(…) meus pés pisam a terra com cuidado e desvelo
sonham caminhos que não há (…)
Há uma opção que atravessa os versos como uma linha de força silenciosa na poesia de Ana Mafalda Leite: a decisão de viver “ao rés do chão”, abandonando o voo e dispensando “rigor, cesura ou equação”. Numa tradição lírica em que a asa sempre foi metáfora da transcendência, do ímpeto heroico e da utopia transformadora, esta escolha pela horizontalidade, pela proximidade à terra, é tudo menos gratuita. Trata-se, antes, de uma tomada de posição estética e ética que redefine o lugar da poesia face à memória e à história.
O que significa, para esta poeta, que procura reconstruir a “memória moçambicana” e a “relação com o Império”, recusar o voo? Significa, em primeiro, afastar-se de uma certa tradição épica que prometeu transformações radicais e que, em Moçambique, como noutras ex-colônias portuguesas, viu essa promessa desfazer-se. É a própria autora quem nos oferece a chave para este pensamento, quando afirma: “As asas acabam por ser uma forma de acolhimento, e de voo, que a utopia projeta na construção do país. E nós sabemos que Moçambique, logo após a independência, dois anos depois, já estava em guerra civil.” Esta passagem é crucial porque desmonta a idealização romântica da asa: o voo utópico, longe de ser uma força libertadora incondicional, revela-se aqui como uma projeção que a história se encarregou de contrariar.
Ana Mafalda Leite inscreve na sua poesia a consciência lúcida de que o país sonhado ainda não se concretizou e de que, por isso, talvez seja o tempo de descer das asas e pisar o chão. É precisamente essa descida que dá corpo à sua poética do cuidado. É nesse contexto que recolher o encanto das coisas surge como ato poético essencial. Longe de ser um refúgio contemplativo alheio às dores do mundo, constitui uma forma de valorização do que resta quando a utopia se esgota. A sua poesia opera, desta maneira, uma recusa em ampla direção.
Recusa o “rigor”, entendido talvez como a rigidez dos sistemas explicativos fechados. Recusa a “cesura”, o corte definitivo, a separação nítida entre passado e presente, entre o indivíduo e a história coletiva. Recusa a “equação”, a pretensão de resolver a vida num cálculo exato. Em vez disso, propõe uma poética da proximidade, do tátil, do que se pode tocar com os pés bem assentados no chão. E é precisamente essa qualidade que permite resistir de forma mais verdadeira. Porque o voo heroico tende a esquecer o terreno onde pousará. A asa projeta-se para o futuro, para a transformação, para o país que há de vir, mas o chão, esse, fica por habitar.
Ao pisar a terra com propriedade, ao demorar-se na “paisagem emocional” e na “paisagem física”, a poesia encontra um modo de habitar o presente sem a violência das grandes narrativas. Não que essas narrativas sejam inúteis, mas, depois de tantos voos interrompidos, talvez seja tempo de aprender a viver com o que o chão nos dá. O encanto nesta poética com a dureza do solo, é um modo de atenção, de cuidar. É, afinal, uma forma silenciosa, mas tenaz de recomeçar. Em suma, voar próximo ao chão obriga-nos a abrir muito mais os olhos.

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