1.
Ouvir falar em Sylvia Plath, para a maioria do público genérico, significa trazer à tona seu suicídio aos 30 anos. A notável escritora, cujo drama foi levado ao cinema por Christine Jeffs em 2003, com o título original de Sylvia, já muito jovem, era admirada como poeta, mas nem todos levam em conta sua única novela, A redoma de vidro, de forte cunho autobiográfico, publicado em janeiro de 1963, poucos dias antes de sua morte por suicídio. Pretendo não tocar nessas circunstâncias adjetivas; deixo isso a quem gosta de fazer crítica biográfica ou autobiográfica ou a quem busca justificativas para estudar esses temas.
2.
Esther Greenwood, moça interiorana da Costa Leste dos Estados Unidos, com estudos feitos, escrevia poemas e acabou por ganhar uma bolsa, junto com outras moças, para estagiar de redatora e modelo numa famosa revista para mulheres — talvez a mais famosa do país — situada em Nova York. Virgem como uma estátua de mármore, foi uma iniciação à vida e, ao mesmo tempo, uma degradação mental. O ano era o da execução pela cadeira elétrica do casal Rosenberg, judeus, membros do Partido Comunista, acusados de espionagem a favor da União Soviética, num processo que, em 1953, catalisou toda a nação e o resto do mundo.
3.
O livro A redoma de vidro é uma espécie de memória de Esther, escrito em primeira pessoa. A quem está seduzido pela autoficção como a summa invenção artística de nosso tempo, talvez devesse rever seus conceitos, incluindo na onda — entre centenas de outros — o livro de Sylvia Plath e a obra Confissões, de Agostinho de Hipona, do século 5 d.C. Como toda memória, é errante e confusa — tal como uma colcha de retalhos, em que cada segmento se situa num tempo e num espaço. Para unir e dar sentido a essa confusão, há uma personagem frágil, tímida, de baixa autoestima desde sempre e que se vê obrigada a interagir com as coisas novas que se lhe antepõem. O mais curioso é que o leitor, graças à competência técnica da ficcionista, consegue unir os diferentes elementos (seções) — e essa competência consiste em nos chamar a atenção, a um segmento, para algum dado, num nome, um lugar, que nos faz “estar em casa” de imediato. Eu estava sentada na namoradeira de veludo rosa de Jota Cê… Pronto: temos o espaço, temos a pessoa.
4.
Outra técnica bastante usada por Sylvia Plath para fixar uma personagem na cabeça do leitor — e, portanto, não ficar perdida nos episódios — são as comparações, sempre precisas e conotativas: ao abrir uma revista “o rosto de Eisenhower saltou aos meus olhos, careca e inexpressivo como um feto em uma garrafa”; “fico me sentindo desajeitada e defeituosa, como se fosse uma atração de circo”. Ou reflexões que nos levam a entender a questão essencial de Esther, que numa frase jocosa se apresenta com atitudes ambivalentes, preocupantes e sinistras:
[…] eu devia esquecer aquela história de pureza e casar com alguém que fosse impuro como eu. Desse jeito, quando ele começasse a arruinar a minha vida, eu poderia arruinar a vida dele também.
As descrições das colegas de hotel precisam ser suficientes para marcá-las perante as outras: “Joan sempre fez com que me sentisse humilhada, com aqueles dentes brilhantes feito uma sepultura e aquela voz rouca”.
5.
Todos esses virtuosos meios expressivos, contudo, não seriam suficientes para sustentar uma história. E esta história conta, como já dito, da descoberta da grande e feroz cidade, e da descoberta interior de sua pouco hígida situação mental. Não que houvesse uma relação de causa e efeito entre as duas coisas, e aí, parece-me, está a proposta estética dessa novela: Sylvia Plath introduz um ingrediente habitual nesses casos: o passado da personagem, que, no caso, foi do subúrbio de Boston. Esse fator pretérito é mesclado com os dois vetores tratados na história presente (Nova York e sua decadência mental). Digamos: é uma história apoiada num tripé de conhecimentos (pois, ao recuperar o passado, reconhece-o).
6.
A ida para Nova York deixou-a livre para pensar nas mil possibilidades: poderia ser poeta famosa, esposa, editora; era verão, e os figos estavam maduros. Muito jovem, logo criou uma metáfora para si mesma: “da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era o de uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, […], viagens à Europa, África e América do Sul […] um monte de amantes com nomes estranhos […] e acima desses figos, havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. […]. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto” e ela via os figos caindo ao solo, podres.
7.
Muitos pensam que A redoma de vidro é apenas a narrativa de uma loucura contada em primeira pessoa, tal como em Fuga para a escuridão, de Arthur Schnitzler. É isso, digo eu, mas antes de tudo é uma narrativa filosófica de viés existencial (existencialista), se pensarmos na frase de Sartre, dita de maneira livre: a vida não tem qualquer sentido — tem, sim, o sentido que dermos livremente a ela. Eis a razão da inquietude e do sofrimento devastador de Esther Greenwood: não saber o que fazia nesse mundo; em suma, sofria a angústia de não encontrar nada que predeterminasse o que ela seria (ou deveria ser). Esther poderia ter assinado esse fragmento escrito por sua criatura: Tenho apenas trinta anos/ E tal como um gato, tenho nove vidas para viver. Nove fardos, nove mortes. Esse drama poderia ser superado por outra jovem, e até com relativa facilidade — desde que essa jovem não fosse Esther, uma poeta visceral, que punha sua alma em tudo o que escrevia, dramatizando e contemplando suas metáforas sub specie aeternitatis, como propunha Spinoza. A dignidade de desejar o ascenso a um estágio de plenitude, sem escolhas, e este pode estar em vários âmbitos, como a morte voluntária ou a loucura.
8.
O que impressiona não é a inteligência precoce de um determinado jovem, nem sua capacidade de fazer cálculos infinitesimais ou tocar um concerto de Mozart, mas algo incompreensível: sua capacidade de refletir com angústia e seriedade sobre seu estar no mundo; como jovem, não passou por todas as experiências que poderiam relativizar e “ensinar-lhe” caminhos alterativos, de modo a poder comer um figo sem preocupar-se com os demais figos. Sylvia Plath, no entanto, foi capaz dessa proeza ficcional. Por essa notável percepção, inseriu-se no cânone dos escritores do século 20 que se preocuparam em problematizar a existência. Sim, A redoma de vidro deve estar em nossa mochila.