Palavrinha ou palavrão – eis a questão

A importância de escrever o que deve ser dito, na forma exigida pela narrativa
António Lobo Antunes, autor de “Os cus de Judas”
01/01/2024

Começo a escrever este artigo — cujo assunto é o palavrão na literatura — e me dou conta de que algumas palavras nem precisam ser escritas para provocar os olhos do leitor. Acompanhe por favor: “vá tomar no” esta palavrinha — ou palavrão? — precisa mesmo ser escrita ou basta cortá-la? Pronto. O problema está criado. Esta palavrinha – será palavrão? — palavrinha ou palavrão, mesmo dita por um personagem, precisa ser escrita ou em silêncio continua devastadora.

Sim, poderia ser evitada, mudar de frase, aí atua o censor que resolve radicalmente cortar a frase inteira. A minha inquietação é saber quais os olhos que vão enfrentá-la. Temendo o censor, que de repente habita o escritor, não seria aconselhável mudar de assunto? Ainda mais radical.

Daí porque os censores — armados de tesoura ou caneta nos tempos da ditadura — temem as palavras escritas ou ditas — quem sabe, representadas num simples movimento de mão com o indicador e o polegar numa luta que não tem fim, ainda hoje inescrupulosos e vingativos. Agora ainda estou preocupado, muito preocupado. Queima-me a ideia de que devo mudar de assunto, ou simplesmente esquecer a frase.

Bem, quero tratar aqui, enfim, deste assunto tão necessário: o palavrão na literatura. Pode ser assunto velho demais, no mínimo fora de hora. Convenço-me, no entanto, de que os conservadores circulam muito por aí num desafio permanente. O palavrão que eu nem chamo de palavrão nem de palavrinha, basta palavra — é fundamental porque é o mote justo, de que falavam os franceses, a palavra exata, a palavra insubstituível.

Não é assunto fora de moda porque se trata da palavra e a palavra é eterna.

Sem esquecer que um dos melhores livros de Lobo Antunes se chama Os cus de Judas.

Se o personagem não a pronuncia está na hora de levá-lo ao psiquiatra.

Raimundo Carrero

É escritor. Autor, entre outros, de Seria uma noite sombria Minha alma é irmã de Deus. 

Rascunho