A educação sentimental

Em “A educação sentimental”, Flaubert transforma as ilusões de Frédéric Moreau em retrato duradouro do amor, da fraqueza e da condição humana
Gustave Flaubert, autor de “A educação sentimental”
01/07/2026

1.
Mais de dez anos depois do seminal e escandaloso Madame Bovary, que levou o autor aos tribunais e instituiu-se como o primeiro romance do Realismo, Flaubert surge com uma novela destinada a “apaziguar” seu público. Dizem que se trata de um “romance de formação” [devido ao título, claro, e ao subtítulo, A história de um jovem], mas não tenho o costume de aplicar taxonomias a nada, pelo caráter redutor e de pré-conceito que, queiramos ou não, acaba por interferir na fruição da obra, a qual virá encadernada num modo parcial de leitura; ademais, com uma perspectiva única corre-se o risco de perder outros aspectos, talvez mais relevantes, que acabam por ser subsumidos pelo rótulo. Não nego que, para fins pedagógicos, as classificações tenham sua valia, desde que o mestre saiba distinguir as peculiaridades de cada livro, e que o tornam único e, talvez, o levem às margens do segmento a que foi diminuído.

2.
Se isso é verdadeiro, e para estabelecer desde já o viés que mais me impressiona, vejo como tema medular de A educação sentimental o amor fulminado por uma interdição que deriva da mediocridade e da fraqueza, ambas articuladas sob a nobre sombra do platonismo. Um jogo de “almas sensíveis”, como li algures; mas, ora: caso não houvesse “almas sensíveis”, não haveria qualquer romance, pois de naufrágios sempre será feito. O itinerário do protagonista é simples de ser descrito — e eis aí a maior virtude de qualquer narrativa, a simplicidade: um jovem desiludido conhece e se apaixona perdidamente por uma senhora mais velha e casada, e a paixão é tanta que o ocupa por vinte anos, e nesse meio tempo ele se distrai [horrível este verbo] com duas ligações sentimentais de ocasião; uma, com uma cortesã e outra, com uma mulher rica, também casada, e que pode fazer com que ele ascenda socialmente. Confirma-se, portanto, a experiência da escrita: quanto menor for o número de episódios e pormenores da história (e, se possível, de personagens), mais certeira será possibilidade de investigação sobre a alma mais profunda das personagens — que, ao fim de tudo, é o que deseja o leitor, e que Flaubert soube aproveitar à perfeição usando uma técnica brilhante. Há outras ficções que têm essa mesma sorte: A morte em Veneza, A morte de Ivan Ilitch, A fera na selva, Perto do coração selvagem. [Que títulos mais depressivos! — et pour cause: quanto maior a introspecção, maior a tragédia.] Poder-se-ia dizer que são narrativas “sem história”, em que o episódio foi substituído pela investigação psicológica, em geral com real ganho. Então, seria possível dizer que A educação sentimental é um romance (na verdade, uma novela) de “personagem”? Sim, se isso significa aquela narrativa que “cria” uma personagem, e as outras são ancilares à sua composição. Outra decisão sábia, válida como sugestão para iniciantes: em vez de se perderem em mares de personagens, o mais seguro é centrar-se num só. Depois, com a experiência, é possível, sem medo, ampliar o espectro de interesses.

3.
Nesse quadro de vitalização de uma personagem única, permito-me invocar algumas semelhanças do Realismo literário. Frédéric Moreau pode ser considerado um remanescente do Romantismo — daí o escrutínio crítico com que Flaubert, o realista, o apresenta. À semelhança de Artur Corvelo, de A capital, de Eça de Queirós, outro realista, Frédéric tem paixões irresolvidas por mulheres idealizadas; assim, vive de ilusões, não é nada persistente em suas iniciativas e, ao mesmo tempo, compraz-se no pântano de sua própria mediocridade. Ambas as personagens, Artur e Frédéric, são jovens interioranos que se mudam para a capital, o moedor de carne perfeito de todos os arrebatamentos românticos. Se quisermos incluir mais um desses espécimes atacados do mesmo mal, aí está o jovem Lucien de Rubempré, de As ilusões perdidas, de Balzac, que igualmente vai para Paris para “vencer” na capital. Tudo isso forma o clima ideal para frustrações de todo gênero. Curioso observar como outra criatura de Flaubert, a referida Madame Bovary, tem o caráter dissonante em relação ao de Frédéric; ela assumiu e tentou, por todos os modos, reverter a fatalidade de seu destino. Nesse sentido, Frédéric é mais “humano” que Emma e, por isso, ganha a maior verdade possível e, enfim, a solidariedade do leitor. Não custa anotar que esse caudal de infelizes tem origem no Werther, com a diferença de que Goethe não era o realista focando um romântico, mas o próprio romântico que focava uma personagem romântica e seus males (aliás, o título completo, Os sofrimentos do jovem Werther, diz isso).

4.
A Frédéric Moreau não falta certo idealismo, pois se envolve (ainda que como flâneur) na Revolução de 1848. Não a entende, assim como Fabrizio del Dongo, personagem de Stendhal, outro idealista, que não se dá conta de que esteve “passeando”, sem entender nada, pela batalha de Waterloo, o evento bélico que mudaria os destinos da Europa. A cartuxa de Parma, mostra, tal como A educação sentimental, que nem sempre os ideais sobrevivem às exigências da prática. [Lamento que, por uma questão de foco, não possa seguir pela política, tão próxima do que ocorre agora mesmo em nosso país.]

5.
O fato de percorrer um tópos literário contemporâneo não faz de Frédéric uma espécie de tipo. Ele tem carne e osso e evolui durante a narrativa; há previsibilidade de conduta (o encantamento que termina no apagamento final), mas é nos pormenores que ele ganha força. Um encantamento primordial no tombadilho de um barco o faz ver assim uma mulher — Mme. Arnoux — que será sua obsessão por todo o livro:

Ela estava só, no meio do banco […]. Quando ele passou, ela ergueu a cabeça. […] Ela levava um grande chapéu de palha, com fitas cor-de-rosa que palpitavam ao vento por detrás dela. Seus bandôs negros contornavam amorosamente seu rosto oval, chegando às extremidades de suas sobrancelhas.

Enfim: incontornável. Então ocorre um longo trajeto existencial até chegar a este ponto crucialíssimo da narrativa:

Quando regressaram, Mme. Arnoux tirou o chapéu. A lâmpada, pousada sobre um console, iluminou seus cabelos brancos. Isso lhe foi um golpe em pleno peito. Para esconder sua decepção, ele se pôs de joelhos, pegou suas mãos e passou a lhe dizer ternas palavras.

6.
A conclusão é a de que A educação sentimental se impõe como obra superior de Flaubert e, mesmo que reconheçamos traços de sua história em outros autores, antecedentes e seus contemporâneos, somos capazes de lê-la com o frescor de coisa nova. Isso acontece porque Frédéric impõe-se como a exaltação de um homem comum, mas capaz de viver grandes ilusões e aceitar quando elas se revelam enganosas. No fundo, Frédéric é um épico e, ao mesmo tempo, um estoico. Com essa singularidade, estamos perante um livro que deve estar em nossa mochila.

Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

Rascunho