Uma foto.
Uma foto de um desenho.
Uma pintura.
Uma pintura de uma foto.
Pegadas deixadas na areia da praia.
Palavras.
Palavras a respeito de palavras.
Palavras a respeito de fotos, desenhos, pinturas e pegadas deixadas na areia da praia.
Ruídos coloridos.
Sinais sonoros ecoados pelo vento.
A terra molhada denunciando a última chuva.
Um aceno distante de mão.
O silêncio sossegado entre duas pessoas íntimas.
Fumaça distante indicando incêndio.
Linhas traçadas num mapa.
Símbolos matemáticos rabiscados no quadro-negro.
Cicatrizes que contam as histórias do corpo.
Lágrimas que traduzem a dor ou a alegria.
O olhar diferente que confessa um amor secreto.
Signo é qualquer coisa que representa outra coisa. Para a semiótica, tudo o que existe sob o sol pode ser um signo, desde que seja interpretado por alguém. Pode ser um signo até mesmo de outro signo. Pode ser um signo até mesmo de outro signo de outro signo de outro signo… Não há como escapar. Nosso mundo tecnológico está saturado de signos planos, esféricos, elípticos e fractais. Saturado de palavras, sons e imagens ricocheteando num formidável labirinto de espelhos. Um tsunami implodindo nossos sentidos, corrompendo os microcaminhos de nossa sensibilidade.
No romance Signofobia, de Fernando Gerheim, publicado em 2012 e relançado em 2021 pela 7Letras, o bombardeio incessante de informação, entretenimento e publicidade inunda a mente das pessoas a tal ponto que as retinas, os tímpanos, a epiderme e o cérebro começam a rejeitar qualquer coisa que carregue um significado. O excesso de representações verbais, sonoras e visuais — até mesmo oníricas — gera um curto-circuito cognitivo. A signofobia deixa de ser apenas um conceito abstrato da teoria da linguagem e se transforma numa patologia médica, social e existencial. Trata-se de uma aversão extrema a todos os tipos de signo, mas principalmente à constelação de signos visuais. Uma pandemia semiótica.
Os sintomas são: primeiro, a palma das mãos suando, o coração batendo forte e, na boca, um gosto de ferro, de osso. Depois, um recuo fractal, um processo de replicação incapacitante: a pessoa contaminada vê a si mesma vendo a si mesma vendo a si mesma vendo a si mesma vendo a si mesma sentindo os sintomas… O terceiro e último sintoma: a pessoa se transforma numa imagem incorpórea, sem massa nem peso. Numa imagem consciente. Um fantasma.
A doença faz com que a civilização comece a desmoronar e as pessoas percam sua individualidade psicofísica. No centro da trama estão João Mustenberg, o primeiro jornalista a denunciar o início da pandemia de signofobia, e Amanda Ferraz, uma atriz cuja imagem num telão desencadeia os sintomas devastadores. Pra sobreviver ao colapso do real, os dois se unem em uma simbiose profunda, em que seus ritmos vitais se sincronizam. Essa fusão gera o corpo híbrido, uma união de carne e imagem que instaura a simbiose total como único remédio contra o colapso do mundo antigo.
Antes mesmo de ler o romance de cabo a rabo, durante um sobrevoo minucioso, eu já fiquei encantado com o conceito de “corpo híbrido”. A integração mental total entre duas ou mais consciências é uma de minhas fantasias existenciais mais acalentadas. Desse modo, um dos poucos temas que me interessam atualmente, na ficção e na tecnociência, é a telepatia.
{Na ficção: Alfred Bester, Philip K. Dick, William Gibson, Ann Leckie, Ana Rüsche…}
{Na tecnociência: os experimentos de Miguel Nicolelis e sua equipe, com próteses neurais e seu fascinante conceito de brain-net.}
No âmbito da ficção futurista, a telepatia transcende a mera convenção técnica pra se consolidar como um sofisticado dispositivo de investigação sociológica e psicológica, frequentemente associado à superação das barreiras da solidão humana. Longe de representar somente uma ameaça à individualidade, essa supercapacidade de partilhar pensamentos é retratada em vertentes do gênero como o catalisador de uma empatia universal e da evolução da própria linguagem.
Em releituras contemporâneas e visões mais humanistas da ficção futurista, a telepatia ganha contornos de harmonia coletiva, configurando cenários em que o recôndito da mente humana se expande pra criar uma profunda compreensão e redes de apoio mútuo em que a mentira e o preconceito se tornam obsoletos. Autores que hoje exploram o potencial integrador do fenômeno antecipam sociedades em que o livre-arbítrio se alinha à cooperação e o diálogo atinge seu ápice, uma vez que as memórias, as crenças, os desejos e as intenções são compartilhados em sua essência mais pura, libertos das limitações das palavras.
Sob essa óptica, a ausência de barreiras cognitivas não conduz ao caos, mas sim ao desabrochar de uma consciência ampliada, sugerindo que a conexão mental direta é o passo definitivo para a cura do isolamento crônico e a preservação e o fortalecimento da nossa humanidade. É o passo evolutivo definitivo rumo à empatia total.
A certa altura do romance de Fernando Gerheim, o corpo híbrido de João e Amanda explica ao doutor Pompeu:
A imagem não pode tocar nem ser tocada, mas ela pode penetrar, sobrepor-se, fundir-se. E quando uma imagem e um corpo fazem isso, não é só uma nova aparência, mas uma nova forma de percepção e uma nova consciência que surgem. Só que essa nova consciência não pertence mais a uma substância imaterial nem a um indivíduo isolado, sua natureza é a interseção com o outro.
Mais pra frente, em outra cena… “O número de pessoas no planeta”, conclui outro pesquisador, o doutor Karman, “diminuirá até a humanidade acabar. Ao invés de dois fazerem três, como na reprodução, a superposição transforma dois em um”.
Lançado originalmente em 2012, reeditado em 2021, fico imaginando como seria a continuação de Signofobia, como seria o segundo romance, a história agora integralmente concentrada nos desdobramentos do conceito de corpo híbrido… Essa continuação abriria caminhos fascinantes… O autor poderia explorar a evolução dessa simbiose profunda. Se o primeiro livro estabelece o híbrido como um refúgio e uma reação imediata ao colapso, o segundo romance poderia investigar o que acontece quando essa condição se estabiliza, se espalha e passa a ditar a nova ordem social.
Alguns tópicos que me interessam, verdadeiros desafios de complexidade, que o romancista poderia desenvolver:
• A regulamentação jurídica dos seres simbióticos e a tentativa do capitalismo de explorar ou patentear o corpo híbrido.
• O abandono da palavra falada em troca de uma comunicação puramente biológica, química e sensorial entre os corpos.
• A dissolução das identidades sexuais tradicionais por meio da fusão profunda.
• A expansão da simbiose para além do casal, criando grandes comunidades conectadas num único organismo.
• O surgimento de facções religiosas que tentam separar os híbridos à força por meio de procedimentos radicais.
• O dilema filosófico sobre o próximo passo da evolução humana ou o anúncio de sua extinção.
• O mercado negro de “silêncio semiótico”, em que as poucas pessoas ainda não infectadas pagam fortunas por espaços geograficamente isolados e totalmente livres de qualquer estímulo visual ou textual.
• A redefinição da arte e da estética, que deixam de ser contemplativas e passam a ser criadas diretamente por meio de sinergias táteis e descargas neuronais compartilhadas no agrupamento simbiótico.
• Os conflitos de memória e a crise de herança psicológica sofridos pelas novas gerações que, contra todos os prognósticos de extinção da espécie, nascem herdando os fragmentos de lembranças de múltiplos corpos fundidos.