Aforismos terminais

Aforismos de Zaven Paré têm a leveza súbita de uma agudeza e compõem um inventário exato de nossa desgraça
Zaven Paré por Fabio Abreu
01/05/2026

Zaven Paré, artista plástico francês que há anos vive entre Paris e o Rio de Janeiro, decidiu criar também com letras. O resultado foi um livro surpreendente: Aforismos de shopping center, escrito um pouco em cada língua dominada por ele, mas muito bem ajustado para o português pela historiadora Andrea Daher, da UFRJ, que também é mulher do artista. Alguns acasos são a favor, já se vê. Outros, não: a capa, uma apropriação do artista pop Ed Ruscha, ficou complicada demais em termos gráficos e a impressão acabou se tornando um borrão o que deveria ser um efeito de dobra em 3D.

O livro de Zaven Paré é exatamente o que o título promete: uma coleção de aforismos em forma de frases curtas e agudas. O assunto único de todos eles é a figura de um país consumidor, o Brasil, e de um mundo, o nosso, entregue à circulação automática de seus absurdos. Ou seja, a forma breve do aforismo, aqui, está arranjada para fixar instantâneos de uma vida social degradada, na qual cada frase recolhe, como que em miniatura, a lógica de uma civilização já incapaz de distinguir entre devoção, consumo e devastação.

Para que não fique muito abstrato o que estou dizendo, dou alguns exemplos colhidos ao léu no livro:

WORSHIP [Adoração]// Depende da estação:/ ou é playlist gospel soft,/ ou loja conceito com cheiro de esmalte.
BLACK FRIDAY// Festa pagã do “quero agora”./ Todo mundo gozando junto,/ pra ver se sente alguma coisa.
ESTOQUE// Quando o produto falta,/ a embalagem mente por ele.
JESUS// Foi visto numa camiseta em promoção.

Creio que bastam esses exemplos para se perceber a chave de leitura do livro, que pode ser formulada da seguinte forma: no Brasil, em se plantando, nada dá mais do que três ativos estratégicos, a saber: postos de gasolina, igrejas evangélicas e shopping centers. A fórmula tem algo de anedota, de conversa casual de rua, mas vem justamente daí a sua estranha força. Os três termos do axioma principal operam fora de qualquer esquema de interpretação política, econômica ou sociológica, exibindo apenas o constrangimento de sua própria lógica de tolices partilhadas. Além disso, felizmente, Zaven não tem vocação denuncista, nem endossa qualquer doxa pequeno-burguesa. Os aforismos simplesmente funcionam em outro registro, o do estranhamento do que se dá diante de nossos olhos bem treinados para não ver.

Em resumo, os aforismos postulam que os três termos — postos, igrejas, shoppings — são funcionalmente intercambiáveis; ou seja, compõem um mesmo dispositivo de circulação de afetos toscos e mercadorias fajutas. Por isso mesmo, a epígrafe do livro é atribuída por Zaven ao finado Silvio Santos, o eterno rei do baú e do carnê cobrado à revelia, mas sempre mascarado de simpática alegria.

Aforismos… revela-nos, portanto, que o combustível que acelera a catástrofe futura, que a salvação oferecida em prestações emocionais e que o consumo apresentado como horizonte sensível da vida pertencem à mesma gramática da destruição. Mais do que coexistirem, os três traduzem-se perfeitamente uns nos outros, reduzindo as gentes a espectros danados que dançam ao compasso voraz da compra.

Para dizê-lo de outra maneira, os aforismos condensam um mecanismo no qual cada peça funciona como um pequeno conversor de equivalências aberrantes: a extinção do futuro implícita no combustível fóssil aproxima-se docemente ao anúncio da segunda vinda de Cristo; o templo cada vez mais repleto de gente desesperada e sem rumo assume a sintaxe própria do varejo; o shopping center aperfeiçoa a liturgia dos fiéis e — suprema glória do mercado! — a mercadoria adquire espessura sacramental.

Se, desse ponto de vista, o nonsense está no coração dos aforismos de Zaven Paré, convém notar que ele é deduzido de uma lógica rigorosa, surpreendida dentro de nós e em nosso cotidiano como um ponto cego que já não podemos perceber. A irracionalidade contemporânea, levando a cabo eficazmente os seus próprios protocolos de eficiência e desejo, já não pode produzir senão imagens disparatadas, naturalizando o nonsense.

Curiosamente, existe uma singular delicadeza na ferocidade dos aforismos de Zaven Paré. Por vezes eles são engraçados, mas raramente o riso que provocam convoca o leitor para partilhar qualquer traço de superioridade moral ou intelectual. Os seus achados não falam de cima. Falam de dentro da saturação do ar-condicionado, da luz de LED, da fila, da vitrine, do algoritmo, do automatismo devocional da compra. Assim, se os aforismos se aproximam do epigrama moral, isso se dá sobretudo pela atitude de contenção diante do desastre, mas não há neles qualquer rastro de veleidade edificante.

O essencial do livro está em demonstrar que o nexo entre religião, energia e consumo deixou de ser metáfora crítica para se tornar experiência ordinária. Os aforismos não dizem que o shopping substitui a igreja, ou que a igreja adota técnicas de mercado, ou que o posto de gasolina participa da mesma economia simbólica. Dizem, isso sim, que os três operam como modalidades complementares de administração do desamparo absoluto. Num caso, promete-se deslocamento; noutro, redenção; noutro, ainda, pertencimento estético ao mundo das coisas compráveis. Em todos os três, porém, o sujeito (fiel-motorista-cliente) é reconduzido a uma forma de obediência.

A oração pela vaga no estacionamento, o culto da vitrine, a procissão da fila do provador, tudo isso deixa de ser simples piada para adquirir densidade de alegoria in factis: as coisas exibem as pessoas tolas que nos tornamos. Da mesma forma, o país que os aforismos deixam entrever é aquele em que o afeto mais sincero já tomou a forma de valor agregado da mercadoria.

Seria fácil, diante disso, reduzir o livro a uma sátira do Brasil recente, o do agro-ogro-milico-evangélico. O alcance dos aforismos, contudo, é mais amplo, porque a sua matéria diz respeito à configuração contemporânea do desejo sob o capitalismo terminal — tudo isso visto a partir de um observatório franco-carioca, especialmente bem situado em matéria de decadência. O Brasil fornece um cenário hiperbólico e pitoresco da degradação, mas, por meio dele, enxerga-se um fenômeno muito mais disseminado: a conversão generalizada da transcendência em interface, da crença em engajamento, da comunhão em ordem de pagamento.

É verdade que os aforismos, lidos um a um, têm a leveza súbita de uma agudeza; relidos em conjunto, entretanto, compõem um inventário exato de nossa desgraça. Percebe-se ali, com humor implacável, como aprendemos a desejar aquilo mesmo que nos rebaixa e desqualifica. Como nos prontificamos a ser reles. E se a leitura diverte tanto quanto deprime, é porque Zaven Paré encontrou a medida sutil de uma sátira que já não acredita em cura, mas tampouco abdica do seu gesto criador. Entre o riso e o acabrunhamento, o seu livro fixa com precisão incomum a liturgia do vazio na qual seguimos, obedientes, rumo ao caixa.

REPETIR// Eu não sou influenciado.

Aforismos de shopping center
Zaven Paré
7Letras
108 págs.
Alcir Pécora

Crítico literário, é autor de Teatro do Sacramento (1994); Máquina de gêneros (2001) e Rudimentos da vida coletiva (2002). É organizador de A arte de morrer (1994), Escritos históricos e políticos do Padre Vieira (1995), Sermões I e II (2000-2001); As excelências do governador (2002); Lembranças do presente (2006); Índice das coisas mais notáveis (2010); Por que ler Hilda Hilst (2010). Editou as obras completas de Hilda Hilst (2001-2008), Roberto Piva (2005-2008) e Plínio Marcos (2017).

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