Ana Mafalda Leite

Ensaio fotográfico de Ana Mafalda Leite
Foto: Ozias Filho
01/07/2026

(…) meus pés pisam a terra com cuidado e desvelo
sonham caminhos que não há (…)

Há uma opção que atravessa os versos como uma linha de força silenciosa na poesia de Ana Mafalda Leite: a decisão de viver “ao rés do chão”, abandonando o voo e dispensando “rigor, cesura ou equação”. Numa tradição lírica em que a asa sempre foi metáfora da transcendência, do ímpeto heroico e da utopia transformadora, esta escolha pela horizontalidade, pela proximidade à terra, é tudo menos gratuita. Trata-se, antes, de uma tomada de posição estética e ética que redefine o lugar da poesia face à memória e à história.

O que significa, para esta poeta, que procura reconstruir a “memória moçambicana” e a “relação com o Império”, recusar o voo? Significa, em primeiro, afastar-se de uma certa tradição épica que prometeu transformações radicais e que, em Moçambique, como noutras ex-colônias portuguesas, viu essa promessa desfazer-se. É a própria autora quem nos oferece a chave para este pensamento, quando afirma: “As asas acabam por ser uma forma de acolhimento, e de voo, que a utopia projeta na construção do país. E nós sabemos que Moçambique, logo após a independência, dois anos depois, já estava em guerra civil.” Esta passagem é crucial porque desmonta a idealização romântica da asa: o voo utópico, longe de ser uma força libertadora incondicional, revela-se aqui como uma projeção que a história se encarregou de contrariar.

Ana Mafalda Leite inscreve na sua poesia a consciência lúcida de que o país sonhado ainda não se concretizou e de que, por isso, talvez seja o tempo de descer das asas e pisar o chão. É precisamente essa descida que dá corpo à sua poética do cuidado. É nesse contexto que recolher o encanto das coisas surge como ato poético essencial. Longe de ser um refúgio contemplativo alheio às dores do mundo, constitui uma forma de valorização do que resta quando a utopia se esgota. A sua poesia opera, desta maneira, uma recusa em ampla direção.

Recusa o “rigor”, entendido talvez como a rigidez dos sistemas explicativos fechados. Recusa a “cesura”, o corte definitivo, a separação nítida entre passado e presente, entre o indivíduo e a história coletiva. Recusa a “equação”, a pretensão de resolver a vida num cálculo exato. Em vez disso, propõe uma poética da proximidade, do tátil, do que se pode tocar com os pés bem assentados no chão. E é precisamente essa qualidade que permite resistir de forma mais verdadeira. Porque o voo heroico tende a esquecer o terreno onde pousará. A asa projeta-se para o futuro, para a transformação, para o país que há de vir, mas o chão, esse, fica por habitar.

Ao pisar a terra com propriedade, ao demorar-se na “paisagem emocional” e na “paisagem física”, a poesia encontra um modo de habitar o presente sem a violência das grandes narrativas. Não que essas narrativas sejam inúteis, mas, depois de tantos voos interrompidos, talvez seja tempo de aprender a viver com o que o chão nos dá. O encanto nesta poética com a dureza do solo, é um modo de atenção, de cuidar. É, afinal, uma forma silenciosa, mas tenaz de recomeçar. Em suma, voar próximo ao chão obriga-nos a abrir muito mais os olhos.

Foto: Ozias Filho

 

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho
Ana Mafalda Leite
Nasceu em Aveiro (Portugal), mas cresceu no norte de Moçambique e fez os primeiros estudos universitários na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, onde é professora doutorada em Literaturas Africanas. É ensaísta e, principalmente, poeta. Em poesia, publicou, entre outros: Em sombra acesa (1984), Canções de Alba (1989), Mariscando luas, em coautoria com Roberto Chichorro e Luís Carlos Patraquim (1992), Rosas da China (1999), Livro das encantações (2005), O amor essa forma de desconhecimento (2010), Antologia Livro das Encantações e Outros Poemas 1984-2005 (2010) e Janela para o Índico (2020). Em 2015, recebeu o prêmio Femina de Literatura, e, em 2019, o prémio Afrolic.
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É escritor, fotógrafo e editor. Publicado no Brasil e em Portugal, é autor de vários livros de poesia, entre os quais Poemas do dilúvioPáginas despidasO relógio avariado de DeusInsularesInsanosOs cavalos adoram maçãsO avesso da casa Um anjo com a boca pintada de sangue. Participou em diversos festivais literários, incluindo o Folio (Festival Literário Internacional de Óbidos) e encontros promovidos pela Fundação José Saramago e pela Casa da América Latina. Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho