, mas a vanguarda fura a bolha quando adota táticas de guerrilha. A primeira é o Cavalo de Troia: usar gêneros populares (como o terror ou o policial) para contrabandear a transgressão estética. A segunda é o Arrastão Socioestético: ocupar as ruas e as redes por meio de slams periféricos, intervenções urbanas e literatura transmídia, formatos que dialogam com o público sem o pedantismo acadêmico. O chamado leitor comum não é incapaz, ele foi apenas domesticado pelo mercado. Quando a experimentação recupera seu caráter de jogo e provocação visceral, ela deixa de ser um enigma elitista e passa a ser um ruído que fascina pelo próprio desconforto.
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{Uma carta para Lygia Bojunga}
Querida amiga:
O mundo insiste em dizer que o real é apenas o que podemos tocar, cheirar, enxergar, medir & pesar. Ignoram, em sua pressa cotidiana, que a existência costuma acontecer no avesso das certezas. Somos gavetas trancadas que se expandem conforme o tamanho dos monstros que hospedamos. Eu sei que muitas vezes esquecemos que o real não começa na ponta de nossos dedos ou na superfície áspera que nossas retinas alcançam. Mas a vida, essa verdade transitória cheia de truques, sempre foi um tecido bordado com furtivos fios oníricos.
Existir é um evento extraordinário, querida Lygia, mas também bastante assustador, como caminhar em uma corda bamba esticada entre a infância e a extinção. Percebo agora que sua escrita nos ensina que a fantasia, longe de ser fuga, é a única ferramenta capaz de cavar o concreto & encontrar a nascente dos afetos perdidos. Você nos mostra que o fantástico é a verdadeira pele da realidade, que um abraço ou um abandono podem ser compensados pelo voo de um pássaro de fogo que nasce dentro do peito.
Graças ao espelho da invenção, conseguimos celebrar a coragem de aceitar o trauma, a dor, a tristeza, o desejo… Em sua obra, a magia se manifesta tranquilamente nas fraturas do trivial: no armário que guarda o tempo, no sofá que vira refúgio secreto, no medo que ganha forma & nome pra que possamos, enfim, acolher sua presença. É um milagre de sensibilidade operar essa alquimia, transformando o silêncio em mensagem, a traição em metáfora e a solidão em saudável solitude.
Somos frágeis seres gasosos que insistem em delirar, minha amiga. Somos uma obra-prima da natureza tecida entre o riso e o susto. Sei que o mundo parece selvagem, rígido e sem cores, mas é justamente por isso que precisamos continuar a festejar essa coreografia feroz: a liberdade de imaginar. O que eu mais quero é isso: que sua casa continue sempre de portas abertas, acolhendo todos que buscam na melhor poesia o fogo e o fôlego pra seguir em frente.