Há livros que se escrevem na superfície calma da mesa de trabalho, e há outros que emergem de uma ferida aberta. Os silêncios da Guerra Colonial, de Sara Primo Roque, pertence à segunda categoria. Não se trata aqui de um ensaio etnológico convencional, daqueles que mantêm o investigador a salvo, atrás do véu da objetividade; fá-lo de forma deliberada, assumida, quase agressiva ao deslocar o trauma do ambiente protegido da psiquiatria para a arena incómoda do espaço público.
Durante décadas, as salas de consulta funcionaram como câmaras de contenção, onde o sofrimento dos ex-combatentes podia ser nomeado, mas nunca verdadeiramente ouvido pela sociedade que os enviara para a guerra. O regime do Estado Novo vedara a palavra mas, a democracia nascente preferiu o esquecimento, tratando os homens que regressaram de África como potenciais assassinos, carne visível de um império que convinha sepultar sem cerimónias.
A autora recusou esse duplo silenciamento, ao exigir que os testemunhos fossem dados em nome próprio, contrariando a tradição dos estudos que enclausuram a dor no anonimato dos pseudónimos; propôs uma inversão ética dando voz e identidade aos ex-combatentes portugueses. Apenas um dos seus entrevistados recusou identificar-se, por ter testemunhado uma violação coletiva, e temer pelo julgamento da família.
Mas o livro não é apenas um arquivo de memória, já que Sara Primo é antropóloga, mas também filha de um ex-combatente, que nunca lhe falou diretamente sobre a guerra, mas o tema sempre esteve presente na boca de outros familiares. Essa dupla condição, a escuta profissional e a escuta íntima, confere ao texto uma tensão produtiva, rompendo o distanciamento analítico em nome da oralidade e da emoção. Diz que a verdade sobre a guerra colonial não “pode ser contada a uma temperatura neutra”.
A escritora insiste num outro ponto, aquele em que a sociedade arruma a guerra colonial na prateleira do tempo pretérito. A guerra é visível nos corpos envelhecidos dos homens que hoje têm setenta, oitenta ou mais anos; nas mulheres que aprenderam a emudecer para proteger os maridos; nos filhos e nos netos que herdaram um silêncio incómodo, uma frase que nunca se completou.
Quando a autora criou uma página nas redes sociais para divulgar os testemunhos, as reações foram violentas; acusaram-na de mentir, de se aproveitar da dor alheia, de fabricar sofrimento. Essa reação, segundo ela, é reveladora, pois “diz mais sobre o país do que muitos tratados de história”. Explica pondo o dedo na ferida, ainda aberta, pois o que ela encontrou foi um mecanismo de defesa de uma coletividade que prefere acreditar que a guerra foi “do Ultramar”, uma epopeia civilizacional promovida pelo Estado Novo, em vez de se confrontar com as violações, os cadáveres atirados aos crocodilos, entre outras tragédias esquecidas no lar militar.
Os silêncios da Guerra Colonial não é um livro confortável. E é precisamente por isso que é necessário. Num momento em que a extrema-direita ensaia o regresso de uma certa narrativa imperial, nostálgica e depurada de violência, a obra de Sara Primo Roque funciona como um alerta: lembra-nos que os silêncios que construímos para nos proteger são também os silêncios que nos aprisionam; e que a única maneira de os romper é, como ela fez, dizer os nomes com todas as letras.

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