1.
Na vida e, principalmente, na cultura e na política, é comum assumirmos um pensamento binário. É quase uma fatalidade lógica e, ao mesmo tempo, uma facilidade intelectual. As doutrinas da direita sabem jogar bem com isso e, não por nada, ganham grande valor neste mundo desagregado. A literatura não passa ao largo do fenômeno; ao contrário, o estimula. Tal acontece com Esaú e Jacó — ou Pedro e Paulo, na ficção —, em que um é monarquista e o outro, (claro) republicano. Isso também está presente em Os miseráveis, na oposição entre Jean Valjean e Javert; e nas histórias de Sherlock Holmes, em que o esperto Sherlock contrasta com a ingenuidade do dr. Watson. Uma nomenclatura degradada, adotada pela mídia, criou a díade antagonista versus protagonista. Nada mais equivocado, pois esse binarismo não dá conta das sutilezas de cada personagem, resumindo a narrativa a uma luta de gladiadores ou a uma rinha de galos, com final previsível: um ganha e o outro perde.
2.
Quando pensamos em Ratos e homens (1937), de John Steinbeck, é grande a tentação de inserir as duas personagens centrais nessa lógica simplória: no espaço cáustico e rural da Califórnia, num período de escassez de trabalho e crise climática, dois homens, George e Lennie, apresentam-se numa fazenda para assumir seus empregos. George é pequeno, ágil e inteligente. Lennie, como podem presumir — e estarão certos —, é grandalhão, lento e tem certa deficiência cognitiva. Steinbeck, autor consagrado e sensível, não cairia na armadilha de fazer com que se transformassem em opostos; ao contrário, procura explorar as diferenças das quais resulta uma síntese que funciona de modo complementar. Isso também acontece em Bouvard e Pécouchet, de Flaubert, cujas personagens, embora incidam no clichê da oposição física, constituem uma unidade de avanços e fracassos.
3.
A proposta de Ratos e homens é, com nitidez, a de mostrar a situação de decadência dos Estados Unidos na década de 1930, época da Grande Depressão. Acentuavam-se as disparidades sociais, e todos, em meio à hecatombe econômica, procuravam alguma segurança — e a melhor delas era a propriedade de um imóvel. Para a dupla, esse imóvel era uma fazenda (rancho) — mero sonho para quem não tinha nada, mas via no trato da terra sua única saída. Assim, chegar a Soledad, no centro-norte da Califórnia, chegar à fazenda que os empregaria, era um primeiro passo para pôr em marcha o sonho conjunto. Lá encontram uma representação da sociedade: o patrão interesseiro; o filho do patrão, mais realista que o rei, embriagado pelo poder; a esposa deste, mulher solitária e coquete num universo masculino de peões machistas; o empregado negro, hostilizado pela maioria branca; o homem incapacitado por haver perdido uma mão no serviço, e vítima do desprezo geral.
4.
O ambiente da fazenda é degradado, a evocar o drama que se anuncia, e eu desejaria focar o epicentro geográfico e dramático no celeiro: ele atua como síntese espacial das contradições materiais e como o espaço em que se dá a erupção trágica do romance. Um celeiro sempre será uma unidade laboral e de construção da riqueza. Já o romance o representa como um lugar de prisão e opressão, instituindo-o num locus terribilis em que acontecem as mortes da história. A iluminação fragmentada que penetra pelas frestas das tábuas não oferece emancipação emocional; ao contrário, as frestas geram lâminas de sol que vão subindo e esmaecendo no decorrer da tarde até sumirem, deixando a todos possuídos de uma sensação de melancolia, e, digo eu, a evocar a célebre gravura de Albrecht Dürer com o mesmo nome, Melancolia I, em que uma entidade alada (um anjo?), imersa em tédio, não demonstra qualquer interesse por tudo o que a cerca.
5.
Outro espaço importante é o claustrofóbico alojamento dos peões, assim descrito na competente e criativa tradução de Caetano Galindo:
O alojamento era uma construção retangular e comprida. Lá dentro, as paredes eram caiadas e o piso, sem tinta. Em três paredes havia pequenas janelas quadradas e, na quarta, uma porta maciça com uma tranca de madeira. Contra as paredes ficavam oito camas de tábua, cinco feitas, com cobertores e as outras três com os colchões de juta à mostra. Em cima de cada cama estava pregada uma caixa de maçãs com a abertura virada para a frente.
Ali ficavam os pobres e únicos objetos pertencentes aos peões.
6.
(Falei, no parágrafo anterior, em “competente e criativa tradução de Caetano Galindo”, e é isso mesmo. A prosa de Steinbeck, quando se trata das falas das personagens, procura uma reprodução fonética e (des)ortográfica, o que deve ter sido uma tortura para os leitores. Aliás, no Brasil, os escritores retardatários do Modernismo esboçaram fazer o mesmo, mas logo abandonaram o esdrúxulo estratagema, que provocava desagradáveis acidentes de leitura. Quando Steinbeck escreve: “Well, you ain’t petting no mice while you walk with me. You remember where we’re goin’ now?” — Galindo traduz como “Bão, não tem nada que ficar fazeno carinho em rato. Cê lembra pra onde que a gente tá indo agora?”. Convenhamos: o tradutor não tinha outra escolha para não trair as intenções de Steinbeck, que desejava denunciar um estamento social abandonado à baixa escolaridade; hoje, esse recurso linguístico soa problemático por cortar a fluidez da leitura, e, pior, por soar antiquado. Em todo caso, fica o debate — para quem gosta de polêmica.)
7.
Uma obra-prima pode ser definida como: perfeita. Nada sobra; não falta nada. No caso de Steinbeck, alguns dizem que sua obra-prima é As vinhas da ira; outros, A leste do Éden. Trata-se de um pensamento tolo, próprio dos hipódromos: “Qual cavalo ganhará a corrida?”. Quando falamos em Ratos e homens, entretanto, somos tomados por aquela sensação de que a estrutura narrativa é toda organizada para aquele efeito de que falava Poe, e o espaço é um dos elementos mais fortes e impactantes; mas o espaço só teria sentido se estivesse unido à trama, forte porque simples; convincente por focar em duas personagens deserdadas pelo destino e ir com elas até um final estarrecedor e humano, mas que vem preparado desde a primeira cena do romance, em que a dupla caminha quilômetros até encontrar a fazenda que será o lugar de desenvolvimento desse romance que, superando o valor do prêmio Nobel merecido por Steinbeck, situa-se no cânone das narrativas que discutem as questões que afligiram, a seu modo, uma inteira geração e, em particular, os dois protagonistas. Claro, seu lugar é na nossa mochila.