PNLL decenal: pacto e mercado

Novo PNLL confronta mercado real do livro e propõe integrar política pública, leitura e cadeia produtiva em horizonte de longo prazo
Ilustração: Taise Dourado
01/05/2026

Estou iniciando uma pequena série de artigos sobre o novo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) decenal, fruto da Lei 13.696/2018, que instituiu a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), buscando examinar seus elos com a cadeia criativa, produtiva, distributiva e mediadora do livro e da leitura. Começo aqui pelo segmento editorial e livreiro, tendo como base de diálogo a recém-publicada pesquisa Nielsen/CBL e o texto do novo PNLL. Não se trata apenas de saudar a existência do plano, mas de interrogá-lo à luz da realidade concreta do setor, porque é nessa fricção entre política pública e economia real que se mede a consistência de uma política de Estado.

O novo PNLL chega como resultado de um esforço de reconstrução institucional que implicou a total reconstrução do MinC e a reabilitação do MEC, ambos atingidos pela fúria destrutiva do governo anterior, o de Bolsonaro. O novo plano, ao mesmo tempo, surge como tentativa de conferir densidade decenal a uma área historicamente marcada por descontinuidades. Sua importância está menos no gesto administrativo e mais na afirmação de que livro, leitura, literatura e bibliotecas não são ornamentos da vida cultural, mas infraestruturas de cidadania. Um plano com horizonte de dez anos só faz sentido quando abandona a lógica episódica e se compromete com metas, governança, monitoramento e articulação federativa.

A pesquisa Nielsen/CBL ajuda a situar esse debate no terreno do presente. O dado de que 18% da população adulta comprou ao menos um livro nos últimos 12 meses indica um mercado vivo, mas ainda estreito diante da dimensão do país. Há crescimento, sim, mas ainda insuficiente para sustentar a expansão cultural e simbólica que o livro brasileiro exige. O ponto mais importante não é apenas constatar o avanço, mas perguntar quem compra, como compra, por que compra e por que tantos ainda permanecem fora desse circuito.

O perfil do consumidor é revelador. O peso das mulheres pretas e pardas da classe C entre os principais compradores de livros recoloca a discussão em termos sociais, raciais e de gênero concretos. O mercado do livro já não pode ser pensado como se seu público fosse homogêneo, urbano, altamente escolarizado e concentrado nos grandes centros. O Brasil real é mais desigual, mais diverso e mais complexo — e pleno de preconceitos marcados pela exclusão estrutural daqueles que nunca pertenceram a qualquer das elites que preservam as desigualdades históricas. O novo PNLL acerta ao incorporar transversalidades, diversidade e enfrentamento das desigualdades como fundamentos do plano, e não como apêndices retóricos.

Há também um dado decisivo na pesquisa: a livraria física continua sendo percebida como espaço de relaxamento, descoberta, cultura e conhecimento. Isso não é apenas uma preferência de consumo. É uma forma de dizer que a livraria segue sendo um lugar civilizatório, um espaço de circulação simbólica e convivência pública. Para o setor editorial e livreiro, essa é uma informação estratégica. A livraria não é apenas ponto de venda; é mediação, curadoria, experiência e pertencimento. O PNLL faz bem ao tratar a livraria como parte da cadeia do livro e da leitura, e não como simples terminal comercial.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que os canais de descoberta do livro mudaram profundamente. Sites de compra, redes sociais, recomendações pessoais, livrarias e criadores de conteúdo disputam hoje a atenção do leitor. Isso altera a ecologia da circulação do livro. O que antes se concentrava em vitrines, resenhas e mediações tradicionais agora se distribui entre plataformas, algoritmos, vínculos afetivos e comunidades digitais. Editoras e livrarias que ignorarem esse deslocamento correm o risco de perder o diálogo com novos públicos. O PNLL pode, justamente aí, ajudar a construir políticas de mediação mais inteligentes, capazes de articular o mundo físico e o digital.

Mas a pesquisa também expõe dificuldades persistentes: preço, falta de tempo, acesso desigual e distribuição territorial precária continuam como barreiras reais. Quando quem não compra livros diz que não o faz porque não tem tempo; porque o livro é caro; ou porque não tem fácil acesso a livrarias, o recado é inequívoco: ampliar leitores depende de condições materiais de leitura, não apenas de campanhas simbólicas. Não basta produzir livros; é preciso criar condições para que eles circulem, estejam acessíveis e cheguem aos territórios onde a leitura ainda é intermitente ou rarefeita.

É nesse ponto que o novo PNLL ganha relevância para editoras e livrarias. O plano não se limita à escola nem à biblioteca. Ele reconhece a cadeia criativa e produtiva do livro, o que é decisivo. Um plano nacional de leitura que não considere a sustentabilidade do setor produtivo seria incompleto. O PNLL, ao articular democratização do acesso, formação de mediadores, valorização simbólica da leitura e fomento à cadeia do livro, oferece uma arquitetura mais coerente: formar leitores e fortalecer o mercado não são tarefas concorrentes, mas complementares.

Há, nesse desenho, possibilidades muito concretas de avanço para os próximos dez anos. A primeira é a previsão de ações voltadas à redução de custos operacionais da cadeia, inclusive das livrarias físicas. A segunda é o fortalecimento da bibliodiversidade, inclusive nas compras públicas. A terceira é a ampliação da presença do livro em territórios vulnerabilizados, o que interessa simultaneamente à formação de leitores e à expansão do mercado. A quarta é a valorização da mediação cultural, porque mercado forte depende de público leitor estável, ampliado e qualificado.

Outro ponto importante está na institucionalização do plano. Governança, metas, monitoramento e articulação entre MinC, MEC, estados, municípios e sociedade civil são elementos essenciais para que a política não se desfaça ao primeiro ciclo de governo. Essa talvez tenha sido a maior fragilidade histórica das políticas para o livro no Brasil: a descontinuidade. Sem instituição não há sequência; sem sequência não há confiança; sem confiança não há investimento duradouro. O novo PNLL procura exatamente construir esse chão mínimo de estabilidade.

Há ainda uma dimensão de mercado que precisa ser dita sem receio. O livro disputa hoje atenção com inúmeras outras formas de consumo, lazer e sociabilidade. Isso exige inteligência estratégica do setor. Não basta vender mais; é preciso fazer o livro ocupar novamente um lugar reconhecido no cotidiano das pessoas. E isso depende de políticas públicas, mas também de editoras, livrarias, bibliotecas, escolas e redes de mediação capazes de devolver ao livro sua presença pública. O livro não é um bem acessório. É um instrumento de formação intelectual, sensível e democrática.

Talvez o ponto mais fértil entre a pesquisa e o PNLL seja este: o Brasil tem público potencial, tem capacidade produtiva, tem instrumentos institucionais mais consistentes e tem um diagnóstico mais refinado do comportamento leitor e comprador. O que falta é transformar esse conjunto em trajetória continuada. O novo PNLL oferece a moldura; a pesquisa Nielsen/CBL oferece o retrato do presente. Entre uma e outra, o que se impõe é trabalho político, compromisso público e visão de longo prazo.

É nessa direção que pretendo seguir os próximos artigos, examinando, elo por elo, os pontos de contato entre o novo PNLL e a cadeia do livro e da leitura. Começo pelo segmento editorial e livreiro porque é aí que a política pública encontra a economia concreta do livro e é possível ver, com mais nitidez, se o plano será apenas um documento bem-intencionado ou o início de uma nova etapa para leitores, editoras, livrarias e bibliotecas no Brasil.

As cartas estão na mesa. Aos governantes dos próximos 10 anos cabe a missão de cumprir o PNLL. Aos profissionais do setor produtivo e comercial caberá a participação crítica e um trabalho responsável. O esforço conjunto poderá catapultar bons resultados para a economia do livro, para a cidadania e a democracia de que precisamos.

José Castilho

É doutor em Filosofia/USP, docente na FCL-Unesp, editor, gestor público e escritor. Consultor internacional na JCastilho – Gestão&Projetos. Dirigiu a Editora Unesp, a Biblioteca Pública Mário de Andrade (São Paulo) e foi secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (MinC e MEC).

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