A mediação de leitura não é um gesto fortuito ou meramente acessório, mas um ato de fundação do humano na pólis e um exercício de estesia política.
Compreender a figura do mediador exige, antes de tudo, mergulhar na zona de desenvolvimento de Lev Vygotsky (A formação social da mente), em que o aprendizado e a subjetividade se constituem na interação dialógica, no entrelugar vital do eu com o outro. É, como propõe Jean Caune (La médiation culturelle: une construction du lien social), a costura simbólica que une o sujeito ao patrimônio cultural comum, transformando o silêncio do objeto livro em uma voz compartilhada que ressoa no espaço público. Nesse percurso de descoberta, a leitura revela-se, na perspectiva sensível de Michèle Petit (Ler o mundo), como um refúgio de hospitalidade e uma reconstrução da interioridade em tempos de crise ou desolação, permitindo que o leitor habite a si mesmo por meio da palavra alheia. Essa jornada de emancipação exige a consciência permanente de que a leitura do mundo precede e sustenta a leitura da palavra, lição perene de Paulo Freire (A importância do ato de ler), e de que o acesso ao código escrito é uma construção cognitiva e social de imensa complexidade, como demonstrou o rigor de Emilia Ferreiro (Psicogênese da língua escrita).
Ler, portanto, não é meramente processar informações ou decifrar grafemas, mas permitir que algo nos aconteça, transformando a informação bruta em experiência viva. Trata-se do exercício pleno do direito à literatura, que Antonio Candido (O direito à literatura) definiu como uma necessidade básica e universal, tão vital para a integridade do espírito quanto o pão ou o abrigo o são para o corpo, pois a literatura humaniza o homem ao dar forma aos seus sentimentos e sonhos. Esse processo de letramento, defendido por Magda Soares (Letramento: um tema em três gêneros) como a inserção efetiva e crítica nas práticas sociais da escrita, encontra na história da leitura de Marisa Lajolo (Do mundo da leitura para a leitura do mundo) o seu lastro de memória, resistência e transformação. O mediador, nesse cenário de densidade teórica e compromisso ético, é a ponte viva, a infraestrutura humana e o intérprete sensível que garante que o encontro entre o texto e o leitor seja um evento de liberdade.
É precisamente sob essa égide de profundidade conceitual que a consolidação do novo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL 2026-2036) se apresenta, representando, antes de tudo, o amadurecimento de uma infraestrutura democrática que o Brasil começou a desenhar com a Lei 13.696/2018, da Política Nacional de Leitura e Escrita. Nessa arquitetura, o Eixo 2 — Formação de Mediadores — surge como pilar de sustentação, pois, sem o mediador, o livro é um objeto inerte; com ele, torna-se um dispositivo de emancipação.
O mediador de leitura deve ser compreendido, portanto, como um agente de Estado, cuja função não é a de um animador cultural, mas a de um garantidor de direitos. Quando falamos em formação, estamos tratando da capacitação técnica, estética e política de quem opera a ponte entre o acervo e o cidadão, encontrando na Lei da PNLE a base legal para exigir que essa formação seja contínua, remunerada e valorizada, e que o livro e a leitura sejam integrados ao cerne das políticas de desenvolvimento humano e redução de desigualdades.
Essa visão dialoga com as diretrizes internacionais, como as do Plano Nacional de Leitura (PNL) de Portugal, em que a leitura é definida como um encontro dialético: não se trata apenas da absorção de informações contidas no texto, mas da fricção entre essas informações e o conhecimento prévio, a bagagem cultural e a sensibilidade do leitor. A experiência portuguesa nos ensina que políticas públicas de leitura só ganham perenidade quando se tornam transversais, servindo de substrato sobre o qual se constroem a saúde, a justiça e a cidadania. Sob essa ótica internacional, o mediador é aquele que traduz o código escrito para a realidade vivida, transformando o ato solitário de ler em um gesto solidário de compreensão do mundo.
No âmbito da educação formal, esse papel é redefinido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e pelo Plano Nacional de Educação (PNE), em que o professor deixa de ser um mero instrutor de gramática para se tornar o “leitor-guia” que apresenta a floresta dos signos aos iniciantes. Como bem observa Marisa Lajolo, o letramento literário na escola exige que o professor seja, ele próprio, um leitor apaixonado e crítico, pois não se ensina o que não se pratica.
A transição do bibliotecário “guardião de silêncios” para o “dinamizador de saberes” é, igualmente, uma exigência das diretrizes da IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions), do CFB (Conselho Federal de Biblioteconomia) e da FEBAB (Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições). A biblioteca contemporânea deve ser um organismo vivo, um centro de convivência onde o bibliotecário mediador atua na curadoria, na escuta ativa e na criação de itinerários de leitura que respeitem a autonomia do sujeito. Essa transição para a Biblioteca Viva — conceito consolidado nas políticas públicas e nas diretrizes da IFLA para redefinir espaços de leitura como polos dinâmicos de convivência — encontra no Brasil exemplos práticos de imensa força. É impossível não evocar, nesse sentido, o legado de Tânia Rösing (UPF) e das Jornadas Literárias de Passo Fundo, que materializaram essa vivacidade ao transformar uma cidade inteira em um território leitor, demonstrando que a mediação profissional altera o DNA cultural de uma comunidade, organizando não apenas estantes, mas encontros e descobertas.
Esse poder simbólico deve ser redistribuído, como reconhece o PNC (Plano Nacional de Cultura), especialmente nas periferias e bibliotecas comunitárias. Bel Santos Mayer (IBEAC – Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário) nos ensina que mediar leitura nesses territórios é promover a redistribuição do poder simbólico, permitindo que o jovem da periferia deixe de ser apenas “falado” pelo sistema para tornar-se autor da sua própria narrativa. Nosso país já tem gigantes que produzem e incentivam a voz periférica, mudando o eixo do centro tradicional. Os trabalhos literários de Sérgio Vaz (Cooperifa), de Ferréz (Literatura Marginal) e de Rodrigo Ciríaco (Mesquiteiros/SarauZim) são exemplos de uma mediação radical que começa na oralidade, no ritmo do rap e no grito do slam, nos saraus que dessacralizam o livro e formam o leitor.
Não pensemos, porém, que a formação do mediador possa ser descuidada. Como defende, por exemplo, Dolores Prades (Instituto Emília), a escolha do acervo e a formação do mediador devem fugir dos facilitismos mercadológicos e das obras puramente utilitaristas, pois a grande literatura é aquela que desafia, incomoda e amplia os horizontes do possível.
A mediação, em sua essência mais profunda, é um “ato de hospitalidade”, como define Eliana Yunes (fundadora da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio). Mediar é acolher o outro em sua diferença, praticando a alteridade por meio da ficção e preparando a mesa para o banquete da palavra, garantindo que o leitor se sinta capaz de dialogar com vozes de todos os tempos e lugares.
Para que o PNLL 2026-2036 não seja apenas um documento de belas intenções, é urgente um investimento maciço, contínuo e descentralizado na formação desses agentes mediadores — notadamente bibliotecários, professores e agentes culturais —, com bolsas de estudo, centros de formação permanente e planos de carreira dignos. A formação de mediadores é o investimento de maior retorno social que um país pode fazer. Se queremos uma nação capaz de discernir entre o fato e a mentira, entre o argumento e o grito, entre a democracia e o autoritarismo, precisamos de mediadores que ajudem o Brasil a ler a si mesmo. A leitura é o nosso maior projeto de infraestrutura; o mediador, o seu arquiteto mais fundamental.