Vivemos um paradoxo que não é apenas estatístico, mas existencial. De um lado, a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil acendeu um alerta: o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos, e o percentual de não leitores chegou ao patamar histórico de 53% da população. É uma constatação que deveria envergonhar o país.
Mas — e esse “mas” é o que me move a escrever esta coluna — há outro movimento em curso, menos visível nas grandes manchetes, que contradiz a desesperança. O Panorama do Consumo de Livros, iniciativa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) realizada pela Nielsen BookData, registrou o ingresso de cerca de 3 milhões de novos compradores de livros no mercado editorial brasileiro e revelou uma transformação: o maior grupo consumidor de livros no Brasil hoje é composto por mulheres pretas e pardas da classe C.
Não se trata, é preciso dizer, de uma contradição entre as duas pesquisas, mas de ângulos complementares de um mesmo país em disputa. A pesquisa Retratos mede hábitos e práticas de leitura, o tempo dedicado ao livro. O Panorama mede o consumo, o acesso material e a entrada no mercado editorial. Uma informa que a base da pirâmide leitora encolheu. A outra informa que novos protagonistas emergiram onde antes havia silêncio e invisibilidade.
Como observou Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas econômicas e setoriais da Nielsen BookData, esse protagonismo de mulheres negras rompe lógicas históricas e impõe ao setor editorial a necessidade de redefinir estratégias, direcionar políticas de incentivo e criar representatividade assertiva para atender a esse público. O que o mercado começa a perceber, as políticas públicas precisam abraçar com compromisso.
Se o diagnóstico acendeu o sinal vermelho, a política pública reagiu. Desde 2023, o MinC e o MEC empreendem um esforço de reconstrução institucional iniciado com a regulamentação da Lei nº 13.696/2018, a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), pelo Decreto nº 12.166/2024, e coroado pela aprovação do novo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL 2026-2036), pela Portaria Interministerial MinC/MEC nº 12, em 23 de abril de 2026. A meta é ambiciosa: elevar o percentual de leitores de 47% para 55% até 2035.
E a política pública de leitura e escrita voltou a existir com escala e investimento. A integração das bibliotecas públicas e comunitárias ao PNLD-Literário — com investimentos de R$ 2,7 bilhões — já distribuiu 4,1 milhões de livros diretamente para cerca de 4 mil bibliotecas em territórios vulneráveis. E a meta é atingir 100 milhões de livros até 2035. O PNLD-EJA, após uma década de interrupção, foi reativado em 2026 com R$ 24,5 milhões destinados ao letramento de jovens e adultos. A Trilha de Ativação do PNLL, lançada pela Sefli/MinC em parceria com a UFAL, oferece formação contínua a gestores estaduais e municipais para que criem ou atualizem seus próprios planos de livro e leitura, capilarizando a política pública. A Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) tornou-se o principal motor de financiamento na ponta: estados e municípios podem utilizar os repasses federais para lançar editais descentralizados de subsídio a bibliotecas e feiras literárias locais, que hoje somam mais de 500 no Mapa de Eventos Literários do MinC. Na parceria entre o MinC e o Ministério das Cidades, os novos empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida passaram a entregar salas e espaços de leitura integrados às moradias, alcançando centenas de residenciais. Os MovCEUS levam livros a 131 cidades desassistidas. O Proler Bibliotecas foi retomado. A plataforma BiblioBR organiza o cadastro nacional de bibliotecas. E o Programa de Apoio à Tradução e Internacionalização, em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Guimarães Rosa (MRE), financia editoras estrangeiras para traduzir e publicar autores brasileiros no exterior. Todas essas ações, por determinação do governo federal, exigem contrapartidas obrigatórias de formatos acessíveis — braille, audiolivros, fontes ampliadas — com prioridade para comunidades periféricas, quilombolas e indígenas.
Esses primeiros passos da retomada pública na formação de leitores têm eixos e perspectivas decenais, mas essa retomada, sozinha, não segura o fio da leitura. Onde o Estado chega com atraso, a sociedade civil já está presente.
Olhemos para as festas e feiras literárias que brotam em todo o território nacional e se multiplicam. Também as bienais do livro se ampliam nas grandes cidades, os saraus ocupam ruas, centros culturais e associações de bairro, os slams tornam viva a voz literária de quem sempre foi silenciado, e tudo isso comprova que a leitura não morreu. Ela mudou de forma, de lugar e de protagonista.
As bibliotecas comunitárias que integram a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) demonstram que os territórios vulneráveis não são terrenos estéreis para a leitura. Pelo contrário: é neles que a mediação literária ganha densidade política. Como ensina Bel Santos Mayer, do Ibeac, mediar leitura na periferia é promover a redistribuição do poder simbólico, permitindo que o jovem deixe de ser apenas “falado” pelo sistema para se tornar autor da própria narrativa.
E há também as novas livrarias independentes que abrem em bairros antes desprovidos de qualquer oferta de livros. As editoras que apostam em autores negros, indígenas, periféricos e LGBTQIAPN+. Os clubes de leitura que reúnem dezenas de pessoas em torno de um mesmo livro, recuperando a dimensão coletiva de uma prática que o mercado empurrava para o isolamento.
É nesse emaranhado de forças — a política pública que se reconstitui, a sociedade civil que não se cala, o mercado editorial que descobre novos protagonistas, os mediadores que fazem a ponte entre o livro e o leitor — que precisamos ler o momento atual. Como procurei demonstrar em O poder das palavras e outros poderes (Emília/Solisluna), a formação de leitores não é uma política setorial: é uma luta constante, que rema contra a exclusão estrutural do país ao direito à leitura e, em última instância, contra aqueles que preferem um povo subalterno e obediente a outro que pensa por si mesmo.
A leitura literária — esse trabalho árduo de habitar as contradições humanas, construir arquiteturas de sonhos e projetar outros mundos possíveis — é o antídoto mais fino contra o individualismo das telas, o isolamento que a tecnologia de consumo impõe, o confinamento dos diálogos que a era digital acelera. Num tempo em que os algoritmos nos empurram para bolhas que repetem o que já pensamos, a leitura nos joga no desconforto produtivo do encontro com o outro.
As bibliotecas públicas e comunitárias são os templos laicos desse encontro. Os saraus e slams são as ágoras onde a palavra volta a ser experiência partilhada. Cada festa literária é uma praça pública recuperada. Cada clube de leitura é uma célula de democracia ativa.
Não nos esqueçamos! A luta pela formação de leitores é uma luta pela sociabilidade perdida, pela vida comunitária, pelo entendimento construtivo de que o bem comum é maior do que os interesses privados. É uma luta contra o isolamento e a favor do encontro. E é, no fundo, a aposta de que uma nação que lê é uma nação que ainda não desistiu de si mesma.
O PNLL 2026-2036 precisa ser celebrado e defendido, mas sua eficácia dependerá de algo que nenhuma lei pode garantir: a capacidade de articular Estado e sociedade civil em um mesmo propósito.
O fio que não arrebenta — esse fio tênue que conecta uma biblioteca comunitária na periferia de São Paulo a uma feira literária no interior do Nordeste, um sarau na zona norte do Rio a uma nova livraria independente em Belém — é o mesmo fio que tece a democracia. E ele só se mantém inteiro se cada um de nós — leitores, mediadores, editores, livreiros, bibliotecários, professores e cidadãos — segurarmos juntos as pontas.
Que o PNLL seja o sopro de vida que a nossa cidadania espera. Que as ações do MinC e do MEC encontrem chão fértil nos municípios e nos territórios. E que a sociedade civil permaneça vigilante, porque a leitura é um direito e direitos não se negociam — conquistam-se e defendem-se todos os dias.
Tomara que estejamos à altura desse desafio.