A estupidez humana é uma obra de arte. Uma obra-em-progresso digna da mais profunda contemplação. Talvez a maior obra de arte já realizada.
Enquanto isso, confortavelmente acomodado no melhor lugar da arquibancada, aqui estou, um balde de pipoca na mão esquerda, uma garrafa de suco de laranja na outra mão, contemplando a estupidez humana em campo, suando a camisa, dando o sangue por mais uma vitória.
Notícia recente em The New York Times: Indício de inteligência artificial faz editora voltar atrás na publicação de livro. O romance Shy Girl, de Mia Ballard, será suspenso no Reino Unido e não será mais lançado nos Estados Unidos.
Achei estúpida essa decisão comercial. As editoras estão priorizando o pânico moral em vez de priorizarem o mérito literário da obra, a qualidade do texto.
A decisão pune a inovação técnica, ignorando que a IA tem tudo pra ser uma ferramenta de refinamento criativo, algo que os corretores ortográficos já fazem há três décadas. Por isso é uma decisão estúpida.
O cancelamento tenta privar o público de avaliar a obra por seu valor literário, tratando a tecnologia como uma contaminação em vez de uma evolução inevitável do processo de escrita moderno. Por isso é uma decisão estúpida.
A hipocrisia é braba, meu povo: o mercado exige pureza, mas adora um ghostwriter ou um editor — às vezes uma pequena equipe — que reescrevam capítulos inteiros pra salvar um original ruim, mas com potencial comercial.
O trabalho do copidesque sempre foi uma espécie de algoritmo humano refinando os originais mal escritos ou problemáticos, e ninguém chama isso de fraude. O editor Max Perkins supostamente “melhorou drasticamente” os textos do Thomas Wolfe (assistam ao filme O mestre dos gênios). O editor Gordon Lish também fez o mesmo com os textos do Raymond Carver.
Acordem, queridos! Essa é uma prática corriqueira em todas as grandes editoras.
Essas intervenções também ocorrem o tempo todo nas oficinas de criação literária e no trabalho editorial dos leitores betas.
{Alexandre Dumas foi um dos autores mais prolíficos da História, tendo publicado mais de duzentos e cinquenta livros. Mas o volume monumental de sua obra só foi possível graças a um sistema de colaboração não creditada que funcionava quase como uma fábrica literária. Perguntinha óbvia: quantos autores depois de Dumas também não usaram em segredo esse sistema de colaboração não creditada?}
Moral da história, moral da histeria: os livros que chegam às livrarias, principalmente os best-sellers, raramente são o texto bruto do autor. Tentar punir a IA é ignorar esse fato.
No fim, o que importa é se a obra funciona esteticamente, não se a obra teve um editor de carne e osso ou um software ajudando a lapidar o texto. Ou até mesmo escrevendo livros melhores do que noventa por cento dos lançamentos “cem por cento humanos” que a gente encontra mensalmente nas livrarias.
Resistência atávica
Todos nós temos, instalado no genoma e no cérebro, um programinha biológico, ancestral, primitivo, cuja tarefa é basicamente ficar repetindo, diante de qualquer novidade cultural ou tecnológica, a costumeira ladainha: isso é um absurdo, não vai dar certo, vai acabar com a civilização etc. etc.
Muito tempo atrás, esse programinha abominou a invenção da escrita. O rabugento Platão criticava essa novidade, dizendo que ela enfraqueceria a memória e criaria uma ilusão de sabedoria. Para muitos outros rabugentos dessa época, registrar palavras e frases fora da mente era quase uma ameaça à própria inteligência humana.
Mais tarde, reação semelhante atingiu a prensa de tipos móveis.
Quando Gutenberg automatizou a impressão, o pânico foi tanto religioso quanto intelectual. Líderes religiosos temiam que a disseminação descontrolada da Bíblia gerasse interpretações equivocadas e heréticas, enquanto estudiosos reclamavam que a abundância de livros criaria uma confusão de informações impossível de gerenciar.
A lista é grande. Também sofreram ataques o trem a vapor, a eletricidade doméstica, a vacina, a fotografia, o telefone, a bicicleta, o rádio, a calculadora de bolso, a energia atômica… Até mesmo o coitado do guarda-chuva levou umas bordoadas.
No século 18, em Londres, Jonas Hanway foi ridicularizado e até atacado fisicamente por carregar um guarda-chuva. Na época, o acessório era visto como um sinal de fraqueza francesa e uma ofensa a Deus. Afinal, se Deus mandou chuva, você deveria se molhar. Os cocheiros de carruagens também odiavam a invenção, temendo que ela roubasse seus clientes em dias de tempestade.
O alvo do momento é a inteligência artificial. Estamos vivendo agora este pânico. O medo varia… Uns temem que as máquinas substituam o trabalho humano e tornem nossa utilidade econômica irrelevante. Outros temem a criação de algoritmos autônomos que tomem decisões imprevisíveis ou desalinhadas com nossos valores. Outros temem que a simulação digital destrua nossa capacidade de distinguir o que é real do que é artificial.
Enfim, é a versão moderna do medo da escrita: a preocupação de que estamos terceirizando nossa essência pra algo que não podemos controlar totalmente.
Temos uma tendência histórica de olhar para o novo e enxergar o apocalipse.
O mais irônico é que mesmo rodando em potência máxima o programinha do “não, obrigado, não vai dar certo” foi incapaz de impedir a propagação das invenções mencionadas e de milhares de outras.
Parece que também temos instalado no genoma e no cérebro um contra-programinha mais insistente: o software da compulsão tecnológica.
Democratização técnica versus autoria artística
Muitas pessoas criticam o uso de inteligência artificial na produção dirigida {estou falando em curadoria} de textos jornalísticos, acadêmicos e literários: poemas, contos, crônicas e romances… Mas poucos conseguem enxergar o paralelo direto que há entre a produção de textos e a evolução da fotografia digital.
Na fotografia digital, a máquina {um iPhone ou um bom smartphone} realiza todo o processamento técnico enquanto o fotógrafo se concentra apenas no enquadramento e no instante do clique. De maneira análoga, a IA generativa permite a construção de textos complexos a partir de comandos definidos pelo escritor, deslocando o esforço da redação mecânica para a curadoria intelectual.
Tanto na fotografia digital quanto na escrita digital, o valor da obra deixa de residir na execução puramente técnica e passa a ser medido pela capacidade humana de dirigir a tecnologia, a fim de alcançar um resultado de qualidade.
A resistência à inteli-arti pode ser filtrada pela hierarquia do talento. Os dez por cento de gênios que compõem o topo da pirâmide literária {a elite dos autores} mantêm a soberania graças à força de seu talento. Essa galera não precisa da IA generativa. Do mesmo modo que jamais precisou de um ghost-writer ou de um copidesque humanos.
Para os noventa por cento que não possuem esse virtuosismo, a inteli-arti não é uma substituta da criação, mas um recurso de compensação técnica. Ela permite que autores medianos e medíocres transcendam suas limitações técnicas e alcancem certa sofisticação formal.
Douglas Adams
Um conjunto de regras que descrevem nossas reações às tecnologias:
1. Tudo o que já estava no mundo quando você nasceu é normal e corriqueiro e apenas uma parte natural da maneira como o mundo funciona.
2. Tudo o que é inventado entre os seus quinze e trinta e cinco anos é novo e emocionante e revolucionário, e pode inclusive se tornar sua carreira profissional.
3. Tudo o que é inventado após os seus trinta e cinco anos vai contra a ordem natural das coisas.
[A espetacular e incrível vida de Douglas Adams, de Jem Roberts]