Selefama Esporte Clube (2)

Um dia, o time de Fausto faria a preliminar do Santos de Pelé; para um jogador, o sonho acabaria em tempestade
Ilustração: Ramon Muniz
01/05/2007

Alguém já deve ter escrito um livro sobre os estádios de futebol no Brasil. Caso o livro exista, dele certamente devem constar algumas palavras sobre o glorioso Estádio Olímpico Pedro Ludovico, em Goiânia.

Inaugurado nos anos 60, com capacidade para dez mil torcedores e por muitos anos ostentando o título de maior e mais moderno do centro-oeste, o Olímpico foi palco de jogos memoráveis, como, por exemplo, um Goiás e Santos, em 1973, válido pelo Campeonato Brasileiro. Detalhe: o camisa 10 do Santos era ele, Édson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Era a primeira vez que um time goiano disputava o Brasileiro e o Olímpico se transformou em palco de festas homéricas de torcedores alucinados. E havia outra novidade: a preliminar era sempre disputada por times de crianças. Ora jogavam os tampinhas (categoria até doze anos), ora os dentes-de-leite (até catorze).

Qualquer garoto da cidade sonhava em jogar no Olímpico. Se o simples fato de ir ao estádio ver um jogo do Goiás no Brasileiro já era um programa e tanto, imagina jogar naquele campo imenso, de grama retinha, num domingo à tarde ou numa quarta de noite, sob a luz dos refletores.

Na condição de ponta-direita do Selefama Esporte Clube, eu não era uma exceção. Perdia noites sem sono imaginando um dia pisar a grama do estádio. Quando nos sagramos campeões estaduais, o sonho começou a ganhar contorno de realidade. Foi se desenhando aos poucos, o sonho, e já quase podia ver a figura pronta quando nosso técnico, Fausto, nos disse num treino que havia sim essa hipótese. Alguém da Federação falara com ele, a gente soubesse esperar.

Saber esperar não é uma coisa fácil, convenhamos, ainda mais se você tem onze anos de idade. De todo modo, para não ficar pensando demais no assunto, comecei a estudar feito maluco. Devorava os livros de geografia, história, português, fazia contas que nem a professora de matemática havia pedido, quase explodia a escola com as experiências de química. Ninguém entendia nada, achavam que ou eu era ótimo aluno ou doido varrido.

Até que chegou o dia em que o Fausto reuniu o time antes de um treino e anunciou que tinha uma coisa importante a dizer. Ficamos todos sentados no meio do campo, ele de pé, andando de um lado para o outro, as mãos nas costas, esperando não sei o quê. E a gente ali, roendo unha.

Então chegou um cara todo bem vestido, de terno e tal. O Fausto apresentou o sujeito, um cartola qualquer da Federação. E o cartola falou um tempão, uma conversa chata de doer, sobre esporte, educação, comunistas (eu nem sabia o que era comunista), um saco! E no final disse que gostaria de explicar o verdadeiro sentido da frase que vinha na nossa carteirinha de atleta (plastificada, com foto e tudo): CRAQUE NA BOLA, CRAQUE NA ESCOLA.

Depois disso o cara da Federação falou o que devia ter falado desde o início. A diretoria do Goiás tinha pedido uma revanche — amistosa — da final do campeonato daquele ano. E o jogo seria no Olímpico.

Foi uma gritaria danada, lógico, aquelas crianças aparentemente bem comportadas, aqueles anjinhos de repente aprontaram uma zorra, alguém deu um bico na bola, que voou longe, e a farra foi tanta que quase ninguém ouviu quando o sujeito disse que iríamos jogar na preliminar de Goiás e Santos.

Quase ninguém ouviu, mas eu ouvi. Ouvi muito bem. Aquilo significava o seguinte: você não apenas vai jogar no Olímpico como vai ver um jogo do Pelé! Era um pouco demais, sinceramente. O desenho do sonho estava pronto e ainda vinha em papel colorido!

Passei a semana inteira pensando no jogo. Foi uma péssima semana na escola (o cartola complicou meus pensamentos com aquela falação toda e minha tática de estudar para esquecer o assunto não deu certo). Quando ia dormir, de noite, contava os dias que faltavam para chegar quarta-feira (o jogo seria de noite). Seis, cinco, quatro, três.

O problema começou quando, na terça-feira de tarde, os meninos da vizinhança entraram no quintal da minha casa gritando: tem chuva!

Aquelas eram palavras mágicas. E traziam verdades indiscutíveis: o tempo está nublado, daqui a pouco vai cair um toró, você precisa se dirigir (descalço, obviamente) ao campinho de terra da praça de esportes.

Já vivi algumas décadas e acredito que haja poucos prazeres na vida comparáveis ao de jogar bola na chuva. No campinho, o ritual era o mesmo de sempre. A garotada chegava e ficava por ali, de bobeira, jogando conversa fora. Alguns, mais afoitos, ainda batiam uma bola. Mas a pelada só começava mesmo quando caíssem os primeiros pingos de chuva. Aí era festa. Lama, caneladas, tombos (uma vez caí, bati a nuca numa pedra e desmaiei), tudo entrava como ingrediente na receita da alegria.

Cheguei em casa pensando num banho quente. Não podia facilitar, no dia seguinte jogaria no Olímpico, na preliminar do jogo do Pelé. Não contava, porém, com o bilhete que vi na porta de casa. “Fui ao armazém, volto já”, estava escrito, com a letra da minha mãe.

O armazém ficava a uns quinze minutos da minha casa. Eu sabia onde era e poderia ter ido lá, para pegar a chave. Acontece que a chuva apertou muito, era uma tempestade aquilo, e achei melhor esperar ali mesmo.

Enquanto minha mãe não chegava, fiquei encostado na parede do alpendre, todo encharcado, tiritando de frio. Tinha visto um programa na televisão sobre um tal de pensamento positivo e achei que era uma boa praticar naquela hora. Fiquei repetindo para mim mesmo, em voz alta: não fica gripado, não fica, não fica, não fica!

Continuei repetindo, cada vez mais alto, até ser interrompido por uma interminável sessão de espirros, que pareciam rir da minha cara, dizendo: nãoadianta, nãoadianta, nãoadianta!

E não adiantou mesmo. De noite tive febre e meu pai teve que me levar ao médico. O diagnóstico do médico não foi um diagnóstico, foi um veredito: nada de futebol!

Na quinta-feira não teve treino, mas se tivesse eu não teria ido. Nem na sexta. Só voltei aos treinos do Selefama um bom tempo depois (porque quando estava quase bom voltei a jogar bola na chuva e tive princípio de pneumonia).

No dia seguinte tive notícias do que aconteceu naquela noite. Ganhamos o jogo de 1 x 0, o time entrou em campo aplaudido pela torcida do Goiás, antes da partida principal o Pelé tirou foto com o nosso time e a foto virou pôster no bar do Fausto. Coisas assim, desimportantes.

Muito tempo já se passou, claro. Parafraseando Drummond, diria hoje que aquele jogo é apenas um retrato na parede. Mas como dói.

Flávio Carneiro

É escritor, roteirista e professor de literatura. Autor de A confissão, entre outrosNasceu em Goiânia (GO) e mora em Teresópolis (RJ). Publicou 18 livros — romances, contos, crônicas, infantojuvenis, ensaios — e escreveu dois roteiros para cinema. Foi premiado com o Barco a Vapor e com o selo de Altamente Recomendável para o Jovem, da FNLIJ. Com Histórias ao redor (Cousa), ganhou o Jabuti 2021, na categoria crônicas. Tem contos e romances publicados em outros países, como Itália, Portugal, Colômbia, México, França, EUA, Alemanha. O conto Viva a Revolução! integra seu próximo livro, Paisagem com segredo & outras pequenas viagens, a ser lançado em breve pela Maralto..

Rascunho