Ricardo Gil Soeiro

Ensaio fotográfico de Ricardo Gil Soeiro
Foto: Ozias Filho
01/08/2026

(…) porque não posso eu ficar um pouco mais?

Há um movimento discreto, mas persistente, de aproximar os grandes temas da esfera da intimidade. Entre eles, nenhum é mais desafiador do que a morte. E poucos gestos são tão ousados quanto convidá-la a sentar-se à nossa mesa. É precisamente isso que Ricardo Gil Soeiro realiza em Lição de tanatologia, poema que abre o seu mais recente livro de poemas. A morte surge não como a ceifeira implacável da tradição, mas como uma presença frágil, ingênua e surpreendentemente humana, que interroga a própria vida. O poeta subverte a lógica habitual ao colocá-la na posição de quem ensina, não por autoridade ou domínio, mas pelo cumprimento de uma função que pode ser ética, biológica ou metafísica.

A decisão de abrir Lições da miragem dessa forma está longe de ser fortuita. Como o próprio autor afirma, “no fundo, o livro começa pelo fim, último e derradeiro, que é a morte”. A escolha revela determinação estética e intelectual: enfrentar o grande tabu logo à entrada, mas recusando qualquer solenidade previsível. O poeta português reconhece a influência de Wisława Szymborska e do seu poema Sobre a morte sem exagero. Tal como a autora polonesa, procura reduzir a eloquência excessiva associada à morte, promovendo uma eficaz “deflação do pathos poético”.

A morte torna-se, assim, uma figura próxima, familiar e cotidiana. O que emerge é uma inversão curiosa: a morte, imaginada como onipotente, entra no mundo dos vivos apenas de passagem, como uma visitante sem tempo para experimentar plenamente o mistério da existência humana. O poeta sintetiza esse efeito ao afirmar: “Sinto que lá está a morte, mas como uma pessoa que está aqui ao nosso lado”. A imagem é deliberadamente simples. Quando a morte se torna vizinha, quando partilha conosco o espaço da experiência, perde grande parte da sua capacidade de intimidação.

Esta primeira lição sobre a vida, formulada a partir do olhar da morte, estabelece o tom de todo o livro. A obra distancia-se da atmosfera mais niilista e sombria de fases anteriores da poesia de Ricardo Gil Soeiro. Segundo o autor, existe uma mudança clara, visível desde Pirilampos, para uma escrita que, sem abandonar a sombra, acolhe a beleza, o mistério, o espanto e até a alegria. A própria palavra “miragem”, que dá título ao livro, aponta para essa luminosidade precária: uma esperança sem triunfalismo, mas suficientemente resistente para persistir como breve cintilação.

A questão das “lições” ao longo dessas miragens literárias exige, contudo, um esclarecimento. Não se trata de lições em sentido moral ou professoral. O termo funciona antes como dispositivo irônico e subversivo, porque as próprias lições são miragens: vislumbres fugazes sobre diferentes dimensões da experiência humana: a vida, o mistério, o sonho, a pintura, a música e o espanto.

No verso final do primeiro poema, a morte que tudo interrompe revela-se, paradoxalmente, excluída da experiência de viver. A sua função é cessar a vida, não a partilhar. Quando pede para ficar mais um pouco, não reivindica a extensão do seu poder; deseja apenas aquilo que lhe está eternamente vedado — ou seja, o tempo, a companhia, o privilégio de existir. O que a morte ignora, mesmo na sua sabedoria ubíqua, é que sempre participou da experiência humana, não como vida, mas como condição indispensável dela. É precisamente nessa ironia — a morte desejar aquilo que jamais poderá possuir — que reside a mais sutil, profunda e comovente lição deste poema inaugural.

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho
Ricardo Gil Soeiro
Professor por profissão, ensaísta por insistência e poeta por necessidade, nasceu em Tabuaço (Portugal), 1981, e habita o território instável onde a leitura se transforma em escrita e a escrita em pergunta. Tradutor, ficcionista e professor, tem construído uma obra que atravessa a poesia, o ensaio e o romance. Na poesia, publicou, entre outros títulos, “Da vida das marionetas” (2012), “Palimpsesto” (2016), “Pirilampos” (2022) e “Lições da miragem” (2024). No ensaio, é autor de livros como “Iminência do encontro”, “A sabedoria da incerteza” e “O enigma claro da matéria”. Foi vencedor do Prêmio PEN Clube de Ensaio (2024) e do Prêmio Candango (Brasil, 2025), tendo sido ainda finalista do Prêmio Oceanos, do Prêmio Literário Casino da Póvoa-Correntes d’Escrita, do Grande Prêmio de Literatura DST, e do Prêmio Sociedade Portuguesa de Autores.
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É escritor, fotógrafo e editor. Publicado no Brasil e em Portugal, é autor de vários livros de poesia, entre os quais Poemas do dilúvioPáginas despidasO relógio avariado de DeusInsularesInsanosOs cavalos adoram maçãsO avesso da casa Um anjo com a boca pintada de sangue. Participou em diversos festivais literários, incluindo o Folio (Festival Literário Internacional de Óbidos) e encontros promovidos pela Fundação José Saramago e pela Casa da América Latina. Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho